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24/07/2017
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Pedro Abrunhosa é contra agendas culturais feitas em função de calendários eleitorais
“Lembro-me de andar a tocar aqui na região como músico de jazz a troco de quase nada”
Edição de 22.06.2017 | Entrevista

Pedro Abrunhosa esteve em Abrantes na abertura das festas da cidade para participar num concerto com Áurea e a Abrantes Big Band. No final falou com O MIRANTE e recordou os tempos em que ainda não era famoso e tocava na região como músico de jazz a troco de pouco mais que uma sanduíche. Elogiou o investimento das autarquias na recuperação das salas de espectáculos e defendeu políticas culturais que não sejam feitas em função de calendários eleitorais nem de marés de artistas da moda.

A última vez que passou pela região foi em 2014 com a digressão “Contramão”. Estamos em 2017 e não há concertos agendados para estas bandas. Só aceita tocar nos mesmos locais de dois em dois ou de três em três anos?!

A digressão tem que ter um itinerário racional e aqui lembro-me que foram várias noites e só não foram mais porque tínhamos outros compromissos. Dois anos é o período mínimo para voltarmos a fazer o mesmo local mas agora, com o novo disco, está na altura de regressarmos.

Algumas cidades do distrito de Santarém remodelaram velhas salas de espectáculos, tendo gasto milhões de euros mas não têm qualquer programação regular de qualidade. Foi dinheiro mal gasto?

O investimento feito foi fundamental mas há que investir numa programação cultural com alguma coerência. As agendas culturais não podem ser feitas em função de calendários eleitorais nem determinadas pelas marés dos artistas que estão na moda. Tem que haver um director artístico competente.

Normalmente o que se apresenta como investimento na cultura é a obra de remodelação. É preciso que as autarquias percebam o papel fundamental que a cultura tem no desenvolvimento regional. A cultura já não é uma coisa externa à política mas uma coisa intrínseca à política. Ela está na origem, por exemplo, do que é hoje o paradigma do crescimento nacional. Este crescimento actual dá-se à volta de um paradigma de turismo cultural. Temos que saber aproveitar o nosso património cultural e o nosso património humano.

Consegue visitar a maior parte das terras onde vai tocar? Nem sempre. Por exemplo, hoje (14 de Junho), consegui visitar Abrantes. Infelizmente a maior parte das vezes não tenho tempo porque venho de um espectáculo e vou para outro mas tenho muitas saudades de quando chegava via, visitava os museus, os cafés, contactava com pessoas. Mais tarde, no concerto, sentia um espelhar disso porque falava dessas realidades.

Já lhe aconteceu ficar decepcionado com a plateia, ou por ser reduzida ou por não corresponder ao seu entusiasmo e ao dos músicos? É raro mas acontece. O meu percurso musical não começa quando eu começo a editar discos. Há um período antes do “Viagens” (álbum de estreia saído em 1994, gravado com os Bandemónio, com êxitos como ‘Tudo o que eu te dou’ e ‘Não posso mais’). Nessa altura há uma mudança na cena musical portuguesa e a minha vida também muda. Mas esse disco não chega por acaso. Já havia um processo de trabalho científico. De investimento humano.

Tocou em muitos lados antes de ter êxito e grande visibilidade. Há bocado estava-me a lembrar de ter estado aqui em Abrantes como músico de Jazz, nos anos 70 e 80. E toquei aqui na região em sítios esconsos, escuros, por uma recompensa que era pouco mais que uma sanduíche. É aí que aprendemos a dar valor ao que o público nos dá.

Uma sala esgotada é sempre uma sala esgotada. Felizmente o que tem acontecido é que as salas estão cheias. Mas se alguma vez acontece haver uma sala que não está, fazemos o espectáculo com a mesma dignidade. Eu recordo-me de ter tido muito pouca gente e ter dado muito. Eu faço cada espectáculo como se fosse o meu último espectáculo. Acho que o público merece e peço aos meus músicos para fazerem a mesma coisa.

Estar a tocar numa passagem de ano no Porto, como já aconteceu, e haver uma televisão que em vez de comprar os direitos de transmissão do concerto tem um repórter no local a fazer perguntas da treta a cidadãos que assistem ao espectáculo enquanto faz de conta que não está a decorrer o espectáculo, dá-lhe vontade de rir ou de uivar? Eu... nem me dá vontade de nada. Chegamos a uma situação em que a fasquia geral ao nível da exigência cultural baixou tanto que os programadores já nem equacionam os conteúdos. Nós somos cada vez mais donos de conteúdos. Com um clic escolhemos entre ver um filme de Bergman ou uma porcaria qualquer e geralmente optamos pela coisa mais sinistra. Esses canais de televisão quando fazem a gestão da sua própria antena são, lamentavelmente, o espelho da sociedade.

