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“O Eco Parque do Relvão só é viável se for resolvida a falta de acessibilidades”

“O Eco Parque do Relvão só é viável se for resolvida a falta de acessibilidades”

Domingos Saraiva é o director executivo da associação que gere a área das empresas de reciclagem

Edição de 22.06.2017 | Entrevista

O Eco Parque do Relvão na Carregueira, Chamusca, nasceu como algo inovador. A ideia era acolher empresas ligadas ao tratamento e aproveitamento de resíduos. Isso tem acontecido mas não é devidamente reconhecido. Domingos Saraiva, director executivo da Associação Eco Parque do Relvão, acredita que a situação está a mudar e que é natural que assim seja. “Estão aqui instaladas as duas únicas unidades de tratamento de resíduos industriais perigosos e as duas únicas unidades de incineração de resíduos hospitalares do país. Isto não é uma questão local mas nacional”.

A Associação do Eco Parque do Relvão foi fundada em 2008. Tinha cinco associados (Câmara da Chamusca, Nersant, Resitejo, Sisave e Somos Ambiente) mas nunca funcionou. O senhor foi agora contratado para director-geral e já foram concretizadas algumas alterações. É um recomeço? O ciclo que conheço iniciou-se em Maio do ano passado quando organizámos aqui na Chamusca a iniciativa “Agendas Locais para a Gestão dos Recursos” em que basicamente o que se focou foi a existência do Eco Parque do Relvão como projecto em fase embrionária e a necessidade de haver uma unidade gestora das questões relacionadas com o mesmo.

O que foi feito? A associação tinha sido criada mas não estava registada e não tinha órgãos sociais eleitos. Além disso os estatutos estavam desactualizados. O que nós fizemos foi recuperar o que existia e convocar uma assembleia geral para rever os estatutos. Posteriormente criamos uma comissão administrativa para iniciar o processo de actividade e convocar eleições para os órgãos sociais.

Quantos associados tem actualmente a Associação Eco Parque do Relvão? Actualmente temos vinte associados. Na revisão dos estatutos foram criados três tipos de associados. Os residentes, que já estão instalados no Eco Parque; os associados ordinários, constituídos por entidades não residentes mas que estão interessadas em ter relações de actividade com residentes ou que estão a preparar-se para se instalar e os associados honorários constituídos por entidades com perfil, história e actividades que possam via a ajudar a resolver toda a complexidade de questões existentes.

O que se pretendeu com a inclusão de associados não residentes? É uma forma de ajudar todo este processo. O Município da Chamusca terá sempre lugar na presidência da direcção. Para além dele temos mais dois associados institucionais que são as Juntas de Freguesia com territórios seus ocupados pelo Eco Parque. E nos restantes associados temos uma empresa não residente e outra internacional, que é a Tecnóloga, uma empresa que tem actividade na área do tratamento dos resíduos.

Quais são as competências da associação? A Associação tem como objectivo tentar agregar interesses comuns dos associados. Identificar questões que cada um anda a tratar por si e tentar criar uma simbiose. Há questões que tratadas em conjunto são mais fáceis de resolver e que se resolvem mais rapidamente. Tem uma função de gestão dos interesses comuns e também tem a função de tentar solucionar a resolução de questões que ultrapassam os próprios associados, como é o caso das acessibilidades, por exemplo.

O problema das acessibilidades é o que requer maior atenção? Um dos pontos que está em agenda para ser adjudicado é um estudo sobre tráfego para termos a perfeita noção do que se passa aqui. Não só para o Eco Parque mas toda a zona envolvente.

Não existiam já estudos nessa área? Não. Existiram estudos feitos por empresas no âmbito dos seus processos de licenciamento mas apenas abrangiam a sua actividade localmente. Nós queremos fazer outra coisa. Um estudo que vai identificar todo o tráfego que por aqui passa, seja ele destinado ao Eco Parque ou não. O estudo vai identificar as origens e os destinos para que se demonstre a urgente necessidade de se resolverem estas questões.

Solução já existe há muitos anos mas não é considerada prioritária pelo actual Governo nem foi considerada prioritária pelos governos anteriores. Ainda há pouco tempo isso voltou a ser dito. Há projectos feitos, há estudos de impacto ambiental feitos mas está tudo parado à espera de financiamento. Temos que explicar que esta situação tem impactos negativos não só para o Eco Parque do Relvão como para os sectores da floresta e agricultura, por exemplo. O IC3 está cortado. Quem usa este eixo sul, entre Almeirim e Tramagal, sabe que é vulgar circular-se a 30 km/hora. Isso tem consequências nos custos de exploração das empresas. Neste momento, dificilmente se conseguem instalar aqui empresas porque os custos dos transportes para esta zona são muito elevados.

