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16/08/2017
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“Visitar um campo de concentração nazi foi das experiências mais emotivas que já tive”

“Visitar um campo de concentração nazi foi das experiências mais emotivas que já tive”

Filipe André Valente, advogado, sócio fundador da RVF – Rocha, Valente, Figueiredo & Associados - Sociedade de Advogados

Edição de 03.05.2017 | Três Dimensões

Desde criança que vive em Vila Franca de Xira. O pai é advogado e Filipe Valente seguiu-lhe as pisadas. Além de advogado é formador, rotário e vogal da nova direcção do Ateneu Artístico Vilafranquense. É uma pessoa empenhada no seu trabalho e diz que a persistência é a sua melhor característica, tanto a nível pessoal como profissional. Gosta de estar com a família e de viajar. Diz que a antiga Escola da Marinha, adquirida pela câmara municipal, é um bom local para instalar um futuro Campus da Justiça. Lamenta que as custas judiciais elevadas contribuam para que muitas pessoas não possam recorrer à Justiça.

A minha infância foi passada na rua a brincar com os meus irmãos e amigos. Jogávamos à bola, andávamos de bicicleta, de skate e em carrinhos de rolamentos. Na altura ainda não tínhamos PlayStation, nem televisão por cabo, nem smartphones. Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos à rua. Desses tempos guardo boas memórias que despertam saudades.
A melhor maneira de esquecer o trabalho é passar tempo de qualidade com os nossos filhos. É contagiante ouvir as gargalhadas inocentes e cheias de vida. Elas fazem-nos esquecer tudo e viver ao máximo o momento como se nada mais existisse.
Sempre pratiquei actividades desportivas. Fiz Muay Thai, BTT, ténis de mesa, spinning, ténis e squash. Actualmente regressei ao BTT mas, fruto da exigência profissional e familiar, não pratico com a regularidade que gostaria. No BTT encontro um escape à pressão e ao stress profissional, deixa-me com a mente mais limpa para enfrentar o dia seguinte. Se o tempo livre, que cada vez escasseia mais, permitir, ainda dá para dar uns toques em fotografia, música, leitura e modelismo.
Gosto de passear pelo país mas sempre que posso saio de Portugal. É uma forma de ir à descoberta de novas realidades, novas culturas que, no fundo, nos ajuda a ter uma visão mais eclética, mais aberta e não tão limitada em relação à sociedade, à economia e à justiça.
Recentemente estive em Cracóvia e visitei os campos de concentração. Estive em Auschwitz I e no campo de extermínio Auschwitz II–Birkenau no sul da Polónia. Foi das experiências mais emotivas que tive e marcou-me bastante. Quando, à entrada do campo de concentração, passamos por baixo da inscrição feita em ferro forjado “Arbeit macht frei”, somos forçados a fazer uma profunda reflexão sobre aquilo que o ser humano é capaz de fazer. Aqueles lugares são arrepiantes.
Sempre fui muito ligado à música. Passei por várias influências musicais na minha juventude sendo o rock um denominador comum. Há duas músicas que, por razões diferentes, me marcaram para sempre: “Lorelei” dos The Pogues e “Perfect Day” de Lou Reed. A minha mulher diz que o meu maior defeito é a teimosia mas eu chamo-lhe persistência. E em vez de defeito acho que é a minha melhor caraterística.
Quis ser advogado quando entrei para o ensino secundário. Talvez o facto de o meu pai ser advogado tenha, inconscientemente, contribuído para esta minha decisão. Num mundo globalizado e desenvolvido como é o nosso, o domínio da ciência do Direito não se basta com a mera formação jurídica, nem tão-pouco com o simples conhecimento da lei. É fundamental adquirir as competências práticas da profissão, através da especialização, assim como é essencial conhecer profundamente os princípios deontológicos nos quais está assente a advocacia. Só assim é possível o advogado ficar revestido da credibilidade necessária para poder, então, criar uma relação de confiança com o seu cliente.
Um advogado hoje tem que ser versátil, multidisciplinar e competente. A excelência, rigor, qualidade, iniciativa, integridade, dedicação e ética são a melhor medida do sucesso. A procuradoria ilícita é uma das maiores dificuldades e é considerada uma grave agressão à advocacia. Acontece que é frequente encontrar cidadãos que foram enganados e que quando recorrem ao advogado para resolver o engano e os erros cometidos pelo procurador ilícito sofreram já graves danos. Nessa altura a resolução desses erros demora muito tempo e implica um gasto muito superior ao que ficaria se tivessem recorrido logo desde o início a um profissional habilitado.
As custas judiciais são de um valor incomportável. Tal facto promove o afastamento dos cidadãos e das empresas dos tribunais. A massificação da profissão também me preocupa. Somos o país da União Europeia com mais advogados per capita. É um problema sério do ponto de vista da profissão, da sua dignidade, do seu prestígio e até do funcionamento da justiça. O Estado português permitiu e compactuou com a massificação dos cursos de direito. A morosidade da justiça que não se coaduna com o desenvolvimento económico e social do cidadão é outra situação que tem de ser melhorada.
Sempre defendi um Campus de Justiça com condições em Vila Franca de Xira. Acredito que a antiga Escola da Marinha é uma zona adequada para isso. Seja como for é necessário um rigoroso estudo de regeneração e requalificação urbana no sentido de introduzir também espaços de estacionamento, lazer, zonas comerciais, restauração, serviços camarários, entre outros. Espero, ainda antes de chegar à reforma, ver um Campus de Justiça em pleno funcionamento na nossa cidade.

“Visitar um campo de concentração nazi foi das experiências mais emotivas que já tive”

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