Gosta mais de tocar numa sala com boas condições onde o público paga bilhete ou numa festa popular ao ar livre sem entradas pagas? Do que eu gosto é de tocar. De ir para cima de um palco. Os registos são diferentes mas artisticamente tenho sempre grande satisfação.

Há artistas que já confessaram que vão aos programas da televisão de terra em terra de borla e que por vezes nem têm direito a uma refeição. Será disto que se fala quando se fala num mundo cão? É lamentável, se isso acontece, que as televisões tratem assim os artistas que já têm uma vida tão dificultada. As televisões que fazem esse tipo de conteúdo e que fazem esse conteúdo à custa de pessoas que têm elas próprias que pagar a sua deslocação, dizendo-lhes que estão a fazer promoção, fazem lembrar a cultura do eterno estagiário. Venham trabalhar connosco mesmo de borla porque estão a treinar. Se esses artistas impuserem alguma dignidade e mudarem a sua postura as televisões ficam sem artistas para levar. Ou baixam a fasquia ainda mais ou vão ter que reequacionar a sua política de recrutamento e de remuneração de artistas.

Já interrompeu espectáculos? Por que motivo? Interrompi espectáculos duas vezes na minha vida e foi devido a problemas de violência no meio do público. Uma das vezes foi em Braga. No meio de sessenta mil pessoas reparei que havia um foco de violência. Parei o espectáculo e parei-o com violência. E desafiei a virem ao palco confrontarem-me. No Porto também fiz isso uma vez. O personagem que está no palco tem obrigação de intervir se vir que a situação está a alastrar. É preciso reagir. Claro que isso requer algum sangue frio e alguma experiência. É preciso saber gerir sem deixar alastrar o pânico.

A crise teve efeitos nos cachets dos seus espectáculos? Não sei responder. Nós sempre tivemos uma política que tem a ver com a realidade do país. A nossa maior preocupação tem sido viabilizar espectáculos em sítios que não têm recursos mas mantendo, obviamente, uma certa dignidade. Nesse sentido damos um contributo grande para a descentralização. É preciso que os músicos tenham a noção de que as pessoas desses sítios também têm direito a ver aquele produto. As pessoas em Portugal querem ver os artistas portugueses e querem ouvir a música portuguesa. O nosso trabalho sempre foi caro mas sempre foi muito rentável para as entidades promotoras porque os espectáculos esgotam. Temos a noção que estamos num grupo de artistas que as pessoas querem ver.

Quantas vezes é que já teve dores de barriga em palco? Dor de barriga a sério e não frio na barriga? Nunca. Já subi ao palco muito doente e com febre mas nunca cancelei um espectáculo. Nunca meti baixa (riso). E também nunca tive nada que me obrigasse a abandonar o palco. Mas já tive problemas muito complicados em palco. Ainda há dias fizemos um espectáculo para muita gente, num espaço fechado, num pavilhão, em que a temperatura do ar subiu de tal maneira que foi difícil estar em palco. Ali a generosidade com que damos o melhor enquanto músicos tem custos elevados. Corremos o risco de ficar desidratados. Isso pode ser perigoso. Já tive alguns problemas desses.

Quantas vezes é que canta só para amigos? Praticamente nenhuma. Não. Uma vez estava com o Herman José, na tomada de posse de um Presidente da República, o Jorge Sampaio, e uma senhora disse para eu cantar uma canção. O Herman, que também está habituado a que lhe peçam para contar anedotas, por exemplo, perguntou à senhora o que ela fazia e quando ela disse que era auditora, pediu-lhe com um grande sorriso para ela auditar ali mesmo.

“Antes dos espectáculos só peço uma cadeira, água e fruta”

Quais são os rituais que antecedem o seu espectáculo? Não tenho qualquer ritual. Sossego, água...nada de especial.

Chega ao local do espectáculo quanto tempo antes? Normalmente chego dez minutos antes.

E à localidade? À localidade chego umas horas antes.

Quantas pessoas são precisas para montar um espectáculo seu? Normalmente a equipa é constituída por umas quarenta pessoas.

Qual o maior luxo que pode ter antes de entrar em palco? Eu só peço uma cadeira, água e fruta. Chega. Não é preciso mais nada. Se eu quiser luxos tenho-os em casa, não os vou pedir aos outros.

Como é possível um músico esquecer-se em palco de uma letra que escreveu e que já cantou mais de cem vezes? Acontece todos os dias. Todos os dias (riso).

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