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24/07/2017
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debate. Da esquerda para a direita: Pedro Maria Gomes, José Maria Bettencourt, Paulo Pereira e Carlos Empis
Os forcados de hoje são verdadeiros atletas
Colóquio juntou forcados de ontem e de hoje antes da Corrida de O MIRANTE no Campo Pequeno
Edição de 12.07.2017 | Cultura e Lazer

Conseguir com sucesso pegar um toiro nos dias de hoje é mais fácil do que antigamente; dantes os forcados tinham que improvisar mais; agora é mais fácil adivinhar o que o toiro vai fazer em praça. A ideia foi defendida num colóquio realizado na tarde de quinta-feira, 29 de Junho, antes da corrida de O MIRANTE
no Campo Pequeno, uma corrida onde a média do peso dos toiros andou nos 600 quilos.
No colóquio, moderado por Paulo Pereira, participaram Carlos Empis, ex-cabo dos Amadores de Santarém, Pedro Maria Gomes, cabo dos Forcados de Lisboa, e José Maria Bettencourt, cabo do Aposento da Moita.
“As pegas evoluíram muitíssimo tecnicamente. Os forcados actualmente são atletas, gente que vai ao ginásio; no meu tempo não havia esse estilo de vida. Em contrapartida, na relação com os toiros, havia mais conhecimentos do campo, de lidar com os animais e aprendermos com eles. Os forcados realizavam pegas mais extraordinárias que muitas vezes eram fruto de uma certa improvisação já que não havia tanta técnica. Actualmente não há muita margem para testar novas formas de pegar, caíram algumas sortes como a pega só com rabejador; e a pega de cernelha está a perder espaço e tradição”, frisou Carlos Empis.
Pedro Maria Gomes confirma: “Os toiros hoje têm mais nobreza mas também uma outra forma de investir”, alertou. E Pedro conhece bem os perigos de calcular mal uma pega. “Já tive um acidente grave em que não me pude fardar durante quatro anos”, recordou. Antigamente, defendeu, os toiros eram “mais brutos” mas menos pesados, o que não dificultava tanto a pega.
“As condições da investida e o peso do toiro mudaram. Uma pancada de um toiro de 600 quilos não tem nada a ver com um toiro de 400 quilos. O tamanho leva-nos a ter medo e a pensar duas vezes”, notou Carlos Empis perante cerca de três dezenas de convidados.
Uma certeza é que a forcadagem permite incutir valores fortes no indivíduo. Não ter medo ou saber controlar o medo, ser prudente, aprender a levantar depois de cair independentemente da dor e do sacrifício, cultivar a modéstia, a descrição e a firmeza são alguns deles.
“Quando se é escolhido para ser o forcado da cara é uma honra e um sinal extraordinário. Há muita responsabilidade mas é uma boa responsabilidade. A camaradagem é um sentimento incrível e inexplicável”, frisou José Maria Bettencourt.
Pedro Maria Gomes traduziu numa frase a emoção de saltar para a praça para pegar um toiro; “É um sentimento inexplicável mas pelo qual damos a vida para o tentarmos explicar”.
Paulo Pereira, um dos administradores do Campo Pequeno, deu a conhecer uma nota curiosa sobre a actuação dos forcados nas corridas. “Há 125 anos, na inauguração do Campo Pequeno, os forcados pegaram os toiros que foram lidados pelos toureiros a pé; E o grupo não foi anunciado nos cartazes do espectáculo. Só é possível saber que actuaram pelas notícias da imprensa”, referiu.
“Quando reabrimos a Praça do Campo Pequeno fomos descobrir nas gavetas umas fardas muito antigas que nos deixaram intrigados. Ficamos a saber que nos anos trinta o Campo Pequeno teve um grupo de forcados de que não havia registo”, contou ainda enquanto ia moderando o colóquio onde também anunciou para 30 de Setembro a “Festa do Forcado”.

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