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24/05/2017
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“Gostava de conseguir despartidarizar a vida em Alpiarça mas já não sei se é possível”
Ricardo Hipólito, presidente da mesa da Assembleia de Freguesia de Alpiarça e guardião de memórias locais
Edição de 29.03.2017 | Entrevista

Ricardo Hipólito entrou e saiu das estruturas do PCP quando era jovem e nunca mais sentiu necessidade de estar filiado, porque quer ser um pouco mais livre que os outros, os filiados. Nos últimos anos tem ocupado o seu tempo livre, depois do trabalho, a recolher memórias das pessoas de Alpiarça. É um guardião de vivências, de um património imaterial que se mede por 600 gravações de conversas. Aos 59 anos vai receber uma medalha no dia do concelho de Alpiarça, a 2 de Abril. Ricardo gosta de agir e pensar livre e nesse registo diz lamentar a falta de respeito que a política atingiu nos últimos tempos em Alpiarça, o que só tem dado uma imagem negativa e prejudicial do concelho. É presidente da Assembleia de Freguesia de Alpiarça e confessa que, apesar de tudo, a política continua a fazê-lo sonhar e que, se todos se unirem com as diferenças de cada um, é possível melhorar o seu concelho.

Vai receber uma medalha no dia do concelho porque já fez o suficiente pela terra? Nunca se faz o suficiente pela terra. É um gesto que não me é indiferente e fico contente.

O vereador Francisco Cunha votou contra, isso não retira importância à distinção? Em termos genéricos julgo que sim. Em termos pessoais o Francisco Cunha deve ter alguma coisa contra mim por isso é coerente com ele próprio. Só mostra a coerência por parte dele.

Não fica magoado? Ele tem qualquer coisa contra mim e demonstrou-o. Claro que seria muito mais agradável se tivesse existido unanimidade. Em termos partidários, há alguém que acha que ainda não fiz o suficiente pela terra.

Que presente daria a Alpiarça no aniversário do concelho? Gostava de conseguir despartidarizar a vida em Alpiarça. As pessoas devem defender as suas posições mas a vida tem muito mais que os partidos.

Acredita que alguma vez vai ser possível acabar com a radicalização partidária no concelho? Já tive mais esperança. Não consigo compreender porque é que isto acontece. Sou uma pessoa de paixões, gosto de defender as minhas causas mas entrar em irracionalidades como vejo em Alpiarça é um exagero. Não consigo perceber de quem é a culpa.

Falta uma figura com capacidade para unir a população? Tenho orgulho de ter estado envolvido num evento em Alpiarça que conseguiu passar por cima das guerras partidárias, que foi a criação da Alpiagra, em 1983, numa altura em que ainda estávamos num período quente da revolução de Abril. Houve boicote do Partido Socialista, que estava na câmara municipal, e uma pequena franja do PCP que não acreditava na Alpiagra, mas conseguimos desenvolver essa feira.

Que imagem dá este extremismo de posições entre comunistas e não comunistas? Já era mau quando estas divisões ficavam a nível de jornais com o impacto que estes têm. Hoje, com as redes sociais na internet, uma pessoa que não conheça Alpiarça, acha que aqui anda tudo à batatada e que vivemos numa terra insalubre porque, pelo que lemos nas redes sociais, não há limpeza. É terrível a imagem que se dá deste concelho e isso entristece-me.

O que é que faz falta ao concelho de Alpiarça? Faz falta essa harmonia, sem que se acabem as diferenças. Uma oposição política forte é importante para o concelho. Faz falta as pessoas conseguirem que os objectivos não sejam divididos pela cor do partido. Isso não se está a conseguir em Alpiarça, com muita pena minha.

Em termos de obras ou projectos, o que falta? O Museu dos Patudos poderia ser a grande âncora para o desenvolvimento de Alpiarça e da região. Devíamos começar a ver as coisas mais para além dos limites do concelho. Deve apostar-se mais na Economia, Cultura e Turismo, que estão muito interligados. Os vários executivos da câmara não têm aproveitado bem estas áreas tão importantes.

Foi dirigente associativo. O associativismo está em crise? O voluntarismo que havia antigamente já é muito reduzido. Nos anos 80 chegámos a fazer espectáculos nos Águias com entradas pagas e enchíamos o pavilhão. Os espectáculos na Alpiagra chegaram a ser pagos e estavam cheios. Agora isso não acontece. As pessoas estão cansadas, estão mais materialistas e não ligam tanto ao associativismo.

Começou a interessar-se pela cultura e história local. Sabe que dizem que estas pessoas fazem isto porque não têm mais nada que fazer? Fui durante 20 anos chefe de divisão e chefe de serviços, cheguei a trabalhar 12 horas por dia e a passar muitos fins-de-semana fora de casa a trabalhar e ainda tinha tempo para fazer isto. Ainda há quem pense que isto da cultura é elitista, que são uns tipos que não sabem fazer mais nada e que se dedicam a coisas sem grande importância.

