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Espanhas

A terra em que vivemos molda-nos; “as decisões e os acontecimentos, os conflitos internacionais e a guerras civis apenas podem ser compreendidos tendo em conta as esperanças, os medos e os preconceitos”

Edição de 06.09.2017 | Opinião

A Espanha só serve para atravessar de noite, disse-me muitas vezes o Antunes, amigo de sempre. Bem verdade quando o objetivo é a Europa – e o que há para lá desta – em cima de uma mota. O espetacular mundo das motas tem destas coisas. O tema não é este mas conto-vos porque vale a pena. Anualmente cumpria-se a tradição: uma sexta-feira ao fim do dia, depois de uma semana de trabalho, “ala que se faz tarde”. No sábado janta-se em Paris, pois Espanha atravessa-se de noite. Passadas quatro semanas, no regresso, contavam-se mais de uma dezena de milhar de quilómetros e muitas histórias com saber. Antes de ir às Espanhas tenho que vos dizer que admiro estes países a que chamamos Espanha, muito lhes devo e tenho enormes e verdadeiros amigos por lá. Nas Astúrias, há trinta anos, aprendi o que é “turismo de natureza”. Que bom que seria se alguns dos que por aí decidem fossem até lá ver como se faz, é perto e o caminho é bom. Em Madrid vivi, na Politécnica e no Instituto Tecnológico aprendi as “minas, o ambiente e tudo à volta”. Em Vitória-Gasteiz vivi uma cidade verde, o que por aí vejo às vezes mete dó quando me lembro do “anillo verde”. Na Andaluzia vi e estudei riscos naturais, por cá ainda se confunde, mesmo na universidade, perigosidade com risco. Em Sória soube o que é a Agenda 21, verdadeiramente, muito diferente do que é por cá, o faz de conta habitual. Por toda a Espanha andei, andei, milhares de quilómetros – andar é a melhor forma de conhecer um país. Poupo-vos a mais. Em boa verdade vale a pena não atravessar Espanha de noite e até o Antunes sabe isso.
Em agosto visitei a minha família em Campo Maior. Passei por Badajoz e, porque precisava, fui ao combustível: gasóleo a 0,97 euros. Leram bem. E ainda tive que ouvir que aquele combustível tinha vindo de Sines. Como é possível? Como é possível as nossas empresas concorrerem com as congéneres do lado de lá? Como é possível termos um nível de vida como eles? Por estas e por outras iguais somos bem mais pobres. Por onde se esfuma o dinheiro dos nossos impostos?
Apenas me ocorreu uma consolação. Provavelmente tal benesse para espanhol advém do facto de serem espanhóis, uma espécie de compensação divina. Talvez até devesse o combustível ser de borla do lado de lá. E mais: felizmente que existe a Espanha, um autêntico tampão a outros males maiores, abençoados Pirenéus.
“Prisioneiros da Geografia”, de Tim Marshall, foi um dos excelentes livros que li nas férias e que clarifica muita coisa; ou pensam que os ribatejanos são diferentes dos alentejanos – aqui tão perto – por obra do acaso? A terra em que vivemos molda-nos; “as decisões e os acontecimentos, os conflitos internacionais e a guerras civis apenas podem ser compreendidos tendo em conta as esperanças, os medos e os preconceitos resultantes da História e como estes, por seu turno, são determinados pelo ambiente físico – a geografia – em que os indivíduos, as sociedades e os países se desenvolveram.”
Carlos A Cupeto – Universidade de Évora
P.S. – Ao reler este texto até parece que alguma vez acompanhei o Antunes, o Garcia e o Zurreta nestes passeios pela Europa e Ásia – “Moscovo é já ali” - , nunca tive esse privilégio.

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