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Há mais de meio século a cortar cabelos em Mação

Há mais de meio século a cortar cabelos em Mação

Aos 87 anos António José Carvalho ainda está no activo numa das principais ruas de Mação. A pequena reforma obriga-o a abrir a barbearia de segunda a sábado mas se pudesse preferia passar o tempo a viajar.

Edição de 05.04.2017 | Sociedade

Quem passa na Rua Padre António Pereira de Figueiredo, em Mação, depara-se com uma pequena barbearia onde parece que o tempo parou. Lá dentro, António José Carvalho, de 87 anos, corta cabelos e barbeia os clientes. Se preciso for e houver vagar também costura umas bainhas numas calças ou sobe as mangas de um casaco porque do salão de barbeiro abre-se a porta da pequena alfaiataria onde ainda se encontra um ferro a vapor ao lado de um eléctrico, diversos moldes, peças de tecido, giz e tudo o que um alfaiate precisa para talhar um fato.
A barbearia é das antigas. Durante anos serviu como confessionário e lugar de conversas onde os homens que confiavam na tesoura, na navalha e, principalmente, passavam ali para saber das novidades. Os bancos da barbearia estavam sempre ocupados. “Quem passava na rua via a barbearia cheia, desistia de cortar o cabelo. Estragavam-me o negócio e eu dizia: nada mais prejudicial a quem trabalha do que a presença dos que nada fazem”, conta a O MIRANTE.
A barbearia funcionava assim como um pequeno reduto masculino onde se podia falar de tudo entre homens. Agora menos, que a clientela tem diminuído muito. “Os novos deixam crescer o cabelo por cima das orelhas, outros cortam-no rente e estão meses sem o cortar”, desabafa o barbeiro. Antigamente “era diferente, os homens gostavam de andar asseados, cabelo bem cortado e barba feita”, diz. E não foram só os hábitos e as modas que mudaram.
António, de bata branca, apresenta uma figura bem tratada e uma lucidez invejável. Atravessou o século XX, agora no XXI mantém-se informado, atento, aprendendo com as mudanças. Natural de Mação, entristece-o a falta de gente a circular nas ruas da vila. “Os jovens têm de fugir daqui porque não têm emprego. Os velhos já não podem sair de casa”.
Depois de concluir a quarta classe, aos 11 anos, saiu ele de casa e foi aprender os ofícios de alfaiate e a barbeiro. “Andei três anos a trabalhar de graça. Foi uma vida inteira a trabalhar” e hoje “a reforma é pequena mal dá para viver”. Se assim não fosse, preferia viajar como das vezes em que foi ao Douro e à Madeira.
Com o mestre Manuel Silvério aprendia durante a semana os dois ofícios, na sua casa junto à igreja. Lá faziam-se barbas, cabelos, fatos e capotes de burel. E aos domingos andava pelas feiras da Guarda, Ponte de Sôr e Nisa, mas sem “audácia para a venda” dedicou-se à barbearia. “Era eu e outros a aprender. O que o mestre vendia aos domingos dava para nos pagar, o resto era tudo para ele”.
Com 20 anos meteu-se a caminho de Lisboa para comprar a cadeira onde ainda hoje senta os clientes e estabeleceu-se por conta própria na Rua de São Bento, em Mação. Comprou-a na Calçada da Boa Hora. “Tinha um primo em Lisboa que era polícia e que me ajudou. Depois de a comprar tinha que a trazer para cá. O meu primo levou-me a uma serração, mandei fazer um caixote, desmanchei a cadeira e despachei-a pelo comboio”, explica. Sem memória quanto ao preço da cadeira sabe que foi muito cara. “Já cá veio um senhor a querer comprá-la mas eu não vendo”, diz.

Missas nas aldeias estragaram negócio
E se hoje barba e cabelo custa oito euros e o cabelo seis, naquele tempo fazia barbas a dez tostões e cabelos a 15. “Chegava ao fim do mês e não tinha dinheiro para a renda”, lembra. No entanto, como havia sempre muita gente em Mação, particularmente aos domingos em que as gentes das aldeias vinham à missa, a coisa compôs-se. Mais tarde comprou por 10 contos uma casa velha e mandou arranjá-la.
Naquela época contavam-se seis barbeiros em Mação e havia sempre trabalho. Agora é diferente, “menos gente para dois barbeiros”, e sendo assim de manhã vai até à horta onde cultiva uns legumes e tem umas 20 galinhas. Culpa os padres pelo início da quebra do negócio. “Estragaram tudo quando começaram a ir às freguesias dizer missa”. Com isso a clientela começou a ser menos ao domingo. O barbeiro não tem aprendizes. “Agora todos querem ganhar dinheiro. Ora mal dá para mim, quanto mais pagar para ensinar”.
António José Carvalho não conheceu o pai. “Morreu muito novo, aos 32 anos, e a minha mãe ficou sozinha com três filhos. Foram tempos difíceis”, recorda, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial. “A minha mãe tinha um forno, cozia pão para todo o Mação, por isso mesmo na altura da fome nunca nos faltou. Mas vi muita gente a assar cebolas e batatas enfiadas num arame. Era o que havia para comer. Conduto nem vê-lo”, conta, relembrando o discurso em que Salazar disse: “Hei-de ver se vos livro da guerra mas da fome não prometo”.
António recorda ainda o aproveitamento comercial da miséria. “Os homens iam para a ceifa para o Alentejo, trabalho duro, dormiam em cima das palhas e não havia descanso”. Enquanto isso, “nas mercearias vendiam fiado às famílias. Um dia perguntei ao dono de uma mercearia como é que fazia a vida a vender fiado. Ele explicou-me que quando voltavam da ceifa iam pagar a conta e ele cobrava mais 10%. Ficavam logo sem dinheiro e voltavam a comprar fiado”, refere.
Depois veio o 25 de Abril mas “continua tudo a roubar. Os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”, considera. “Fiz uma asneira valente quando o meu cunhado me quis levar para a Suécia... mas não tinha carta de condução”. E ainda hoje não tem. Por cá, não lhe fez falta, preferiu dar essa aprendizagem e outros estudos aos quatro filhos.

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