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Ação pela biodiversidade

Ao proibir, nada se valoriza e muito menos a natureza que se quer proteger e salvaguardar.

Edição de 15.03.2017 | Opinião

O magnífico Festival Terras Sem Sombra (FTSS), que acontece no Baixo Alentejo, não é perfeito e tem como o seu maior defeito não decorrer em todo o país. Enquanto existir podemos ter orgulho em sermos portugueses. Odemira foi o último concelho que acolheu o festival. Depois da jornada pelo património e pela música no sábado, no domingo, como sempre, aconteceu uma ação sobre a biodiversidade local chamando a atenção para o soberbo rio Mira. Ouvi de alguns estrangeiros presentes dizer que “como isto, só na Amazónia”. Como quase sempre é necessário virem os de fora enaltecer o que temos de excelente. Na verdade, o Mira, como muitos outros rios em Portugal, é um património sem paralelo na Europa. Navegar de Vila Nova de Milfontes até quase Odemira, numa manhã algo invernosa, é uma experiência fabulosa. Julgo que, como em muito que vale a pena, o país não tem uma noção, sequer aproximada, do valor deste património. Quem já bem o descobriu são as dezenas de equipas estrangeiras de topo no remo e canoagem que aproveitam estas excecionais condições para treinar; porque será? O significativo troço final do rio, com meandros (voltas na terminologia local) acompanhados de brutais sapais a que pomposamente, e muito bem, chamam “pradarias marítimas”, acolhe vida infinita, onde quem parece ficar de fora é o bicho homem. Este troço final de alguns quilómetros e o estuário, entre outros estatutos de conservação, está incluído no Parque Natural do Sudoeste. Ainda bem que assim é. A desgraça acontece, como todos bem sabemos, quando por ignorância e estupidez, provavelmente o maior defeito da humanidade, qualificar, como é o estatuto de Parque Natural, conservar e proteger, em Portugal, é sinónimo de proibir. Ao proibir, nada se valoriza e muito menos a natureza que se quer proteger e salvaguardar. Ouvir os locais a este respeito é bastante elucidativo. Triste país este onde é proibido acampar no campo; que mais nos poderá surpreender? O que aqui se escreve não deve ser confundido, de todo, com o desejo do “boom turístico” que por aí se vive, apregoa e enaltece, esse sim brutalmente negativo e efémero; lá havemos de chegar quando a realidade dos factos nos cair em cima.
Voltemos ao FTSS para terminar e enaltecer tudo o que este representa. As excelentes iniciativas que vão acontecendo no Baixo Alentejo devem servir de exemplo, ser apoiadas e disseminadas. Nem tudo é mau e o país deve virar-se para o bom como forma de anular a mediocridade que por aí prolífera. Só se valoriza o que se conhece e só se protege o que se valoriza. O país tem muito a ganhar se tiver uma natureza viva e vivida. Se o Ministério do Ambiente não percebe isto de vez mais vale fechar as portas e não gastar dinheiro dos nossos impostos.
Carlos Cupeto – Universidade de Évora

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