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Chamusca terra linda de onde nenhum jovem quer sair mas de onde quase todos saem

Chamusca terra linda de onde nenhum jovem quer sair mas de onde quase todos saem

Nuno Mira, Rita Varanda, Mário Pereira e Beatriz Luz aprendem a pegar a vida de caras. Quatro jovens da Chamusca que adoram a sua terra mas que sabem que para ali continuarem, junto da família e dos amigos e para ali constituírem família, vão ter que aceitar trabalhos que nada têm que ver com a sua área de estudos e isso se tiverem a sorte de os encontrar.

Edição de 18.05.2017 | Especial Ascensão

Nuno Mira tem 26 anos e licenciou-se em Gestão na Universidade de Évora. É da Chamusca e trabalha há quatro anos no sector administrativo e financeiro da Resitejo, uma empresa intermunicipal que faz o tratamento dos resíduos da sub-região do Médio Tejo, que está localizada na Freguesia da Carregueira e que é a maior empregadora do concelho. Para quem quer trabalhar numa área relacionada com o seu percurso académico e não quer sair da sua terra pode dizer-se que lhe saiu a sorte grande.
O mesmo não pode dizer Rita Varanda, de 25 anos, que tirou Reabilitação Psicomotora no Instituto Piaget. Depois de ter enviado dezenas e dezenas de currículos para empresas que empregam pessoas com as suas habilitações, deitou a toalha ao chão e limitou-se a procurar trabalho. Esteve um tempo na Decathlon em Santarém e agora é gestora de clientes na empresa especialista em marcas de distribuição Font Salem, também na área da cidade de Santarém.
No dia 13 de Maio à tarde O MIRANTE juntou quatro jovens da Chamusca no Jardim do Coreto (Largo D. Maria Marques de Carvalho), que aceitaram falar sobre as suas vidas e as suas expectativas. A conversa foi franca, descontraída e sem sombra de desânimo apesar de não se vislumbrar nenhum milagre a nível de criação de emprego nos próximos tempos.
Dos quatro só Rita Varanda já não vive com os pais, tendo optado por viver com o namorado. Beatriz Luz tem 18 anos e ainda frequenta o Secundário. Quer ingressar no ensino superior mas não decidiu ainda qual o curso que quer ou que deve tirar.
Mário Pereira, de 23 anos, licenciou-se em Engenharia de Produção Animal na Escola Superior Agrária de Santarém. É recém-licenciado e recém-desempregado. Estagiou numa empresa de Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca, que tem um efectivo de bovinos de carne com uma raça portuguesa e uma raça francesa. Não ficou a trabalhar porque não havia lugar para mais um técnico mas apenas trabalho físico.
Nuno Mira, que é autarca na Assembleia de Freguesia da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande, faz um resumo da situação. “A Chamusca é uma terra muito bonita e tem excelentes condições para as pessoas aqui viverem mas tem os problemas de toda a zona interior do país, nomeadamente a desertificação populacional. Desde os anos 70 que perdemos cerca de mil habitantes por década. E é difícil fixar os jovens no concelho porque não há trabalho qualificado. Não temos grandes empresas e não temos serviços. É um problema do interior”.
O pai de Beatriz Luz está emigrado em Itália há dez anos mas ela não quer sair de Portugal, nem sequer da Chamusca. “É aqui que tenho os meus amigos e é aqui que quero continuar a viver”, diz. A seu lado, Mário Pereira repete o mesmo discurso por outras palavras. “Gostava de ficar na Chamusca. Tenho cá família e amigos e aqui há potencial para se poder desenvolver qualquer actividade, seja qual for o sector”.
Nuno Mira é ainda mais peremptório. “Não me passa pela cabeça sair da Chamusca. Já tive propostas para ir para Lisboa mas quis sempre ficar. É a minha terra. Gosto muito de aqui viver. E também quero dar o meu contributo para tentar resolver alguns dos problemas”.
Ao começar a trabalhar na área comercial Rita Varanda descobriu um novo mundo e começou a descobrir outras capacidades que não supunha ter. Apesar de ter que fazer diariamente 70 quilómetros de carro diz que vai trabalhar sem sacrifício e que gosta muito do que faz. Quando lhe perguntamos se ponderaria a possibilidade de criar o seu próprio negócio, responde que sim, embora acrescente que provavelmente também teria que investir fora da Chamusca.
Mário Pereira está a desenvolver um projecto na sua área de estudos, em conjunto com um professor e também admite poder vir a criar o seu próprio emprego através da criação de uma empresa que alie a área florestal à da agro-pecuária.
Apesar de haver nuvens negras no futuro dos mais jovens, aqueles que falaram com O MIRANTE falaram sempre naquele tom de quem sabe que vai conseguir encontrar um caminho para tudo dar certo. Ouvindo-os somos levados a acreditar que vai dar mesmo....

A Semana da Ascensão é para reencontrar amigos, recarregar baterias e reforçar a ligação à terra

Quem levava Rita Varanda à entrada de toiros de Quinta-Feira de Ascensão quando ela era criança era um avô. Adivinha-se-lhe no sorriso que quando tiver um filho será ela a iniciá-lo no gosto pelas tradições taurinas e pela grande Festa popular que é a Ascensão. Como em Santarém não é feriado, a gestora de clientes da Font Salem já pediu um dia de férias para não perder pitada.
“Tenho amigos que não vivem aqui e aproveitamos para por a conversa em dia e reforçar a amizade que temos uns pelos outros e que não queremos que seja afectada pela distância. Faço questão de ir todos os dias ao palco principal, seja que espectáculo for e gosto da entrada de toiros porque é uma grande descarga de adrenalina”, confessa a jovem.
Mário Pereira diz que quem o levava à festa era a avó. “Os meus pais trabalhavam e eu ficava com ela na Semana da Ascensão. Ia com ela à entrada de toiros e às picarias. Ela gostava muito das picarias e íamos ver sempre”, conta com um sorriso.
Beatriz Luz vai à Festa com os amigos. Quando era criança ia com os pais e sempre gostou de ir. Os restantes colegas de conversa metem-se com ela quando diz que não bebe bebidas alcoólicas. Dão a entender que ela não diz a verdade porque o que disser vai ser lido pela mãe. Ela limita-se a sorrir.
Quanto a Nuno Mira a festa é também o reencontro com colegas da Universidade. “Todos os anos cá tenho alguns que não são de cá. Juntamo-nos à tarde, jantamos juntos, vemos o espectáculo dessa noite e no dia seguinte se houver corrida também vamos”, conta entusiasmado, já a perspectivar o reencontro deste ano.
Na entrada de toiros diz que se coloca sempre no meio da estrada com ar de valentão mas que assim que vê os animais aproximarem-se foge para se esconder e quando volta a olhar os toiros já passaram.
Ri-se enquanto faz o relato mas acrescenta que tem no currículo um pega de caras. “Nunca fui forcado mas tive que pegar uma vaca quando andava a estudar em Évora, durante uma vacada académica. Como eu era da Chamusca ninguém acreditava que eu não era capaz e apesar de estar cheio de medo lá teve que ser”. Explica que não saiu em ombros mas que se saiu bem e que a terra se pode orgulhar da sua coragem.

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