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24/07/2017
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Maria Madalena Miranda Tavares
“Gostava de internacionalizar a Escola para termos estágios formativos no estrangeiro”
Maria Madalena Miranda Tavares, Diretora do Agrupamento de Escolas de Azambuja
Edição de 12.07.2017 | Entrevista

Nasceu e cresceu na aldeia de Vale do Paraíso, no concelho de Azambuja. Diz que tem orgulho em ser “ribatejana do distrito de Lisboa” e considera-se uma defensora acérrima das tradições, usos e costumes locais. Directora do Agrupamento de Escolas há dois anos é exigente consigo e com os outros e tem objectivos ambiciosos para atingir. A cada novo avanço comenta que ainda há muito caminho a fazer.

Como analisa o actual envolvimento dos pais na comunidade escolar? Sinto que há uma preocupação crescente da parte de muitos pais da nossa comunidade escolar. Mas, à medida que as crianças crescem, muitos pais vão-se afastando; recorrem à escola única e exclusivamente se houver problemas com a criança ou o jovem – ou caso tenhamos de lhes retirar o telemóvel… A verdade é que nós, escolas, temos também de conseguir cativar as famílias, acolhê-las. Não é à toa que o lema do Agrupamento é “De todos, com todos, para todos”. Tendencialmente, chamamos os pais e/ou Encarregados de Educação quando há avaliações que nos preocupam, quando o aluno falta, quando ele teve comportamentos incorrectos, agressivos ou displicentes. Chamamos menos vezes para lhes darmos conta de como o aluno evoluiu, de como participa mais e melhor, de como conseguiu superar algumas das dificuldades que lhe tinham sido diagnosticadas.

E qual é normalmente a reacção? Lembro-me de, há uns anos, ter pedido a um dos meus alunos, na segunda ou terceira semana de aulas do 8.º ano, que me desse a caderneta. E ele, em pânico, não queria, argumentava que não tinha feito nada de mal. E, de facto, não tinha: a mudança de comportamento e atitude dele em sala de aula tinha melhorado tanto, do 7.º ano para o 8.º ano, que quis escrever isso mesmo na caderneta, para os pais saberem. Tenho a dizer-lhe que foi um excelente aluno, ao longo do resto do 8.º e no 9.º ano. Mas repare como eu própria assinalo como excecção uma atitude que deveria ser regular em cada professor…

É uma pessoa exigente. Acredito que há um longo caminho que temos de percorrer juntos, famílias e escolas, e estamos a dar os primeiros passos. Há actividades comuns ao Agrupamento em que contamos com a parceria dos pais e, em particular, da Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Azambuja. Há várias iniciativas em que, cada vez mais, a voz dos pais é valorizada – além de todos os Agrupamentos contarem com uma representação dos Pais e Encarregados de Educação no Conselho Geral.

Os pais que participam nas iniciativas organizadas pela escola avaliam-nas? No primeiro Dia do Agrupamento que a nossa equipa organizou, por exemplo, no ano passado, contámos com a vinda do Psicólogo José Miguel Oliveira que apresentou o seu livro. “Nem bonsai nem trepadeira” a uma plateia de pais atentos. Um desses pais reflectiu, no final, a relevância daquela sessão de trabalho com e para os pais, e exprimiu o que nos ia na alma quando propusemos a actividade: estávamos, verdadeiramente, a construir uma “Escola de Pais” – um projecto que sei que também era caro ao meu antecessor neste cargo.

Como gere o seu tempo tendo em conta que ser diretora de agrupamento ocupa 24h por dia? Com a consciência de que 24 horas, neste cargo, não se trata de um eufemismo… Grande é a seara, e pouco o tempo para a cultivar… Há uma fase rebelde em mim que gostaria muito de não ter tantas responsabilidades administrativas. Do que eu não abdico mesmo é da parte pedagógica, do contacto com os alunos, com os professores, com os funcionários do Agrupamento. Contudo, dedico-lhes menos tempo do que gostaria. Este ano fui poucas vezes às escolinhas mais pequenas do Agrupamento. Praticamente limitei-me aos momentos de festa, de final de período, de final de ano… Estive muito centrada na Escola sede – não porque a Escola Secundária seja a que nos inspira mais cuidados, mas porque o trabalho inerente à função prende-nos, de facto, à cadeira… E quem não quer cair desamparado tem de se preparar muito bem! Acabei por reservar uma tarde para receber os pais que gostariam de falar comigo. E não abdiquei, apesar do esforço que isso acarretou na gestão do trabalho quotidiano, de fazer formação, de participar em reuniões onde a educação foi o tema central.

