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Há quem já não se sinta com forças para recuperar o que as chamas destruíram no Médio Tejo

Há quem já não se sinta com forças para recuperar o que as chamas destruíram no Médio Tejo

O MIRANTE foi falar com alguns habitantes dos concelhos de Abrantes, Tomar e Mação e são muitos os que já perderam a esperança.

Edição de 30.08.2017 | Sociedade

“As ribeiras estão todas limpas, menina, o fogo limpou tudo”. Foi assim que Manuel Geifão, de 85 anos, descreveu o que aconteceu em Chão de Codes, concelho de Mação, este mês de Agosto. Depois do inferno das chamas, as populações de Mação, Abrantes e Tomar tentam recomeçar as suas vidas e recuperar o que os incêndios destruíram. É o caso de João Lopes, de 79 anos, e Joaquim Caseiro, de 87, que criaram os filhos com os rendimentos dos pinhais, eucaliptais e pomares em Chão de Codes, que agora tentam recuperar depois da devastação.
Ermelinda Alves, com 89 anos cheios de energia, nascida em Chão de Lopes, freguesia de Amêndoa, ainda não conseguiu dominar a tristeza que sente. O fogo roubou-lhe a maior “courela” que tinha no lugar. Agora diz que já não se sente com vontade de recuperar o que sempre tratou com gosto. Conta que não vai voltar a plantar e já entregou as terras aos filhos. “Eles que façam o que quiserem”, acrescenta com desalento na voz.
João Lopes lembra o tempo em que a madeira e a resina asseguravam o sustento das famílias. Quando quase toda a população das freguesias se dedicava ao trabalho na terra, o fogo não acontecia e a vigilância apertada dos bens afastava o perigo dos incêndios. Ermelinda sublinha que, por este andar, daqui a alguns anos o concelho de Mação não tem quase ninguém. Este ano, diz, nasceram em Chão de Lopes duas crianças, num lugar com cerca de 100 habitantes, todos velhos. Há muitos emigrantes em França e outros que moram em Lisboa e voltam ao lugar nas férias, mas, Ermelinda acredita que com o tempo vão deixar de vir porque a paisagem não é convidativa.
Joaquim Caseiro e Manuel Gueifão dizem que se fossem mais novos já estariam a limpar os terrenos ardidos e voltariam a plantar, com a ajuda de quem soubesse, o que melhor se adequasse à região. Mas agora já se sentem desanimados, sem esperança, e dizem que o melhor é resignarem-se a viverem da parca reforma que recebem. Outros, mais novos, ainda sentem o apelo de refazerem a vida, como é o caso de Maria José Oliveira, com 60 anos. A habitante de Rio de Moinhos, concelho de Abrantes, recorda que rezou muito para que a sua casa fosse poupada pelas chamas. E foi. Agora, diz que sente uma esperança renovada para continuar a trabalhar e preservar os bens que um dia espera deixar aos filhos e netos.
Em Levegada, União de Freguesias de Serra e Junceira, concelho de Tomar, Maria da Luz, de 78 anos, o filho Francisco Francisco, de 55 anos, e a nora Anabela, preparavam-se para mais uma vindima quando o fogo lhes alterou os planos. Francisco e Anabela, funcionários públicos em Lisboa, costumam ir no Verão à terra ajudar nas vindimas que costumam dar uma colheita de seis toneladas. Os 10 mil metros de terreno cultivado, com árvores de frutos, e as cerca de três mil oliveiras, arderam como papel, recorda Francisco Francisco. O amor à terra onde nasceu e passou os melhores anos da sua vida era o motor que agarrava Francisco à terra. Agora que foi tudo consumido pelas chamas ainda não decidiu se volta a plantar ou se deixa os terrenos ao abandono.
Francisco Francisco recusou deixar a casa dos pais e defendeu os bens com os meios disponíveis, lembrando, com alguma mágoa, que os bombeiros só apareceram já depois de todas as culturas ardidas e nem chegaram a desenrolar as mangueiras. Defende que em cada freguesia devia haver pelo menos uma pessoa que tivesse conhecimento dos pontos de água e ficasse responsável por ajudar a encaminhar os bombeiros.
Em Levegada estão a fixar-se muitos estrangeiros, sobretudo belgas e franceses, o que para Francisco pode significar a esperança de voltar a ver a terra florescer e contrariar a desertificação a que o interior parece estar votado.

Há quem já não se sinta com forças para recuperar o que as chamas destruíram no Médio Tejo

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