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Despovoamento do campo

Estamos a assistir à sexta grande extinção no planeta Terra e a perda de muitos ecossistemas – e dos serviços ambientais prestados por estes – põe em causa a nossa sobrevivência.

Edição de 03.08.2017 | Opinião

O conhecido jornalista José Gomes Ferreira diz em O MIRANTE que “a desertificação do mundo rural é uma tendência irreversível”. Refere-se ao despovoamento, claro, mas felizmente está equivocado. Na verdade, como bem diz, o abandono do campo não é um fenómeno português mas global. Diz-se que cerca de 80 por cento dos europeus vivem em cidades mas suponho que não são cidades como Santarém e Abrantes; são das outras, grandes, onde há muito deixou de haver estações do ano. Só que esta verdade de hoje é meramente circunstancial e um dia destes, num repente, a coisa vai mudar. É inevitável que mude. Daqui a três décadas vamos ser dez mil milhões, não há vida possível na cidade para tanta gente. Mas o grave não é isto. O grande desafio é que também não há campo para todos. Já hoje, caro José Gomes Ferreira, o recurso vital e mais essencial à vida não são as bolsas das capitais económicas, nem tão pouco as big startups que fazem aplicações que não servem para nada que valha a pena, mas sim o território, isto é, solo e água. É disto que vivem as pessoas. Estes são os recursos mais valiosos e cada vez mais escassos do planeta Terra. E se hoje é assim, imagine-se daqui a uns anos, não muitos, quando nos aproximarmos do tal número. Na verdade, dê-se a volta que se queira, a ciência e tecnologia não têm solução para a falta de água e solo – na realidade, não há e não vai haver alimentos para todos. Ou será que acreditamos que são ilimitados os limões que nos chegam do Chile e compramos a 2€/kg? A coisa está muito bem explicada num pequeno e acessível livro, “Dez mil milhões”, do eminente cientista Stephen Emmott. Nada do que nele é dito são ideias de um conjunto de ecologistas que levantam algumas bandeiras à procura de ecrã. O caos insustentável em que vivemos conduz-nos a um conjunto de acontecimentos apocalípticos que são incontornáveis. Estamos a assistir à sexta grande extinção no planeta Terra e a perda de muitos ecossistemas – e dos serviços ambientais prestados por estes – põe em causa a nossa sobrevivência. É absurdo, mas existem atualmente cerca de 700 milhões de pessoas com fome e outras tantas sofrem de uma grave doença que se chama obesidade. As alterações climáticas em curso vão provocar a deslocação de três mil milhões de pessoas. Que mundo é este? Stephen Emmott, que pertence a uma classe de cientistas únicos na vanguarda da investigação, coordenando uma vasta equipa interdisciplinar, não hesita em anunciar “uma emergência planetária sem precedentes que nós próprios criámos”. Já agora, por razão óbvia, junte-se a este livro o “Cancioneiro da Sustentabilidade” e fique-se a saber que os “coitadinhos do interior” vão ser os últimos a rir, se alguém rir. Um hectare de terreno com um poço de água potável terá um valor incalculável. Não sabemos quanto mas será que o José Gomes Ferreira quer fazer as contas?
Carlos Cupeto – Universidade de Évora
P.S. – voltamos em Setembro.

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