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22/08/2017
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“Há que conseguir levar Lisboa até Vila Franca de Xira”

“Há que conseguir levar Lisboa até Vila Franca de Xira”

António Moreira Nunes, o cartoonista responsável pelo Cartoon Xira

Edição de 20.04.2017 | Entrevista

A 18ª edição do Cartoon Xira (22 de Abril a 28 de Maio, Celeiro da Patriarcal) vai mostrar desenhos menos conhecidos de Quino, o criador da personagem Mafalda, e de mais 11 artistas nacionais. António, cartoonista natural da cidade, garante que não chegam outdoors para atrair ao evento os dois milhões de Lisboetas que são o público ambicionado.

António Moreira Nunes, 64 anos, mais conhecido por António, cartoonista do Expresso, é natural de Vila Franca de Xira, cidade que visita pelo menos uma vez por semana, para almoçar com a mãe. É o responsável pela organização do Cartoon Xira desde o seu início.
O MIRANTE esteve no atelier do desenhador que criou um estilo próprio, sem recurso a palavras. Segue-se o António e o Cartoon Xira, com legendas.

Continua a acreditar que o Cartoon Xira não atrai mais público por ter lugar em VFX? Sim, continuo. Nós fazemos com o Cartoon Xira uma exposição única em Portugal, com os autores portugueses que ainda conseguem fazer cartoons... De há sete anos a esta parte decidimos internacionalizar o evento por isso todos os anos há um convidado estrangeiro de primeiro plano que regra geral faz a sua primeira exposição em Portugal.

Não é o caso deste ano, com Quino [nome artístico do desenhador argentino Joaquín Salvador Lavado]. Não. O Quino já cá esteve: fez uma exposição há alguns anos no Palácio Foz. Não vai marcar presença física, está já muito debilitado devido à idade. Também não vão estar os desenhos da Mafalda, optámos por mostrar trabalhos menos conhecidos [ver caixa]. O Cartoon Xira tem tudo para ser um acontecimento, já nem digo a nível nacional, mas pelo menos a nível da Grande Lisboa.

Ainda assim, ano após ano, o Cartoon Xira sofre essa pressão de conquistar mais público. Há um paradigma que tem de ser alterado. Vila Franca de Xira é a saída Norte de Lisboa: era bom que a cidade se pensasse segundo estes mais de dois milhões de pessoas que vivem em Lisboa.

Nunca cedeu à tentação de levar a exposição para a capital? Ela está em Vila Franca de Xira e está muito bem. Há é que conseguir levar Lisboa até Vila Franca de Xira.

Este ano apostaram mais em publicidade. O outdoor à saída de Lisboa era uma luta sua? Era. A autarquia está a esforçar-se mais. Há outro excelente outdoor à entrada da cidade e vão ser colocadas bandeirolas. A promoção é muito importante. Depois, há algo que acontece e que me entristece: o evento não está presente como deveria na comunicação social.

Sendo o António “do meio”, esta é mais uma prova da desunião da classe? Pois… A comunicação social não o [o evento] trata como deveria tratar. De alguma forma desisti de tentar influenciar pessoas para que o Cartoon Xira tivesse maior visibilidade. Sinto-me mal com isso.

Os cartoonistas e os repórteres de imagem ainda são secundarizados nas redacções? Não são bem vistos, não. As administrações despediram autores e cartoonistas porque acham que é um custo. O espaço do cartoon tem vindo a diminuir ao longo destes anos.

Qual é o seu estilo de cartoon? Prefiro desenhos, sem palavras. É um desafio pegar em coisas complexas e reduzi-las a códigos que o leitor atento percebe. Claro que sou um beneficiado por estar há muito tempo num jornal de características elitistas do ponto de vista cultural [o Expresso]. Posso usar alguns símbolos que não poderia usar num outro jornal por medo de não ser eficaz.

Os seus desenhos marcaram eras como o do Papa com o preservativo no nariz [em 1992]. O que pretende com eles? Os desenhos têm de marcar o tempo: esse cartoon fomentou a discussão, até então no Papa não se tocava nem com uma flor. Não sou contra a Igreja mas sou completamente contra algumas das suas posições, como a que tem em relação à SIDA, acho que é uma atitude criminosa. Quando assumo isso sei que essa posição tem custos. Sou designer gráfico [acumula desde sempre esta profissão com a de cartoonista] e depois de ter feito esse desenho algumas empresas recusaram-se a trabalhar comigo.

Tem agora mais cuidado a expressar as suas convicções através dos desenhos? Por exemplo, gosta da Festa Brava? Não sou a favor nem sou contra. Acho que diabolizar as touradas não faz sentido, como também não concordo que o espectáculo deva ser subsidiado pelo Estado. Deve viver enquanto existir público que o justifique, como todos os outros espectáculos.

Como é que iria reflectir essa posição num desenho? Não sei se me apeteceria fazê-lo. Já participei numa mesa redonda sobra a tourada em VFX e esclareci a minha posição, que não é contra os touros...

Mas gosta? De vez em quando levo amigos meus, estrangeiros, para ver os toiros. Sozinho, não vou.

Mas não ia [António viveu em VFX até aos vinte e dois anos]? Apanhei overdoses de touradas. Ia às esperas, às largadas. Não tenho nada contra, mas não sou militante.

Trabalha com humor mas não é o típico “bem disposto”. Ri-se sozinho, é isso? Sorrio mais do que rio. Não sou o tipo engraçado no sentido das larachas. Entre amigos, sou capaz até de ser delirante em termos de humor. Mas, socialmente, sou um tipo mal encarado. É uma defesa, sim. Mais do que defeito, é feitio.

Evento sem Quino e sem Mafalda

Ao contrário do noticiado, o cartoonista argentino Quino não vai estar presente no Cartoon Xira 2017 por motivos de saúde. O desenhador, de 84 anos, marca presença através dos seus trabalhos, mas estes não incluem as famosas tiras da personagem Mafalda, a menina que não gostava de sopa e que se questionava sobre o Mundo. “Foi propositado. Queremos mostrar outros trabalhos de Quino”, disse a O MIRANTE, António, cartoonista do Expresso e responsável pelo World Press Cartoon. O desenhador, natural de Vila Franca de Xira, também participa no festival, juntamente com outros 11 cartoonistas portugueses que irão apresentar alguns dos melhores cartoons de 2016. São eles: André Carrilho, Cristina Sampaio, António Jorge Gonçalves, José Bandeira, Carlos Brito, Augusto Cid, Rodrigo de Matos, Salgado, Maia e Vasco Gargalo.

“Há que conseguir levar Lisboa até Vila Franca de Xira”

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