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Importação de “modas” espanholas só prejudica as tradições tauromáquicas portuguesas

As tradições tauromáquicas de Portugal e Espanha são diferentes e assim deve continuar a ser para bem dos aficionados dos dois países. Tudo o que seja importar uma moda como aconteceu com a frustrada tentativa de alguns aficionados de Benavente, com os chamados toiros de fogo, é prejudicial e está condenado ao fracasso. No entanto há aspectos que podem ser melhorados para que os espectadores não se cansem de ver sempre o mesmo, da mesma forma. Inovar é preciso, dizem alguns dos entrevistados por O MIRANTE. E também é preciso baixar o preço dos bilhetes.

Edição de 06.07.2017 | Cultura e Lazer

Rafael Ferreira da Silva, 50 anos, advogado, Salvaterra de Magos

“Os toiros de morte já não fazem parte da nossa tradição”


Para Rafael Ferreira da Silva as corridas de toiros têm futuro se, como em qualquer outro espectáculo, inovarem e se modernizarem. “Não vou com frequência a touradas mas acho que em qualquer espectáculo o futuro passa sempre pela modernização, diversificação e inovação, oferecendo aos novos motivos de interesse”.
O advogado diz que todas as inovações devem respeitar as nossas tradições e chama a atenção para o perigo de importar ideias que nos são alheias. Refere como exemplo “os toiros de fogo” espanhóis que alguns aficionados tentaram imitar nas festas de Benavente. “Foi um disparate da parte de quem optou por trazer essa novidade. A festa de Benavente já tem as suas tradições e não precisava de importar mais uma”, lamenta.
Defende que também não faz sentido tentar reintroduzir os toiros de morte no nosso país. “É algo que já não faz parte da nossa tradição. Pessoalmente defendo o que é genuinamente nosso como os forcados, por exemplo”. Interrogado sobre o preço dos bilhetes diz que o mesmo tem que ser ajustado à qualidade de cada espectáculo. “Quando o espectáculo é bom é natural que o bilhete seja mais caro”, conclui.

Paulo Durão, 52 anos, empresário, Chamusca

“Com bilhetes mais baratos haveria mais gente nas praças”

Se os bilhetes para as corridas de toiros não fossem tão caros haveria mais gente a encher as praças. A opinião é de Paulo Durão, que garante que a festa tem futuro e que a tauromaquia é uma tradição que continua bastante enraizada no Ribatejo, nomeadamente entre os jovens.
“Os bilhetes são bastante caros. Se o preço baixasse isso atrairia mais público. Há muita gente que gosta de touradas mas que infelizmente não tem capacidade financeira para suportar os valores que são pedidos”, defende.
No que toca aos toiros de fogo que alguns aficionados tentaram introduzir nas festas em Benavente é categórico: “Cada um tem a sua opinião mas para mim não foi nada boa ideia”, refere.
Paulo Durão não é contra a reintrodução dos toiros de morte em Portugal mas diz que prefere as touradas à portuguesa com toureio a cavalo e forcados. Conta que também foi forcado embora por um curto período de tempo. “Já fui forcado em tempos e fiquei logo reformado. Levei uma “tareia” muito grande de um toiro e fiquei vacinado. Hoje em dia limito-me a ver”.

Joaquim Cabeça, 57 anos, director de serviços da Benagro, Benavente

“Polémica dos toiros de fogo de Benavente foi tempestade em copo de água”

A recente polémica com os toiros de fogo em Benavente foi uma “tempestade num copo de água” com uma confusão gerada pelas redes sociais, defende Joaquim Cabeça, que vive naquela vila ribatejana e até já fez parte da comissão da Festa da Amizade e da sardinha assada.
“Não aconteceu nada de preocupante e dramático como quiseram fazer querer e não foi reproduzida a tradição espanhola porque a mesma não faz parte da cultura de Benavente. Temos uma festa muito digna há muitos anos e assim vai continuar a ser. As pessoas que são contra a tauromaquia criaram um facto nas redes sociais mas isso não irá colocar que a festa fique em causa”, defende.
Apesar de ser aficionado confessa que vai mais vezes ao estádio de Alvalade ver o seu Sporting do que a praças de touros ver touradas mas não é pelo facto de os bilhetes serem caros. “Os preços para ver a tourada parece-me justo. Quando vou ao futebol também raramente pago menos de 20 euros”, explica.
Joaquim Cabeça gosta sobretudo de ver os forcados e confessa que não gostaria de ver os toiros de morte reintroduzidos em Portugal. “Não me revejo nessa prática”, afirma.