Como é um dia normal de trabalho? Normalmente os meus dias começam muito cedo e terminam bem depois da hora oficial. Felizmente (e a expressão, no caso presente, pode ser duvidosa), a escola secundária encerra, normalmente, pela meia-noite. Isso permite-me, quando a maioria dos alunos e professores já saiu, continuar a trabalhar e a dar resposta às múltiplas solicitações que cabem à função de Director. Para ter uma pequena ideia, só em e-mails, recebo frequentemente mais de uma centena por dia… E, apesar da triagem, há muito que fazer. Conto com uma equipa muito empenhada, uma verdadeira equipa, que trabalha em prol de objectivos comuns, que muito me ajuda, e não apenas na tomada de decisões. Porque havia muito que fazer, e ainda estamos longe de um nível ótimo. Trabalho todos os dias para conseguir que todos os nossos alunos atinjam o nível ótimo. Acredito no sucesso pleno. E, como costumo dizer, só no dicionário o “sucesso” vem antes do “trabalho”!

Quais são as principais dificuldades do desempenho do seu cargo? As maiores dificuldades vêm da sistemática acumulação de solicitações de todos os sectores, praticamente em simultâneo. Para mais, há dois anos, quando assumi o cargo, não tinha qualquer experiência efectiva de executivo do Agrupamento. E o nosso Curso de Especialização é muito teórico… Tive de aprender tudo, desde as (inúmeras) plataformas à consulta sistemática da legislação, dos processos de alunos e de docentes, aos procedimentos administrativos… Tive o apoio de uma boa equipa – na Direcção e nos Serviços Administrativos. E o apoio de uma formação extraordinária que resulta da parceria entre o Ministério da Educação e a Microsoft, o “Programa de Formação Líderes Inovadores”. Foi (mais) uma escola. E tenho, sempre, de agradecer o apoio e a disponibilidade da minha congénere, prima e amiga, a diretora do Agrupamento de Escolas de Vale Aveiras, Teresa Valente, que está agora a cessar mandato e deixa saudades.

Uma directora pode mandar recados para o ministro da educação? Se pode, que recado gostava de mandar? Não sei se o ministro Tiago Brandão Rodrigues precisa de receber recados. E quem sou eu para lhos enviar? Mas gostaria, ainda assim, de dizer-lhe que acredito neste Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, e que desejo que ele não recue e nos faculte os apoios necessários, nomeadamente ao nível dos recursos humanos e da melhoria das condições de aprendizagem dos alunos, que também passam pelas instalações escolares.

Qual a situação das instalações do seu Agrupamento? O Agrupamento de Escolas de Azambuja precisa, urgentemente, de intervenções no seu parque educativo, pois todos os alunos merecem ter aulas e actividades em espaços condignos. E nós somos duplamente fustigados pelo facto de termos escolas já muito antigas, nomeadamente a Escola Secundária de Azambuja, e não termos condições para a prática de Educação Física nas nossas escolas, excepção feita ao Centro Escolar. Isso afecta milhares de alunos. E vale a pena lutarmos para que todos tenham acesso às melhores condições de aprendizagem.

Está satisfeita com o atual estado da educação no seu concelho? Não estou. Enquanto não houver uma política educativa concelhia que concentre na Escola Secundária de Azambuja os alunos dos três Agrupamentos de Escolas, nomeadamente os de Azambuja, Vale Aveiras e Alto da Azambuja, pertencendo às freguesias de Aveiras de Cima, Vale do Paraíso e, de forma muito evidente, Alcoentre e União de Freguesias de Manique, Vila Nova de São Pedro e Maçussa, que continuam a procurar a oferta educativa fora do concelho, no Cartaxo, Rio Maior ou mesmo Santarém, não há uma verdadeira união pela melhoria da educação. Só no Secundário, Científico-Humanístico ou Profissional, poderemos ter apostas comuns aos alunos de Azambuja. E nós, Agrupamento de Escolas de Azambuja, queremos ser a escola de todos, com todos e para todos.

