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24/04/2017
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Tramagal – terra de água
Trilhos como os do Tramagal têm todas as condições para constituírem um produto local de valor. O Tejo tem tudo, mesmo tudo para dar certo, só falta um bocadinho de bom senso e nem é necessária muita inteligência.
Edição de 29.03.2017 | Opinião

Num destes fins de semana cerca de 40 pessoas, essencialmente oriundas de Lisboa, pela mão do Tejo a pé andaram no Tramagal. Na verdade a mão foi a da empresa local Terradágua sobre a qual já aqui escrevi uma vez. O programa pelos trilhos do Tejo foi magnífico, todos os participantes o reconheceram. Apesar de saber alguma coisa do tema não faço ideia quanto pode valer um programa destes para um turista do norte da Europa? Sei que é muito dinheiro. Bem a propósito dos meus anteriores escritos (“Amazónia no rio Mira” e “turismo de natureza”) mostra-se assim, na prática, como se faz. Na verdade, como quase sempre, à porta de casa temos o que andamos à procura. O que a Terradágua fez no Tramagal é um exemplo perfeito de um produto com um enorme sucesso onde a natureza é viva e vivida sendo a comunidade local o motor. Esta é uma excelente forma de dinamizar a economia e cultura locais. Acrescente-se que para bem começar o dia iniciou-se pela visita à adega do Casal da Coelheira, a cultura e produtos locais, como deve ser, enriqueceram o programa. A confirmá-lo, e de que maneira, foram as iguarias saboreadas ao almoço; façam o favor de registar estes nomes: restaurante Braz e D. Jacinta à volta das panelas. Quase em todas as terras há alguma coisa deste tipo, capaz de criar valor e riqueza. O maior argumento do turismo na natureza é o, incontornável, envolvimento da população – muito para além de fazer camas e aparar relva em hotéis de cinco estrelas, o que oferece o outro turismo. O difícil é compreender porque razão este tipo de produtos não são fortemente apoiados por quem de direito? Não consigo vislumbrar razão válida para que assim seja. A beleza natural e virgem do nosso campo, os trilhos únicos e a cultura local são um produto de excelência e não podem serem vividos apenas pontualmente ao sabor do esforço, às vezes titânico, de alguns persistentes. Exemplos como este são às dezenas por todo o Tejo e país. Entretanto o tal “desenvolvimento inteligente” que há uns tempos se apregoou ficou na gaveta, por falta de inteligência e porque outros interesses tipo “fast food” prevalecem, como quase sempre acontece. Mais uma vez afirmo que o turismo que por aí se enaltece é efémero e de valor muito inferior ao que aqui refiro. Há dias ficámos a saber que num ápice vamos ter Trilhos no Tejo, Caminhos de Santiago e muito mais, pelo menos no papel para justificar os euros que se vão gastar. Ao contrário o caminho é outro, deve contar com os atores locais, envolvendo de início os interesses particulares e a iniciativa privada; trilhos como os do Tramagal têm todas as condições para constituírem um produto local de valor. O Tejo tem tudo, mesmo tudo para dar certo, só falta um bocadinho de bom senso e nem é necessária muita inteligência. Abençoada terra que tanto nos dás; maldita gente que se governa com a pobreza da maioria.
Carlos Cupeto – Universidade de Évora

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