Diamantino Diogo, 75 anos, gestor aposentado, Coruche

“Corridas mistas com toureio a pé e a cavalo podem ser o futuro”

A realização de mais corridas mistas com a consequente introdução de mais toureio a pé pode ser a solução para aumentar o número de espectadores nas corridas de toiros e ao mesmo tempo assegurar o futuro da tauromaquia. A ideia é defendida por Diamantino Diogo. “Gosto muito do toureio a pé e, tal como eu, muita gente lamenta que se esteja a perder essa tradição em Portugal. Tem que se encontrar um ponto de equilíbrio com as corridas mistas. Isso iria atrair mais público e baixar o preço dos bilhetes”.
Para o gestor de Coruche ver as praças de toiros da região fechadas é o que mais lhe custa. “Acho que se está a perder um pouco o entusiasmo e lamento que isso aconteça. Está na nossa raiz de ribatejanos sermos aficionados e se perdemos as nossas tradições perdemos a nossa identidade. Qualquer dia também querem que deixemos de comer carne”.
Sobre a recente polémica em torno dos toiros de fogo de Benavente, Diamantino Diogo diz que é “um erro” importar tradições espanholas. “É como os toiros de morte, por exemplo. Aceito que existam em Espanha, aqui na região não porque nunca houve. Devemos manter os nossos valores e as nossas tradições e vamos lutar para que se mantenham”, refere.

Fátima Galhardo, vice-presidente da Câmara de Coruche

“O que mais me fascina é a arte do cavaleiro ao desafiar o animal”

Fátima Galhardo, vice-presidente da Câmara Municipal de Coruche, começou a ir a corridas de toiros acompanhada do pai e desde essa altura a arte da tauromaquia tornou-se para ela uma lição de vida.
“O desafio de lidar com o animal e de o fazer corresponder àquilo que o cavaleiro pretende foi uma lição muito grande que aprendi, até porque nem sempre o cavaleiro consegue atingir o seu objectivo. Também nós temos que trabalhar para ter sucesso e temos que aprender a lidar com ele da mesma maneira que temos que aprender a lidar com os fracassos. Fátima Galhardo foi à corrida de O MIRANTE acompanhada da família e defende com emoção que deseja que a festa brava continue. “É algo português, ribatejano e cada vez mais faz sentido nós puxarmos por aquilo que traduz a nossa tradição, a nossa cultura e as nossas gentes”.
Defende que as autarquias deviam trabalhar melhor na defesa da tradição tauromáquica, o que nem sempre aconteceu. “As empresas que estão a explorar as praças também devem olhar para a juventude de outra forma. Formá-la e mostrar-lhe que a tauromaquia não é um atentado ao animal nem ao seu bem-estar, é um acto de beleza e de respeito pelo mesmo”.
Não concorda com os toiros de fogo nem com os toiros de morte em Portugal porque não fazem parte das tradições portuguesas. Defende que os preços dos bilhetes deviam baixar para que mais pessoas tivessem acesso ao espectáculo porque muitas vezes quem tem uma palavra a dizer nas decisões que são tomadas não chega a conseguir ver as touradas.

António José Inácio, presidente da Escola de Toureio José Falcão

“O grande êxito em Portugal seriam as corridas mistas”