Qual o projecto que gostava de realizar na sua escola ainda como directora? Ah! Tenho tantos! Tantos! E alguns estão já tão bonitos, a dar os seus frutos… Com a nossa dimensão, temos tido prémios nacionais de ciência, estamos a começar a marcar a nossa presença nas artes, nomeadamente no teatro… E estamos a lutar para abrir as Artes Visuais no 10.º ano… Temos um conjunto vasto de projectos ligados às línguas, à prática desportiva, às artes, às ciências. Acredito que temos de ter verdadeiras alternativas que apelem a todas as valências das nossas crianças e jovens. Sonho com uma escola onde as línguas, as artes e as ciências sejam a tríade da formação integral de cada criança e de cada jovem. Um mundo em que uma biblioteca seja o melhor espaço do mundo para todas as crianças, onde um livro (pode ser em vertente tablet, vale tudo!) seja o companheiro de fuga preferido, onde a música soe constantemente nos ouvidos e no coração de cada um! E gostaria de internacionalizar a escola. Estamos a tentar obter estágios formativos no estrangeiro para os Cursos Profissionais – não é nada fácil. E voltar às mobilidades para o estrangeiro com o programa Erasmus +.

* Entrevista feita por e-mail

“Nasci e fui criada na aldeia de Vale do Paraíso e sou defensora das tradições locais”

É ribatejana e sente-se ribatejana? Sou ribatejana com muito orgulho. Nasci e fui criada na minha pequena aldeia, Vale do Paraíso, que defendo de forma bairrista e acérrima. Acredito na cultura local, sou defensora das nossas tradições (gastronómicas e não só), dos nossos usos e costumes. Gosto de ser ribatejana do distrito de Lisboa! Isso dá-nos uma dimensão múltipla – e, provavelmente, maior responsabilidade. Na minha terra, pertenci à Banda da Escola de Música, apresentei durante anos o Festival de Ranchos, pertenço ao Coro – e olhe que a nossa Confraria (de Nossa Senhora do Paraíso) é um dos poucos exemplos do país. Se perguntar a qualquer pessoa do meu percurso pessoal e profissional – desde a Escola Secundária, enquanto aluna, à faculdade, aos meus próprios alunos – todos lhe poderão dizer de onde sou!

Há quantos anos é professora e porque escolheu esta profissão? Sou professora desde 1991 – a minha primeira aula foi no dia do meu aniversário; duplamente marcante, portanto. Escolhi esta profissão porque, no 11.º ano, tive dois professores que me marcaram extraordinariamente pela positiva, nomeadamente o Professor Joaquim da Silva Lopes, de Português, e a minha professora de Francês, Ana Teresa, e eu desejei poder, um dia, ser um veículo de transmissão de gosto, saber e paixão pela aprendizagem, tal como o modelo que tinha à minha frente. Foram uma inspiração para a menina rebelde (mas boa aluna) que eu era e que dizia: “Professora? Nunca! Sei muito bem o que fui!” Hoje, continuo encantada com a minha escolha e com a minha profissão.

Qual a diferença entre ser professor hoje ou há 20 anos? O contexto. A própria sociedade é diferente. Daí que a escola e os professores também estejam diferentes. Nalguns casos, diria que para melhor: a escola até ao 12.º ano é uma realidade que já faltava ao nosso país, que nos deixava “na cauda” dos países desenvolvidos, mas houve muitas diferenças que não tiveram um saldo positivo. O acréscimo de anos para atingir a idade de reforma, as sucessivas alterações ao estatuto e à carreira, o “congelamento” que já leva anos, os modelos de avaliação docente foram desgastando muitos dos docentes que, simultaneamente, tiveram de levar para dentro das suas salas de aulas muitas das dificuldades que as famílias e as restantes instituições sociais não conseguiram resolver – e isso pesou, e pesa muito no trabalho do professor. De resto, é o mesmo: a cada dia, a cada novo ano lectivo, um novo conjunto de rostos, histórias de vida, desafios – e temos de estar à altura, porque os alunos de hoje precisam ainda mais de nós do que os de há 20 anos.

