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Trumpada

Regue-se e use-se à vontade porque não falta água; neste caso, o absurdo chama-se Alqueva que nos permite ter água na torneira e, num ano meteorológico como este, aumentar a área de arroz

Edição de 08.06.2017 | Opinião

O presidente dos Estados Unidos da América rasgou o Acordo de Paris sobre alterações climáticas. Vale a pena nós, leitores de O MIRANTE, focarmo-nos e esgotarmos a nossa atenção neste tema? Duvido muito. Anda meio mundo a falar sobre o tema, o que é quase tão nefasto como a própria decisão de Trump; distraímo-nos. Acredito que, contrariamente ao que gritam, a Trumpada interessa enormemente aos governantes europeus que assim têm um bom bode expiatório para nos contentar. Como sabemos, o Acordo de Paris, como todos os outros que o antecederam, não é mais que um entretém que nada resolve do que deve. Deve ficar muito claro e explicito que com este escrito não apoio Trump nem tão pouco a sua decisão. Apenas compreendo que, num contexto completamente insustentável, de miséria, muitas cidades americanas se regozijem por as minas de carvão voltarem a laborar. Na mesma medida – e não é a primeira vez que o escrevo –, estou convicto que a conversa fiada do “Acordo de Paris” é apenas para brincar ao faz de conta. A última das vezes em que escrevi sobre este tema, isto é, o modo de vida totalmente insustentável da Humanidade, foi a semana passada. Na verdade, o grande problema não é Trump mas somos todos nós que “gastamos” muito mais do que podemos. Nestes tempos, todo o tipo de absurdo que mantenha o “bem-estar” e a riqueza de uma enorme minoria serve para o justificar e manter as consciências tranquilas. Acontece que o desafio da vida na Terra, tal como a conhecemos, não tem opções e os “milagres” da tecnologia não chegam; é preciso uma brutal inversão, isto é, pôr quase tudo em causa e começar de novo. O drama é que a tal enorme minoria é quem decide e, obviamente, decide-se a baralhar e deixar tudo na mesma. E querem crer que Obama faz parte da mesma equação que Trump? Esta ilusória posição de conforto de alguns – e de conformação de outros – verifica-se aos mais variados níveis: por exemplo nós que temos água na torneira. Imaginem que, na situação de grave seca que assola o país, há dias ouvi um autarca, no Baixo Alentejo, afirmar que não há falta de água. Regue-se e use-se à vontade porque não falta água; neste caso, o absurdo chama-se Alqueva que nos permite ter água na torneira e, num ano meteorológico como este, aumentar a área de arroz.
Carlos A Cupeto
(Universidade de Évora)

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