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Tejo, confraria

O ponto alto do ridículo aconteceu quando a representante do Governo português, Helena Freitas – mulher com peso, porque é coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior – se viu obrigada a intervir e a dizer aos organizadores o que estavam ali a fazer

Edição de 22.06.2017 | Opinião

A propósito da história que hoje escrevo dei conta que aqui, em O MIRANTE, já escrevi nove artigos especificamente sobre o Tejo. Reli alguns e confesso que este cortejo de textos ao longo de quase cinco anos é, em meu entender, um contributo para a causa de que me orgulho.
Às vezes, a curiosidade é maior que o bom senso e cometemos “loucuras”. Assim foi no feriado de 15 de Junho, em que rumei a Cáceres [Espanha] pelo Tejo, onde a Confraria Ibérica do Tejo (CIT) organizou um seminário. Mais um a juntar a dezenas de outros que desde há muito vão acontecendo. Como cristão, interrogo-me se terá sido pecado dedicar um feriado santo a ir a Cáceres. Na verdade, o Tejo merece isto e muito mais e, no fim, valeu a pena ir a Cáceres. A nova CIT pode ser uma boa oportunidade para cuidar do Tejo mas aquilo que presenciei em Cáceres deixa-me a dúvida: passará isto além do que mais um ato apaixonado e voluntarioso de João Serrano?
O certo é que em Cáceres o Tejo estava bem representado, o que infelizmente só por si não chega. A receita, baseada em “mais do mesmo”, é, insiste-se na memória do Tejo que já não existe e que não voltará a existir. Inventaria-se um passado de iniciativas praticamente inconsequentes e repetem-se erros. Do mais curioso que se passou em Cáceres foi, na primeira mesa redonda do dia, ficar evidente que cada um dos presentes tinha uma ideia diferente do que se estava ali a passar.
O ponto alto do ridículo aconteceu quando a representante do Governo português, Helena Freitas – mulher com peso, porque é coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior – se viu obrigada a intervir e a dizer aos organizadores o que estavam ali a fazer. Pouco antes, com a sua intervenção, a coordenadora tinha efetivamente contribuído para o contrário, isto é, para a confusão consequente. Na verdade a senhora navega nas suas águas sem olhar para as margens e até se esqueceu da sua relevante responsabilidade quando ignorou todo o quadro legal existente em matéria de água, do Plano de Gestão de Região Hidrográfica (PGRH) vigente e da entidade nacional gestora dos rios chamada Agência Portuguesa do Ambiente.
Nada de diferente de todos os outros mas no caso de Helena Freitas, como representante do Governo, é, no mínimo, espantoso. Quem perde com tudo isto é o Tejo. Pela amostra, como alguém disse em Cáceres, pouco mais nos resta do que contar com o “milagre do Tejo”, independentemente dos nove milhões de euros para o território Tejo que o Interreg acaba de aprovar. Todos sabemos que o problema nunca foi falta de meios e dinheiro que nestes seminários sempre são reivindicados, é antes falta de ação transformadora. Provavelmente, se fossem executados apenas dez por cento da agenda prevista no PGRH o Tejo ficaria a ganhar muito. Apesar de estar tudo inventado e só faltar fazer, surge o bom (?) exemplo da AECT (Agrupamento Europeu de Cooperação Transfronteiriça) do rio Minho como modelo a implementar no Tejo. Isto é, no rio Minho há mais uma agenda estratégica comum; um Orçamento Participativo Transfronteiriço; uma plataforma online conjunta; a figura de Provedor Transfronteiriço; um programa de ‘Desporto para Todos’; o grande projeto do Parque Transfronteiriço e Ponte Pedonal e Ciclável; e a realização das mais diversas atividades de âmbito cultural, desportivo e social, tudo excelente para gastar muito dinheiro e pouco ou nada resolver. Enfim, no caldeirão das ideias, planos, estratégias, estudos e tudo o mais, não se esqueçam do rio Tejo, por favor.
Como gostaria de estar enganado.
Carlos A. Cupeto (Universidade de Évora)

P.S. – Já agora: onde estava, em Cáceres, o interlocutor de Helena Freitas, do Governo de Madrid?

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