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A difícil vida de Marieta que nunca teve uma profissão

A difícil vida de Marieta que nunca teve uma profissão

Aos 79 anos está a descobrir outra vida na Universidade Sénior de Benavente. Geriu a pensão da avó Miquelina, costurou as suas roupas e dos filhos, foi dona de casa e mãe e agora é pintora. Marieta Cardoso Alves fez muito mas ainda não acha que tenha sido suficiente.

Edição de 30.08.2017 | Sociedade

Nasceu na emblemática Rua do Grilo, em Samora Correia, a 5 de Outubro de 1937, como Mariete Cardoso Alves. Aos 21 anos, quando tirou o bilhete de identidade para poder casar, alteraram-lhe o nome para Marieta, com o qual já se acostumou.
“A primeira pensão e taberna dos meus avós não foi a da Rua do Grilo. Tiveram outra na rua que ia para o cemitério, uma coisinha pequena para a época, com a pensão numa metade e a taberna na outra. Nas traseiras viviam os meus avós, a minha mãe e a minha tia”. A mãe de Marieta, Margarida, casou muito nova e mudou-se para uma casa ao início da Rua do Grilo, onde viria a ter a filha. O negócio da pensão e taberna dos avós não se aguentou e tiveram de o fechar, o que coincidiu com a morte do pai de Marieta. “A nossa vida foi muito difícil. O meu pai morreu quando eu tinha quatro anos e a minha avó ficou a tomar conta de mim, do meu irmão, da minha mãe, da minha tia e do meu avô”.
Para sustentar a família, Miquelina levou-os consigo para Vila Franca de Xira, onde trabalhou noutra pensão. Estiveram lá apenas um ano, que Marieta recorda como um dos mais difíceis da sua vida. Depois regressaram a Samora. “Enquanto lá estivemos o meu avô teve um AVC e a saúde dele ficou ainda pior. Mas ele tinha uma casinha na Rua do Grilo, por isso voltámos para Samora. Fomos viver para lá e os meus avós abriram a pensão da Miquelina e a taberna do Narciso, que eram lado a lado, com uma porta interior a ligá-las”.
Era dos avós que Marieta era mais próxima e por quem foi mais acarinhada. Tinha uma relação difícil com a mãe, que sofria de esquizofrenia e que implicava com ela devido à doença. Já pelo sogro, Manuel Gaspar, tinha uma grande estima. “Ele tocava trompa na Banda mas teve piorreia e teve de tirar os dentes muito cedo. Como não queria deixar de tocar, porque era tão doido pela música e pela Banda, passou a tocar tambor! Depois pôs dentes novos e voltou à trompa”. A inteligência dele inspirava Marieta: “Ele escrevia muito bem. Quando morreu o professor João Pratas, que foi professor dele, escreveu-lhe um texto lindíssimo”.

João Pratas foi “a pessoa mais excepcional que conheci em Samora”
Além do marido, também o irmão de Marieta, Carlos Manuel, foi aluno de João Pratas. Ela gostaria de ter sido também sua aluna mas ele só dava aulas a rapazes. Para compensar, passou inúmeras noites nos serões que ele organizava em sua casa com alunos e admiradores. “Era ele que tinha telefonia cá em Samora por isso juntava-se muita gente em casa dele para ouvir e conversar. Ele morava perto de onde é agora a Cáritas. Foi a pessoa mais democrática que eu e o meu marido conhecemos. Ele era ateu e republicano mas respeitava todos, fosse quem fosse, e aos alunos ensinava sempre que tinham de respeitar toda a gente de igual forma. Foi verdadeiramente excepcional”.

Crescer na rua mais badalada de Samora Correia
“Lembro-me muito bem das fogueiras que se faziam nos Santos Populares. Um ano a roda foi tão grande, juntou-se tanta gente de outras ruas, que ia de uma ponta da rua ao Largo da Igreja. Já era uma roda oval!”. Marieta juntou-se à roda nesse ano, como em tantos outros, de mão dada com vizinhos, amigos e conhecidos a cantar “A Triste Viuvinha” e outras músicas da época. “Eu era um bocadinho mais nova que os grupos que organizavam as festas mas juntava-me a eles para trabalhar porque não era muito de dançar. Lembro-me que o senhor José da Esquina nos punha a trabalhar em grande! Tinha de se arranjar dinheiro para organizar as festas”.
Era fora de casa, onde era constantemente criticada pela mãe, que Marieta se sentia útil e completa. “A minha mãe morreu aos 82 anos, em minha casa, e toda a vida foi protegida pelas outras pessoas daquilo que me fazia. Ela chegou a andar em tratamento no Hospital Júlio de Matos, mas para a maioria das pessoas que a conheciam, parecia normal, então culpavam a minha avó pela forma como ela era”.
Marieta teve várias funções ao longo da vida e ainda acha que não fez o suficiente: geriu a pensão da avó a partir dos 17 anos. Aprendeu costura com a Dª. Arminda, que morava na casa em frente à sua e aos 13 anos já costurava os seus próprios vestidos. “Depois costurava os dos meus filhos e os de outras pessoas que me pediam mas nunca tive uma loja mesmo minha”. Foi mãe e dona de casa na ausência do marido, que trabalhava quase sempre longe. “No fundo, nunca tive consciência das minhas capacidades e nunca ninguém me deu a mão e me mostrou o que podia ter sido. Nunca me disseram “tens jeito para isto, vai em frente”, por isso nunca fui”.

A pena de o marido não ter assistido ao parto dos filhos
Marieta e Valentim, que era topógrafo, chegaram a viver na Bemposta, em Trás-os-Montes, durante dois anos. Marieta regressou a Samora Correia antes do marido e foi viver para a casa dos sogros, perto do Largo do Calvário. Passou para uma casa no bairro do Padre Tobias, onde viria a nascer o segundo filho do casal, uma menina. O primeiro, João Carlos, nasceu numa clínica médica, à qual Marieta foi recomendada pelo doutor Tibério Antunes, que a acompanhou durante a gravidez, mas que na hora do parto não pôde estar presente.
Com a filha, Isabel Alexandra, foi diferente: teve-a em casa, no bairro do Padre Tobias, e foi assistida por uma parteira. “A minha filha nasceu com mais de quatro quilos. Foi um parto difícil, mas pelo menos já tinha a minha família comigo.

Gostava de ter tido uma profissão
Marieta olha para trás e gostava de ter tido um emprego. “Faz falta. Não digo que as mulheres devam largar a família para se dedicarem só ao trabalho mas ter uma certa independência é bom e eu gostava de ter tido”. Hoje estuda na Universidade Sénior de Benavente, onde já teve Inglês, Informática e Pintura, e esta última é a preferida. “Pinto tudo! Vou ao computador, vejo algumas fotografias do National Geographic de que gosto e depois pinto a acrílico”.
Marieta tem quatro netos, uma do filho mais velho, Raquel, que tem 21 anos e três da mais nova, Ricardo com 22 anos e Rita com 18 anos; o mais novo é o Rui, 15 anos. Todos enchem a avó de orgulho e são o retrato de uma vida preenchida.

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