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Um museu flutuante chamado Liberdade

Um museu flutuante chamado Liberdade

O MIRANTE acompanhou a primeira viagem desta temporada do barco varino de Vila Franca de Xira e ouviu o mestre da embarcação contar as histórias da embarcação que começou por se chamar Campino e já foi palco de um casamento e até de um funeral.

Edição de 26.04.2017 | Sociedade

“Isto é como os comboios, não espera por ninguém”, avisava o mestre Luís Godinho, enquanto dentro do barco varino várias famílias aguardavam ansiosas pelo início do passeio. A partida da marina de Vila Franca de Xira estava marcada para as 15h00 de sábado (22 de Abril) e aquela seria a primeira viagem da temporada de 2017. O destino: Parque das Nações, em Lisboa.
“Quanto tempo dura o passeio?”, perguntavam os passageiros, protegidos do sol pelo toldo colorido, com as mãos debruçadas sobre as mesas azuis onde repousava o farnel. Luís Godinho explicou o percurso e a duração como se já não o tivesse feito milhares de vezes ou não fosse há 22 anos o mestre da embarcação típica que é um núcleo museológico do Museu Municipal de Vila Franca de Xira. “Pode demorar duas ou três horas. Depende do vento e das correntes”, foi a resposta. Este ano, as viagens do Liberdade começaram mais tarde porque o barco esteve alguns meses no estaleiro. Em circunstâncias normais, teria começado a época em Fevereiro (termina em Novembro).

Garças e patos como companheiros de viagem
Com capacidade para 40 pessoas, o barco de 18 metros sai do cais de Vila Franca de Xira com destino aos Mouchões das Garças e da Póvoa de Santa Iria, a jusante, ou de Vila Franca de Xira até Valada do Ribatejo, a montante, percorrendo as zonas ribeirinhas e mostrando aos passageiros a fauna e a flora das margens do Tejo: flamingos e garças, patos e alfaiates. O Liberdade também faz o percurso até ao Parque das Nações, em Lisboa. Na viagem que O MIRANTE acompanhou não se avistaram flamingos, mas houve garças a voar e uma família de patos a fugir assustada à passagem do Liberdade.
Entre os passageiros que fizeram a primeira viagem deste ano estava um grupo de alunos da Universidade Sénior de Sintra e várias famílias, de Alverca e Vila Franca de Xira, que levaram os netos e os filhos: as crianças até aos 11 anos não pagam bilhete (os adultos pagam 6 euros).
O Liberdade não poderia ter sido baptizado com melhor nome: recebeu-o por ter sido inaugurado a 25 de Abril de 1988 – mas também porque proporciona uma viagem livre: os passageiros podem circular livremente, subir até à zona do leme e fazer perguntas ao mestre e ao contramestre, João Pedro – da tripulação fazem ainda parte mais dois marinheiros. A tripulação trabalha sete dias por semana. Aos fins-de-semana dormem no barco – no dia seguinte o Liberdade faria a viagem em sentido contrário e a lotação já estava esgotada. Livre, este barco, onde já foi celebrado um casamento e até um funeral. “Veio a família com as cinzas que foram atiradas ao Tejo. Era um desejo do falecido”, contou Luís Godinho.

Há pontos em que a profundidade é só de dois metros
Entretanto, a viagem estava quase a terminar. A corrente e o vento estavam de feição nesse dia: o passeio demoraria duas horas. Antes, ainda houve tempo para o contramestre mostrar o radar e o GPS do barco às crianças e para Luís Godinho explicar por que não desviava o barco do lado direito do rio, mesmo indo contra os protestos de meia dúzia de pescadores que temiam ficar sem as canas. “Existem aqui zonas no rio em que navegamos com dois metros de fundo apenas. Há sítios onde só temos um corredor de passagem quase do tamanho exacto do barco”, revelou. Os pescadores barafustaram mas, nesse dia, o Liberdade não arrastou nenhuma cana, como já tem acontecido.
Quase no final da viagem, todos os passageiros se conheciam: já Alice, de três anos, tinha perdido o medo e até adormecido num dos bancos, e o Francisco e a Inês tinham arrastado os avós para junto do mestre. Que não se fez rogado e contou: o Liberdade foi construído em 1945 e era um barco de cargas chamado Campino. Nos anos 60 foi vendido e recebeu o nome de Rio Zuari, até ser ressuscitado pela Câmara de Vila Franca de Xira para mostrar aos turistas os tesouros do Tejo, mas também para mudar a vida de quatro marinheiros.

A “amante” que já o levou ao sexto casamento

Antes de se tornar mestre do Liberdade, Luís Godinho, de 58 anos, era técnico informático. “Passava os dias numa cave, em frente a um computador, mas sempre fiz vela e passava os meus dias livres no Tejo”. Foi o médico quem lhe destinou a segunda profissão. “Porque não fazes do passatempo o teu trabalho?”, lançou o clínico. Luís Godinho aceitou o repto. O que ganhou em saúde, perdeu em casamentos. “Já vou no sexto. Isto é como ter uma amante... Não há fins-de-semana nem folgas. Estou sempre de volta do barco”, contou, de sorriso rasgado e resignado o mestre do Liberdade.

Um museu flutuante chamado Liberdade

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