E os problemas ambientais e danos para as populações? Isso está quantificado? Temos níveis de ruído e de qualidade do ar, por exemplo, que já ultrapassam todos os parâmetros permitidos. E muitas estradas municipais estão degradadas porque são usadas como alternativas à Estrada Nacional 118.

O que é que a associação pode fazer? Pode levantar estas questões e tentar ajudar na procura de financiamentos, nomeadamente a nível nacional. Não é a Associação que vai construir mas vai tentar levar a quem decide a situação real. A ausência de acessibilidades é a questão fundamental. Há outras para tratar mas esta é fundamental para o desenvolvimento do Eco Parque.

Tem conhecimento de empresas que não se tenham instalado por causa disso? Não tenho mas continuamos a pensar que a questão das acessibilidades é prioritária. Sem ela não sei se mais alguma coisa se justifica.

“Sabemos que vamos ter dificuldades porque vamos mexer com alguns interesses”

Chegou agora e não é daqui. É uma vantagem ou desvantagem? Sou uma pessoa de projectos e da gestão do dia a dia. Acho que este projecto é interessantíssimo. Muito sinceramente, há mais de um ano que viajava para aqui com frequência porque era consultor de algumas empresas e quando olhava para o Eco Parque sentia que precisava de uma alma nova. Vivia em Palmela e os meus amigos perguntavam-me o que andava eu a fazer a caminhar tanta vez para a Chamusca. Eu respondia-lhes que andava a “juntar pauzinhos”.

Juntar pauzinhos? Andei durante esse ano a ouvir muita gente. A ver, a estudar o assunto. Eu olho para o futuro e quando olho para trás não é para criticar o que não foi feito mas para não repetir erros.

Foi contratado pelo seu currículo? O currículo era sempre importante para qualquer pessoa que viesse ocupar este cargo. O currículo, a disponibilidade, o interesse. Fiz a minha vida profissional e tenho disponibilidade. Ter esta função agregada a ser um executivo, não dá. Não há tempo para as duas coisas e alguma fica para trás.

O seu currículo permite perceber que tem uma boa rede de contactos e que deve conhecer bem as entidades que podem ser importantes para o desenvolvimento do Eco Parque do Relvão. Não pretendemos substituir nenhuma função das empresas mas há situações onde podemos ser importantes. Ajudar empresas que não se conseguiam legalizar, por exemplo, ou que tenham outro tipo de dificuldades... nós mexemos. Uma das vantagens é a Associação não ter um interesse directo. Quando contacta uma entidade não é vista como estando ali a tratar do seu negócio. Tem a capacidade de ter um ‘network’ interessante. Conhece as entidades, tem bons contactos no sector, mexe-se com relativa facilidade. Pode ajudar a resolver. Pode simplificar.

Há naturais expectativas das empresas e das instituições. Já está a sentir a pressão? Tenho encontrado grande disponibilidade. Claro que as principais perguntas sobre a Associação Eco Parque do Relvão têm a ver com questões práticas. Para que serve? Quanto custa? Temos que demonstrar que a Associação tem interesse público. As pessoas não estão disponíveis para alimentar coisas que não trazem nada. Temos esse grande desafio.

Há questões como a do ordenamento do Eco Parque do Relvão que vão mexer com situações já existentes. A criação de um regulamento de gestão; das acessibilidades internas; da segurança; do tráfego; da sinalética... Tudo isso vai ter que ser feito. É um pouco mais difícil agora porque as pessoas já estão instaladas mas temos que o fazer. Se não fizermos não saímos disto.

Como vencer as resistências? Com ponderação e muito diálogo. Não é simples e nem tudo vai acontecer muito bem. Vamos ter dificuldades. Vamos mexer com poderes. Vamos mexer com interesses. Nós portugueses gostamos muito do nosso quintal. E depois fazemos logo um muro e depois pomos uma chapa e pomos um portão... Mais tarde percebemos que criámos problemas em vez de soluções.

“Este não é um problema local mas um problema nacional”

Um dos problemas do Eco Parque é ser visto pelas entidades que superintendem estas questões a nível do poder central, não como um Eco Parque mas como mais uma zona industrial. Efectivamente o Eco Parque existe mas não funciona como Eco Parque. Não tem fundamento próprio. Há um conjunto de questões que têm que ser resolvidas e isto ultrapassa as próprias possibilidades de um município. É uma questão de ordenamento a nível nacional.

