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A noite em que o fado avieiro não se cantou “a capella”
Animação. Pescadores cantaram os seus fados típicos no final de uma caldeirada

A noite em que o fado avieiro não se cantou “a capella”

O encontro quis juntar duas culturas da Póvoa de Santa Iria: a da cidade e a dos avieiros. Em noite de festa, os pescadores de água doce só estranharam as guitarras e as violas que acompanharam os versos. Os músicos tocaram a troco de uma caldeirada.

Edição de 15.03.2017 | Cultura e Lazer

Numa semana apenas esgotaram os 120 lugares para o primeiro convívio de fado avieiro promovido pela ACAPSI - Associação Cultural Avieiros da Póvoa de Santa Iria. A ideia de juntar “fadistas batidos do espectáculo aos avieiros que cantam o fado”, partiu de Fernando Barrinho, presidente da associação desde a sua fundação, em 2012. Os “fadistas da vila” aceitaram o repto, para orgulho e nervosismo dos avieiros, habituados a lançar as vozes no final dos almoços, sem instrumentos a acompanhar a melodia.
“Todo o avieiro, bem ou mal, canta o seu fado”, revelou a O MIRANTE Fernando Barrinho. O actual líder da comunidade avieira da Póvoa de Santa Iria é agente da PSP em Lisboa e tem raízes alentejanas - nasceu em Vendas Novas - mas a paixão por uma avieira havia de lhe trocar as voltas ao destino (ver caixa).

“Há sempre rivalidades entre avieiros, todos acham que são os melhores”
“Eu já ajudava os pescadores antes, mas nunca estive ligado ao grupo. Com a modernização da zona ribeirinha decidimos formalizar a associação e convidaram-me para ser o presidente”, explica, orgulhoso, Fernando Barrinho. É que o presidente nunca foi pescador: “Só faço pesca desportiva”, mas isso não o impede de se sentir avieiro “por afinidade”. Gosta e quer que se mantenham as tradições, como a bênção dos barcos e a marcha típica avieira.
Ajuda ainda a actual boa harmonia com a autarquia: “Nem sempre aconteceu, não interessa de quem era a culpa, mas agora existe uma boa relação entre os avieiros e a câmara”, confessa. Mas os avieiros são também conhecidos pela forma aguerrida como defendem os seus… contra quem vier. “A associação é uma porta aberta ao mundo, há sempre rivalidades em relação à pesca, à dança ou ao fado. Todos acham que são os melhores”, relativiza Fernando Barrinho.

Convivas vieram do norte e de Lisboa
As instalações da associação, onde decorreu o convívio, são cedidas pela Câmara de Vila Franca de Xira e ficam mesmo junto ao Tejo, a dois minutos do Bairro dos Pescadores. Sócios são para cima de 400, mas no jantar seguido de fados estavam não só avieiros, mas também gente de Lisboa e do norte, muitos a assistir pela primeira vez a um convívio que é barulhento e apaixonado, mas acima de tudo verdadeiro.
É de convívios do género e dos vários eventos de gastronomia que a associação promove, a par das ajudas dos sócios, que a associação sobrevive. Por isso, o que aconteceu no passado sábado é “para repetir”, também porque não deixa de ser uma forma “de mostrar a comunidade avieira e as suas tradições a quem não a conhece”, frisa o presidente da ACAPSI.
No entanto, antes do primeiro acorde de guitarra, Fernando Barrinho quis deixar o esclarecimento: “Esta associação foi buscar as bases aos grupo dos pescadores, não nos esquecemos dos nossos antepassados e dos que já partiram”, disse, arrancando uma salva de aplausos à plateia. Os agradecimentos visaram também os músicos, que acompanharam os fadistas sem pedir nada em troca, a não ser “uma boa caldeirada”. Foi-lhes servida, pois claro.
Depois, cantaram Cruz Monteiro, Vicente Generoso e Rosa Assunção, intercalados com os avieiros e avieiras Verónica Leal, António José Silva, Emília Letra e João Moreira. Com muito nervosismo à mistura, e vários gritos de apoio da parte dos convivas da comunidade avieira, os mais entusiasmados por poderem mostrar aos outros como os “seus” cantam tão bem.

O último a nascer num barco saveiro

António José tem 55 anos e é avieiro… desde o nascimento. “A minha mãe teve nove filhos, eu fui o último a nascer num barco saveiro”, conta. Ainda é pescador de águas doces, uma vida difícil, mas que não trocava por outra. “Ali [no barco] sinto-me eu, ninguém manda em nós, somos livres”, diz, cheio de emoção nos olhos e pena porque nenhum dos seus três filhos lhe herdou a paixão.
“O mais novo tem 17 anos e nem sabe manobrar um barco e isso não pode ser, é filho de um avieiro. A culpa é da mãe, que tem medo”. Já António José só tem medo de trovoadas e relâmpagos: “Era pequeno e ia no barco quando apanhámos uma noite dantesca. Fiquei traumatizado”, diz este homem grande, que também canta o fado, apesar de ter ficado nervoso por cantar com instrumentos a ditarem o tom: “Só estou habituado a cantar à capela”, desabafou.

Anabela deu a Fernando dois amores

Chama-se Anabela Barrinho e é a culpada pelo amor de Fernando à comunidade avieira. “Sou avieira desde que nasci, o meu pai foi pescador toda a vida”, revelou. Agora, Anabela já não anda à pesca, mas ainda vende peixe no Mercado de Alvalade. Conheceu o marido há 28 anos, em Lisboa. Foi amor à primeira vista. “Ele sempre admirou a comunidade, gosta muito e até é mais empenhado do que eu. Às vezes até nos falta a nós um bocadinho, porque ele tira de casa para dar aqui [ à associação]”, confessou.

A noite em que o fado avieiro não se cantou “a capella”

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