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28/06/2017
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“Visitar um campo de concentração nazi foi das experiências mais emotivas que já tive”
Filipe André Valente, advogado, sócio fundador da RVF – Rocha, Valente, Figueiredo & Associados - Sociedade de Advogados
Edição de 03.05.2017 | Três Dimensões

Desde criança que vive em Vila Franca de Xira. O pai é advogado e Filipe Valente seguiu-lhe as pisadas. Além de advogado é formador, rotário e vogal da nova direcção do Ateneu Artístico Vilafranquense. É uma pessoa empenhada no seu trabalho e diz que a persistência é a sua melhor característica, tanto a nível pessoal como profissional. Gosta de estar com a família e de viajar. Diz que a antiga Escola da Marinha, adquirida pela câmara municipal, é um bom local para instalar um futuro Campus da Justiça. Lamenta que as custas judiciais elevadas contribuam para que muitas pessoas não possam recorrer à Justiça.

A minha infância foi passada na rua a brincar com os meus irmãos e amigos. Jogávamos à bola, andávamos de bicicleta, de skate e em carrinhos de rolamentos. Na altura ainda não tínhamos PlayStation, nem televisão por cabo, nem smartphones. Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos à rua. Desses tempos guardo boas memórias que despertam saudades.
A melhor maneira de esquecer o trabalho é passar tempo de qualidade com os nossos filhos. É contagiante ouvir as gargalhadas inocentes e cheias de vida. Elas fazem-nos esquecer tudo e viver ao máximo o momento como se nada mais existisse.
Sempre pratiquei actividades desportivas. Fiz Muay Thai, BTT, ténis de mesa, spinning, ténis e squash. Actualmente regressei ao BTT mas, fruto da exigência profissional e familiar, não pratico com a regularidade que gostaria. No BTT encontro um escape à pressão e ao stress profissional, deixa-me com a mente mais limpa para enfrentar o dia seguinte. Se o tempo livre, que cada vez escasseia mais, permitir, ainda dá para dar uns toques em fotografia, música, leitura e modelismo.
Gosto de passear pelo país mas sempre que posso saio de Portugal. É uma forma de ir à descoberta de novas realidades, novas culturas que, no fundo, nos ajuda a ter uma visão mais eclética, mais aberta e não tão limitada em relação à sociedade, à economia e à justiça.
Recentemente estive em Cracóvia e visitei os campos de concentração. Estive em Auschwitz I e no campo de extermínio Auschwitz II–Birkenau no sul da Polónia. Foi das experiências mais emotivas que tive e marcou-me bastante. Quando, à entrada do campo de concentração, passamos por baixo da inscrição feita em ferro forjado “Arbeit macht frei”, somos forçados a fazer uma profunda reflexão sobre aquilo que o ser humano é capaz de fazer. Aqueles lugares são arrepiantes.
Sempre fui muito ligado à música. Passei por várias influências musicais na minha juventude sendo o rock um denominador comum. Há duas músicas que, por razões diferentes, me marcaram para sempre: “Lorelei” dos The Pogues e “Perfect Day” de Lou Reed. A minha mulher diz que o meu maior defeito é a teimosia mas eu chamo-lhe persistência. E em vez de defeito acho que é a minha melhor caraterística.
Quis ser advogado quando entrei para o ensino secundário. Talvez o facto de o meu pai ser advogado tenha, inconscientemente, contribuído para esta minha decisão. Num mundo globalizado e desenvolvido como é o nosso, o domínio da ciência do Direito não se basta com a mera formação jurídica, nem tão-pouco com o simples conhecimento da lei. É fundamental adquirir as competências práticas da profissão, através da especialização, assim como é essencial conhecer profundamente os princípios deontológicos nos quais está assente a advocacia. Só assim é possível o advogado ficar revestido da credibilidade necessária para poder, então, criar uma relação de confiança com o seu cliente.
Um advogado hoje tem que ser versátil, multidisciplinar e competente. A excelência, rigor, qualidade, iniciativa, integridade, dedicação e ética são a melhor medida do sucesso. A procuradoria ilícita é uma das maiores dificuldades e é considerada uma grave agressão à advocacia. Acontece que é frequente encontrar cidadãos que foram enganados e que quando recorrem ao advogado para resolver o engano e os erros cometidos pelo procurador ilícito sofreram já graves danos. Nessa altura a resolução desses erros demora muito tempo e implica um gasto muito superior ao que ficaria se tivessem recorrido logo desde o início a um profissional habilitado.
As custas judiciais são de um valor incomportável. Tal facto promove o afastamento dos cidadãos e das empresas dos tribunais. A massificação da profissão também me preocupa. Somos o país da União Europeia com mais advogados per capita. É um problema sério do ponto de vista da profissão, da sua dignidade, do seu prestígio e até do funcionamento da justiça. O Estado português permitiu e compactuou com a massificação dos cursos de direito. A morosidade da justiça que não se coaduna com o desenvolvimento económico e social do cidadão é outra situação que tem de ser melhorada.
Sempre defendi um Campus de Justiça com condições em Vila Franca de Xira. Acredito que a antiga Escola da Marinha é uma zona adequada para isso. Seja como for é necessário um rigoroso estudo de regeneração e requalificação urbana no sentido de introduzir também espaços de estacionamento, lazer, zonas comerciais, restauração, serviços camarários, entre outros. Espero, ainda antes de chegar à reforma, ver um Campus de Justiça em pleno funcionamento na nossa cidade.

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