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Emprego e trabalho

O caminho só pode ser um: suficiência local. A esta escala, muitos dos problemas do desemprego, isto é, do trabalho, vão diluir-se porque são necessários efetivamente todos os que “cá vivemos”.

Edição de 13.04.2017 | Opinião

Por estes dias, um colega, reitor numa universidade brasileira, veio visitar-nos. A dada altura comentou algo que todos sabemos mas que a maior parte das vezes fingimos não ser assim: “faltam empregos mas não falta trabalho.” Lá, no Brasil, como cá. Na verdade, incomodam-me muito as paisagens sociais e económicas que vemos à nossa volta. Pelos vistos, a questão é global. O problema é complexo e, como tal, não tem solução simples. Apesar desta realidade, há duas questões que me parecem essenciais para abordar tão complexo problema: a dicotomia direito-dever e a dimensão local da coisa que assume vários nomes, designadamente “suficiência local”. Vivemos um tempo de direitos; temos o direito a quase tudo e estamos habituados a que estes estejam adquiridos e sejam inquestionáveis. Mas a verdade é outra. Também temos deveres. Não há meios suficientes para atingir esses quase infinitos direitos; queiramos ou não. A desmaterialização, ficcionada, dos recursos essenciais à vida conduziu-nos a uma situação, quase dramática, sem paralelo. Por muito que nos custe vamos ter que arrepiar caminho em muitos dos atuais pilares de sustentabilidade e bem-estar social. Por isso, fico perplexo quando uma proposta de programa às eleições locais, num importante concelho, assenta em lugares comuns como “coesão social e igualdade”, “desenvolvimento e inovação” e “turismo e identidade”; mais do mesmo daquilo que nos conduziu até ao ponto onde chegámos e estamos. Na prática, isto é coisa nenhuma, é atirar areia para os olhos dos cidadãos. Pensava que estávamos num ponto de viragem séria que nos permitisse ser mais verdadeiros para quem mais necessita. Acredito que esta viragem só é possível com educação. Há valores e atitudes que obrigatoriamente têm de voltar ao quotidiano. A dimensão local está na primeira fila da mudança necessária. De concreto, o que é isto de “desenvolvimento e inovação” à escala local? O que nos propõe de verdade quem nos quer governar? Como sempre escrevo, acredito muito na dimensão local da vida pois é neste contexto que existem os recursos essenciais à vida. Alguém duvida que os alimentos que nos chegam do outro lado do mundo, quase gratuitamente, vão acabar; e como será depois? Assim, o caminho só pode ser um: suficiência local. A esta escala, muitos dos problemas do desemprego, isto é, do trabalho, vão diluir-se porque são necessários efetivamente todos os que “cá vivemos”.
Carlos Cupeto
Universidade de Évora

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