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25/07/2017
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Os caminhos de Fátima com António Ceia da Silva
O presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo fez o caminho de Fátima com o seu grupo de amigos “Os Caricas”. O MIRANTE fez-lhes companhia durante uma das jornadas que se iniciou em Portalegre
Edição de 18.05.2017 | Sociedade

“Só é nosso o que guardamos na memória. Não acredito em Deus mas vivo como se acreditasse”. Com estas duas frases do livro “A Peregrina”, de Basílio Losada, partimos na manhã de quinta-feira, 11 de Maio, numa missão de acompanhar uma dúzia de peregrinos que faziam o caminho de Fátima.
Do grupo fazia parte António Ceia da Silva, o presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo. Como é que um presidente de uma entidade de turismo se mete a caminho de Fátima por entre carros a alta velocidade, caminhos sem bermas e camiões que parecem que transportam o diabo em cima? Afinal a pergunta tem uma resposta fácil. Quem nasce no meio das dificuldades nunca se nega; e a fé move montanhas.
Ceia da Silva faz o caminho de Fátima pela terceira vez e não é por desporto ou para um dia ter que contar aos netos; é mesmo por devoção a Nossa Senhora de Fátima e por acreditar que a peregrinação é um acto de fé e esperança nos homens e nos deuses a quem, à falta da vontade e do poder dos homens, se pode pedir o impossível.
Nem por isso Ceia da Silva deixa de ser crítico quanto às condições em que os peregrinos caminham para Fátima. “Isto tem que ser uma máquina bem montada. As autoridades nacionais e regionais ainda não perceberam a importância dos peregrinos na economia e no turismo. No segundo dia da nossa peregrinação, entre Lisboa e Vila Franca de Xira, a um domingo, tivemos dificuldade em encontrar um estabelecimento aberto para bebermos café. E nesse dia havia centenas e centenas de pessoas na estrada a caminhar. Como é que se resolve este problema?”, pergunta Ceia da Silva para responder a seguir: “com tempo e com trabalho de todas as entidades locais e regionais; e também com a ajuda dos jornalistas que devem escrever mais do que sobre os assuntos da Assembleia da República e do Governo.
O MIRANTE acompanhou o grupo de peregrinos desde Vila Nova da Barquinha até Torres Novas. Esta conversa foi-se fazendo depois de várias paragens para beberem umas minis e, em grupo, agradecerem a Deus e pedirem pela família e pelos amigos.
Depois do Entroncamento ficamos a saber que o grupo tem um nome; São “Os Caricas” e o baptismo está explicado em cima. Foi a esposa de António Ceia da Silva, Célia Paulino, que nos explicou: “eles param em quase todas as baiucas para beberem uma mini”. Foi também ela que logo a seguir à primeira paragem para abastecer de cerveja, café e empadas, desafiou o grupo a rezar alto como é habitual na peregrinação. Mal notou que as vozes rezavam desmaiadas gritou: “então Caricas, quero ouvir as vossas vozes bem alto”. E ao longo do trajecto, por meia dúzia de vezes, a conversa possível entre peregrinos era interrompida pela oração e pela recordação dos nomes de Francisco e Jacinta.
Ceia da Silva veio com o grupo de Portalegre e quando chegarem a Fátima andaram 170 quilómetros. Uma boa maioria queixou-se de bolhas nos pés. Só o Felício, que era o mais velho do grupo e comandava a peregrinação, parecia disposto a fazer a viagem toda num dia.
Ceia da Silva explicou ao repórter de
O MIRANTE a razão de fazer parte de um grupo reduzido mas tão diversificado em termos de idades e opiniões. “Uma parte é família e a outra são pessoas que nos são próximas e com quem temos bastante afinidade. Aqui não há política nem clubes que nos dividam”.
Curiosamente um dos peregrinos vestia uma bandeira do Sport Lisboa e Benfica E durante o percurso vários automobilistas pararam para demonstrarem o seu clubismo e o amor ao Benfica. Foi uma constante em quase todo o percurso.
Na primeira paragem no Entroncamento, a esposa de Ceia da Silva encontrou um grupo de São José das Matas, localidade do concelho de Mação, de onde é natural, e houve lágrimas e foto de família para registar o acontecimento. E na foto de família, embora Célia Paulino seja sportinguista, o cachecol do Benfica não passa despercebido.
Na Meia Via encontramos um local onde nos convidaram para comer uma sopa; Ceia da Silva tomou boa nota e comentou. “No percurso é a primeira vez que encontramos alguém da população a oferecer comida e balneários”.
Durante a manhã de quinta-feira choveu ao longo de quase todo o percurso. Mas a água nunca impediu a boa disposição do grupo que se resguardava debaixo de chapéus com a marca da Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo.
Quando perguntamos a Ceia da Silva quantas “piscinas” é que ele fazia por dia para poder estar em todas as iniciativas das quatro dezenas de concelhos da Região de Turismo a resposta foi quase religiosa.
“Faço as que forem necessárias e esse é verdadeiramente o trabalho que menos me custa. O mais difícil ao nível do Ribatejo, por exemplo, é convencer os operadores a investirem em unidades de turismo que não sejam as velhas caixas de fósforos, ou seja, hotéis onde as pessoas só encontram uma cama e pouco mais. Os novos turistas querem uma boa mesa, se possível uma sauna e um banho turco, e outras condições de luxo que também se tornaram acessíveis para quem investe nesta área”.
E o Alentejo está assim tão à frente do Ribatejo? “Claro que sim. Durante muito tempo o turismo no Ribatejo era o Festival de Gastronomia. No Alentejo andou-se a investir durante muito tempo, até em infraestruturas, em coisas que não têm visibilidade, para que agora se possa dizer com propriedade que há turismo de grande qualidade e a bom preço”.
A meio da tarde, quando o repórter de
O MIRANTE deixou o grupo de peregrinos de Ceia da Silva, faltavam 24 quilómetros para chegarem ao Santuário de Fátima. Depois do almoço, que foi o melhor tempo de convívio do grupo, já não vimos o Felício na frente do grupo com a bandeira do Benfica até aos pés.
Mas ainda tivemos tempo de ver e ouvir a leitura de uma mensagem que os convidava a chegarem a Fátima e procurarem o “restaurante benfiquista” com a ementa que deixou o grupo super entusiasmado; “Frango à Leão”, entre outros acepipes que deixam qualquer sportinguista peregrino para todo o sempre.

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