Não abdicam de que este Eco Parque seja efectivamente um Eco Parque e não apenas mais uma zona industrial? Mesmo em termos nacionais, seria um crime perder-se uma oportunidade destas. Nós estamos numa zona que necessita de criar emprego, de desenvolver a economia e temos aqui tudo para que isso aconteça. São coisas difíceis de fazer mas o potencial está aqui. Perder esta oportunidade de criar aqui situações de economia circular, por exemplo, através da criação de processos de simbiose industrial que vão favorecer todos, gerar emprego e dinamizar a economia, não é racional.

Tem que reconhecer que as entidades que têm lidado com este assunto não têm mostrado grande sensibilidade? Dos contactos que tenho tido com inúmeras entidades nos últimos meses não me posso queixar minimamente de ausência de interesse. Pelo contrário. A certa altura eu até já dizia que o meu papel de “motor” até nem era necessário porque já há gente a pressionar e a perguntar porque é que isto não anda.

Está a ser optimista. A não resolução do problema das acessibilidades é um bom exemplo da falta de interesse das entidades nacionais. Na segunda edição da iniciativa “Agendas Locais Para a Gestão dos Recursos” (Nota da Redacção: que estava prevista para dia 22 de Junho e que foi entretanto adiada devido ao incêndio de Pedrógão Grande) vai estar presente, por exemplo, a coordenadora da unidade de Missão de Valorização do Interior, Helena Freitas. É uma pessoa que já está a par disto, que se interessou e que pode ajudar junto das entidades superiores a tentar resolver essa questão. Temos problemas de ordenamento. Temos problemas de áreas de expansão que é necessário criar. Temos muitas questões a esse nível.

Não será a primeira vez que governantes e pessoas com capacidade de decisão elogiam o Eco Parque. Infelizmente na altura de passarem à prática... O representante da CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional) de Lisboa e Vale do Tejo vem fazer uma intervenção em que explica que o Eco Parque do Relvão é um caso prático interessantíssimo. Temos garantida a presença no encontro de três Secretários de Estado. O das Infraestruturas, o da Energia e o do Ambiente. Acho que é bastante significativo até porque eles sabem que isto não é uma Feira de Exibições.

Para os políticos e empresários é bom ter chegado ao processo alguém com a energia que por vezes já lhes vai faltando. O Eco Parque do Relvão não é um problema da Chamusca nem sequer regional. É uma questão nacional. Estão aqui instaladas as duas únicas unidades de tratamento de resíduos industriais perigosos e as duas únicas unidades de incineração de resíduos hospitalares, para não falar de todos os outros. Servem o país inteiro.

Da cerveja ao ambiente, uma vida dedicada à gestão

Domingos Saraiva nasceu em Lisboa no ano de 1949 e reside actualmente no Pinhal Novo, concelho de Palmela. Tem formação superior em gestão de empresas, gestão financeira e gestão de marketing, bem como nas áreas de economia e gestão de empresas de serviços de águas, de análise de sistemas e de planeamento e distribuição. É também formador licenciado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.
Iniciou a sua carreira de gestor em 1975, na Sociedade Central de Cervejas, como director de planeamento de produção e distribuição de fábrica. Desde aí passou por diversas áreas de actividade até se fixar no sector do ambiente. Em 1995 funda a NOVAFLEX – Técnicas do Ambiente, empresa com sócios nacionais a que se viria a associar o Grupo Tecmed (actualmente Urbaser), e que posteriormente adquiririam a totalidade do capital da empresa:
Entretanto foi sempre trabalhando como gerente e administrador em diversas empresas ligadas ao sector dos resíduos. Em 2002 é nomeado vogal do conselho de administração da Empresa Geral de Fomento (EGF), então controlada pelo Estado, e até 2005 integra os conselhos de administração de várias empresas púiblicas ligadas à água e resíduos de todo o país.
Em Março de 2007 é nomeado presidente do conselho de administração da Tratolixo - Gestão de Resíduos Urbanos, cargo para o qual foi reeleito em 2010. Termina o mandato em Fevereiro de 2013. Na Tratolixo funda com mais 10 empresas do sector a Associação de Empresas Gestoras de Sistemas de Resíduos, onde é igualmente nomeado presidente da Direcção para o quadriénio de 2010/2014 e renomeado em Fevereiro de 2014. Cessa essas funções em Outubro de 2015. Entretanto surgiu o convite da Associação Eco Parque do Relvão a que não conseguiu dizer que não.

“O Eco Parque do Relvão só é viável se for resolvida a falta de acessibilidades”

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