A escola adaptou-se aos novos tempos e desafios? Sim. A escola nunca virou as costas quando foi instada. Como podia? As crianças e os jovens estão connosco diariamente. Não podemos pôr um papelinho na porta a dizer “Volto já”. Actualizou-se, melhorou instalações (nalguns casos; no Agrupamento de Escolas de Azambuja, há muitas obras que estão em falta e que afectam as nossas práticas lectivas), entrou em diálogo com as novas tecnologias, aumentou o tempo de resposta aos alunos e às famílias, sagrou-se como defensora da inclusão (tem de o fazer, apesar de tudo), da socialização, da harmonização entre as crianças mais desfavorecidas e as que cresceram em ambientes socialmente mais favoráveis. A escola pública não faz selecção de públicos; trabalha com o seu público, com todos os seus alunos e isso constitui um desafio com 1800 entradas, ou 1800 desafios, que é o total de alunos e formandos do nosso Agrupamento.

Fale-me dos alunos do seu início de carreira e dos de hoje. Sou suspeita. Continuo a achar que o ensino e a escola só valem a pena porque os miúdos valem a pena. Continuo a encantar-me com os meus “meninos” que hoje são pais, são profissionais, trazem os seus filhos para o Agrupamento. (“Mas já?!” – interrogo-me continuadamente.) Os meus alunos eram meninos simples, uns com uma vida financeiramente mais desafogada; outros, não. Que tinham famílias que os amavam; ou que viviam em contextos familiares desafiadores, de violência, de algum desprezo pela vida e pelo futuro da criança. Como vê, realidades que existiam em 1991 e continuam a existir em 2017.

Não gostou de dar aulas em Lisboa? Detestei dar aulas em Lisboa. Corria 1992, tinha alunos das Olaias, Chelas e Picheleira. E doía-me mais a ausência de afectos dos que tinham tudo o que o dinheiro podia comprar, mas estavam sozinhos na rua até às 18 horas, quando os pais chegavam, porque não lhes era confiada a chave de casa, ou metiam lá em casa, desde os 11 anos, todos os “bad boys” do bairro. Pelo menos, cá em Azambuja havia sempre as avós, uns primos, umas voltas de bicicleta para dar… 25 anos depois, já não conseguimos assegurar esse apoio familiar na nossa zona, nas nossas terras. É algo importante, que se tem vindo a perder. Por mais diversificadas que sejam as actividades numa escola, não podem substituir o tempo, o carinho e a atenção de uma família. Antes, e ainda mais nos nossos dias, os alunos, isto é, as crianças e os jovens, precisam de saber que são amados e que, porque os amamos, lhes impomos regras e esperamos deles que as cumpram!

Tem tempo para ir ao cinema e ler livros? Tempo, tempo, na verdade, tenho de o construir… Roubá-lo, se preferir… Mas sem livros, a vida – melhor, a minha vida – não faz sentido. É verdade que leio muito menos por prazer, mas não abdico dele, dos meus autores favoritos, das novidades que vão saindo… Tenho a enorme vantagem de ler muito depressa. Mas isso, por vezes, deixa-me ainda com aquele gosto a pouco… Se eu pudesse, lia um livro por dia! Agora, ando duas, às vezes três semanas para concluir um deles… Agarro-me às fímbrias do tempo. Às vezes (são poucas) em que ando de comboio. À espera de uma reunião… A leitura é o meu canto de sonho.

Vai ao cinema? O cinema anda mais em atraso. Quando quero ir com os meus filhos já eles viram o que está em cartaz. Tenho-me refugiado em DVD e na tv por cabo, que passa grandes obras. Estão mais datadas, já têm, por vezes, os cantos amarelecidos, mas cinema vale sempre a pena! Conheço menos o trabalho dos realizadores portugueses. O último filme português que vi foi o Zeus, com o Sinde Filipe no papel do Presidente da República Manuel Teixeira Gomes. Gostei muito. Com os belos cenários da Argélia, esse país onde o idioma é o Francês, de que tanto gosto.

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