António José Inácio, presidente da Escola de Toureio José Falcão em Vila Franca de Xira, vai a todas as corridas de toiros que pode e acredita que a festa dos toiros está para durar por muito tempo.
Embora reconheça uma diminuição da afluência às praças de touros diz que isso acontece devido aos preços dos bilhetes. “Os organizadores dos espectáculos têm que conseguir cativar empresas para apoiar para que os bilhetes para os jovens e reformados possam ser mais baratos”, diz.
Faz também um apelo para que as câmaras municipais e juntas de freguesia tenham em conta que a tauromaquia é uma tradição portuguesa e que é preciso dar-lhe continuidade não a pondo à margem das restantes tradições.
Quanto a influências estrangeiras como os toiros de fogo diz que tem que haver cuidado. “Devemos respeitar sempre o que é genuinamente nosso”. É defensor da reintrodução dos toiros de morte. “A morte do animal na praça evita-lhe o sofrimento entre o fim da lide e a chegada ao matadouro. A excepção dada a Barrancos em matéria de toiros de morte devia ser alargada a outros concelhos”.
Das várias memórias que guarda da paixão pela tauromaquia, elege as dos últimos dois matadores de toiros que saíram da sua escola: Tójó, professor do Campo Pequeno, participou numa corrida no sul de França da qual António José Inácio saiu tranquilo por ver a continuidade dos grandes toureiros em Portugal e Manuel Dias Gomes, “com um estilo diferente mas que também me marcou bastante”. Espera ainda que a corrida desta edição do Colete Encarnado, a grande festa de Vila Franca de Xira, “venha a marcar esta temporada a nível nacional”.

Vasco Cunha, vereador da Câmara Municipal do Cartaxo

“Devemos manter a tradição da verdadeira tourada à portuguesa”

Vasco Cunha acredita que as tradições tauromáquicas têm condições “para se renovarem e se manterem” no futuro. Do universo tauromáquico, são os forcados os seus preferidos: “Não só pelas cumplicidades, pelas amizades, mas sobretudo pela solidariedade que têm uns com os outros quando vêm para dentro da praça. Para além disso, são um grupo de amigos quando fora das arenas”.
É também dessas amizades, e das que tem com vários forcados, que lhe chegam algumas das histórias mais curiosas que já ouviu e que guarda consigo: “Algumas sobre forcados da minha idade, outros mais novos, alguns mais velhos, de sustos… Desde perderem-se no caminho, de jantares que nunca mais tinham fim mas todas histórias incríveis”.
O vereador defende ainda a manutenção das práticas da herança tauromáquica portuguesa sem alterações: “A tradição portuguesa é que é nossa, é típica, por isso estar a ajustar ou a colher outro tipo de tradições não faz sentido nenhum. Devemos manter a tradição da verdadeira tourada à portuguesa”. É por isto que não gosta dos toiros de morte e também é contra os toiros de fogo.
Defende ainda que o preço dos bilhetes actuais para touradas “estão francamente caros” para aquilo que é o nível médio do rendimento dos portugueses, embora reconheça que é um espectáculo caro.

Mário Nuno Duarte, Promotor Externo do Banco Santander Totta

“Com as praças cheias estamos a criar mais gerações que vão gostar da tauromaquia”

Mário Nuno Duarte é aficionado e defende que a tauromaquia em Portugal “apesar de tudo, está de boa saúde”. Embora saiba que a crise fez diminuir o número de espectadores, o ex-assessor da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pensa que “não é uma diminuição muito drástica e o importante é que têm aumentado o número de espectáculos, tanto em praça como nos festejos populares”.
Não gosta de toiros de fogo nem de práticas que não fazem parte da tradição portuguesa, mas defende os toiros de morte por assim se reduzir o sofrimento do animal: “O toiro é o principal elemento da festa e tem de ser respeitado. E respeitar o animal é respeitar que tudo na vida tem um princípio, um meio e um fim. Os toiros de lide acabam por sofrer muito menos se a finalidade for a morte em praça do que se não for”.
Mário Nuno não é capaz de eleger uma parcela da arte de que goste mais: “Esta região da Lezíria e Médio Tejo tem as três componentes na perfeição: a criação dos toiros, os forcados que sem qualquer medo os enfrentam e abraçam na arena, característica bem ribatejana, e ainda o cavalo lusitano. Estamos numa região privilegiadíssima para a lide a cavalo, a lide apeada e a coragem de enfrentar o toiro sem mais nada pela frente”.
Defende que os preços dos bilhetes deviam baixar, “sem comprometer os organizadores e todos os que economicamente dependem da festa”, porque se as praças estiverem cheias “estamos a criar mais gerações que se vão interessar e gostar da tauromaquia, e isso sim é o garante económico de que a festa vai continuar”.

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