É o autor de vários cadernos culturais que contam histórias antigas de Alpiarça e do Ribatejo, quer ficar famoso ou com um lugar na história do concelho? Nem uma coisa nem outra. Na década de 90 comecei a pensar que muitas memórias iriam desaparecer com a morte de algumas pessoas. Há muita gente que se esquece que não há futuro sem memórias. Vejo pessoas preocupadas com o desaparecimento das casas do Patacão. Não houve lá pessoas? Não houve culturas? não houve vivências? Não vejo ninguém preocupado com o chamado património imaterial. Não quero ficar na história mas tenho um grande orgulho de ter um grande levantamento, que fiz sozinho e sem qualquer apoio, de dezenas de testemunhos de antigos pescadores avieiros, de uma série de gente que já desapareceu e muitas fotografias. Tenho mais de 600 conversas gravadas.

Qual foi a história que ouviu dos mais velhos que mais o fascinou? Houve várias mas há uma que me tocou muito e que para mim tem um enorme simbolismo. Quando fiz o caderno sobre as praças de jornas conversei com um senhor de Alpiarça sobre essa época em que se lutava nos campos do Ribatejo e do Alentejo pelas oito horas de trabalho. Alpiarça tinha um horário já privilegiado e essa pessoa, depois de despegar do trabalho, não jantou, pegou na sua bicicleta e foi para Arraiolos [Alentejo], para trocar experiências, de forma clandestina, para explicar o que se estava a fazer em Alpiarça. Regressou a Alpiarça e no outro dia foi trabalhar normalmente. Quem é que fazia hoje uma coisa destas?

É um sonhador? Gosto de sonhar com coisas que gostava que existissem na minha terra e que não há porque há pessoas que não estão sensibilizadas para isso, porque não há condições financeiras, porque a comunidade não aceita. E levo grandes desilusões. Há coisas que estão a acontecer em Alpiarça que também me irritam porque há pessoas que estão a ser intelectualmente desonestas pois sabem as condições financeiras que a Câmara de Alpiarça está a viver e falam como se elas não existissem. Apesar de tudo, seria possível fazer mais, se houvesse união, mantendo as diferenças. Se pensássemos todos no nosso concelho, talvez conseguíssemos mais e é isso que me faz sonhar.

Os valores do 25 de Abril de 1974 ainda estão bem vivos? Tive um sonho, uma esperança, de que a revolução do 25 de Abril fosse uma grande mudança mas em muitos aspectos o país está pior. Hoje vejo as pessoas muito materialistas.

Entrou e saiu do PCP por convicção e nunca beneficiou nem com uma coisa nem com outra

Ricardo Hipólito era jovem quando começou a despertar para a ideologia política e até ler o programa do Partido Comunista Português sentia mais interesse pelo Partido Socialista. Entrou para a União dos Estudantes Comunistas, uma antiga estrutura do PCP, por convicção. Hoje diz que deve ser dos poucos que leram, de fio a pavio, todo o programa do partido antes de entrarem. Também foi por convicção, afirma, que decidiu desvincular-se da organização, por não concordar com algumas questões, e nunca mais se deixou amarrar pela disciplina partidária.
O facto de ter pertencido a uma estrutura partidária não lhe deu qualquer benefício na hora de procurar trabalho. Mas a sua desvinculação da organização comunista também não ajudou. Acabado de licenciar-se em agronomia, no Instituto Superior de Agronomia, conseguiu ser recebido aos 22 anos pelo então secretário de Estado das Indústrias Alimentares, que, veio a saber, era da Chamusca. A conversa estava a decorrer bem e Ricardo já esfregava as mãos com um emprego no Ministério da Agricultura, na zona agrária da Chamusca ou de Coruche, até que tudo se desmoronou quando o governante pergunta: “oh colega você é comuna?”. Na altura Ricardo já tinha saído da estrutura mas pensou que ele não tinha o direito de fazer essa pergunta e respondeu que a política não tinha nada a ver com o assunto.
Hoje lembra-se muitas vezes da frase final do tal secretário de Estado que não lhe deu emprego por causa da política: “Isso é o que pensa hoje. Mais tarde vai compreender que a vida é isto”. Ricardo Hipólito não demorou muito a comprovar o vaticínio daquele governante. O PCP andava a tentar recrutar um engenheiro para uma cooperativa no Couço (Coruche) e ele foi ao partido tentar a sorte que se desmoronou assim que disse que se identificava com o projecto das cooperativas mas que não estava para ser um emissário político. O comunista que o atendeu mandou-o procurar outra solução: “Estou a ver que estás muito baralhado”.
Ricardo Hipólito ainda conseguiu fazer um estágio na Direcção Regional de Agricultura da Beira Interior mas mais uma vez saiu de mãos a abanar porque uma pessoa da Chamusca, que trabalhava na mesma organização, fez questão de divulgar que Ricardo era comunista apesar de já não estar há muito ligado ao partido. Conseguiu entrar para o IGAC (Inspecção-Geral das Actividades Culturais) por concurso, depois de ter concorrido a inspector do trabalho, acabando por desistir porque o concurso demorou tanto tempo que ele casou e a mulher deu à luz.
Na IGAC diz que teve sempre uma postura de abertura e que nunca sentiu qualquer discriminação de dirigentes tanto em governos do PS como do PSD. A sua paixão pela recolha das memórias e pelas fotografias já lhe consumiram muito dinheiro, a começar pelo preço a que estão as certidões dos arquivos públicos. Anda sempre com um gravador dentro do bolso, preparado para meter à frente de uma boca que tem histórias para contar. Já teve um louvor do Ministério da Cultura pelo trabalho realizado na IGAC. “Nunca deixei de vestir a camisola que tinha de vestir”, refere.
Um dos episódios que o marcou foi quando tinha sete anos e foi com a mãe ao médico a Santarém. Na sala de espera, quando ela disse que era de Alpiarça fez-se silêncio e as pessoas olharam para eles como se fossem bichos. Hoje quando lhe perguntam de onde é, responde: “Sou de Alpiarça e tenho muito orgulho”.

A CDU devia transmitir mais à população o que condiciona o trabalho autárquico

Como vê a actual situação financeira da Câmara de Alpiarça? A dívida vai condicionar por mais um bom tempo o que a câmara pode fazer e é isso que me preocupa, porque não devemos ter ilusões. A situação pode melhorar e, se a CDU ganhar as eleições no próximo mandato, pode haver uma situação mais folgada mas não tenhamos ilusões. Tenho conhecimento de algumas situações que são altamente condicionantes do trabalho da autarquia. A CDU devia transmitir mais à população esses condicionalismos além de divulgar o que faz ou quer fazer. Temos que lamber as feridas, levantar a cabeça e tentar mobilizar as pessoas.

Qual seria a primeira medida que tomava se fosse eleito presidente do município? Não tenho a mínima pretensão nem sonho de ser presidente e acho que não reúno as condições para concorrer a um lugar desses. Mas há tanta coisa que gostaria de fazer. Focar-me-ia no trabalho que a junta de freguesia está a fazer que é apoiar famílias muito carenciadas. Se fosse presidente da junta de freguesia a área da Acção Social era um dos sectores que iria tentar reforçar.

É presidente da Assembleia de Freguesia de Alpiarça. O que o levou à política activa? Estive na assembleia municipal, eleito nas listas da CDU, num momento em que o PS reforçou a sua maioria [em 2001]. Foi um mandato muito crispado mas não atingiu o que se passa ultimamente em Alpiarça. A falta de respeito que se atingiu nos últimos tempos em algumas situações neste concelho tem sido mau demais. Mas nessa altura foi uma experiência muito má.

Tem vindo a desiludir-se com a política? Quando fui candidato à assembleia municipal já estava muito descrente no poder local. O poder local contribuiu para coisas muito más que ocorreram em Portugal. Já estava de pé atrás. Fui a acreditar que podia ter um papel mais interessante como membro da assembleia municipal. Não o tive. No mandato seguinte fugi da política. Agora pensei que podia dar o meu contributo para a freguesia.

A coligação do PSD e MPT não vai concorrer nas próximas autárquicas. Esta tem feito passar a imagem de movimento independente. Isso seria importante para a mobilização das pessoas? Os cérebros desse dito movimento independente sabiam qual era o seu papel. Acredito que muita gente acreditou que estava envolvida num movimento independente. Tendo em conta o descrédito que os partidos têm neste momento, se calhar houve mais gente a envolver-se nesta política local.

“Quero ser um bocadinho mais livre que os filiados nos partidos”

Qual é a sua verdadeira ligação ao Partido Comunista Português? Não sou filiado, mas esta é a força política que me é mais próxima. Faço parte do projecto político da CDU. Algumas pessoas pensam, ou pelo menos pensaram, que eu queria protagonismo político quando comecei a publicar os cadernos culturais.

Porque é que não se filiou no PCP? Fui filiado na União dos Estudantes Comunistas (UEC) e em 1979 saí por divergências ideológicas. Achei que o caminho que as coisas estavam a tomar não era o melhor.

Chateou-se com a política? Sou um bocado individualista, gosto de pensar por mim e os partidos, por vezes, cerceiam os indivíduos. Quero ter a minha independência.

Não concorda com a disciplina partidária? Aceito que quem está filiado tenha que o fazer mas essa é uma das razões para não me filiar em partidos. Não quero dizer que os que pertencem aos partidos não sejam livres mas quero ser um bocadinho mais livre que outros. Respeito e acho que numa democracia fazem falta os partidos mas os partidos têm que melhorar.

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