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“José Falcão dizia que quando morresse gostava que fosse na arena, a tourear”

“José Falcão dizia que quando morresse gostava que fosse na arena, a tourear”

Edição de 06.09.2017 | Sociedade

José Falcão, matador de toiros falecido em 1974, era um homem humilde, bom no desenho, galã de Povos e ainda hoje adorado por todos os que com ele privaram. O irmão mais novo, Osvaldo, e a cunhada, Celestina, recordam-no como alguém a quem a fama não subiu à cabeça. Os 75 anos do nascimento do toureiro foram assinalados em Vila Franca de Xira com o descerramento de uma placa comemorativa.
A arte de tourear corria-lhe nas veias e dela nunca teve hipótese nem vontade de fugir. José Falcão cresceu no meio dos toiros, não descendesse ele dos grandes Falcões de Vila Franca de Xira. Nunca quis ser outra coisa que não toureiro e era só a isso que brincava na infância. “Tínhamos um cão em casa dos nossos pais, aqui em Povos, quando éramos pequenos. Chamava-se Czar, era de porte médio e fazia as vezes de toiro, corria muito depressa e o meu irmão toureava-o”, conta Osvaldo Falcão, 73 anos, único irmão de José e que o conheceu melhor que ninguém.
Osvaldo ainda hoje tem dificuldade em aceitar a morte do irmão: “Como ele andava sempre a tourear por fora, comecei a convencer-me de que ele não tinha morrido, de que andava era de um lado para o outro. É uma forma de lidar com a situação”. Defende que para se ser toureiro tem de se ser humilde e afirma, sorrindo junto à fotografia do irmão, que José sempre o foi. “E dizia que quando morresse gostava que fosse na arena, a tourear. E conseguiu”.
Apesar de ser apenas dois anos mais novo que ele, Osvaldo admirou o irmão a vida inteira pelas suas variadas facetas, que se começaram a manifestar desde criança. “Ele era excelente a todas as disciplinas, mas tinha muito jeito para desenhar. Desenhava umas coisas que deixavam a professora a perguntar-se onde as teria inventado. OVNIS e monstros que agora vemos nas bandas desenhadas e na televisão mas que na altura não havia em lado nenhum, só nos desenhos dele”, lembra Osvaldo.
Já Celestina, 72 anos, cunhada de José, lembra-se de como a professora o deixava encarregue de supervisionar a sala da turma de Celestina quando ela tinha de se ausentar por algum motivo. “Ele impunha respeito, toda a gente lhe obedecia. Era muito responsável, por isso a professora confiava nele”, conta, lembrando que foi ele que a ensinou e às colegas a andar de bicicleta, “porque sabia tratar muito bem as meninas, com muito respeito”.
E foi numa queda a andar de bicicleta que José, aos oito anos, partiu uma perna. Osvaldo lembra-se desse dia como se fosse hoje e da calma inabalável do irmão: “Ele era de nós todos o que estava menos aflito. A minha mãe estava muito preocupada mas ele nem sequer se queixou. E foi sempre assim o resto da vida, nunca se enervava com nada”. Osvaldo recorda como José podia ter o maior problema do mundo “e mesmo assim chegava à cama à noite e dormia, dizia que podia pensar no dia seguinte”.
O galã de Povos
A beleza de José fazia furor entre a população feminina. “Não havia nenhuma rapariga que não gostasse dele! Já não era só paixoneta, era adoração! E até as mães delas gostavam dele, confiavam muito nele porque era o nosso protector”, conta Celestina.
Osvaldo tem uma versão diferente: “As meninas queriam-no todas, mas ele não era de ter muitas namoradas. A primeira namorada que nos contou teve-a aos 15 anos, era colega de escola. Depois entrou no mundo dos toiros, foi tendo algumas aqui e ali. Algumas ligavam-nos lá para casa, na altura ainda tínhamos os telefones à antiga, e eu atendia e quando o José percebia que era alguma a perguntar por ele fazia-me sinal para dizer que não estava”.

O exemplo para os mais novos
José Palha, fundador do Colete Encarnado, deixava os dois jovens Falcões irem para a sua casa, na Quinta do Cabo, nas tardes quentes de Verão servirem-se do seu tanque de rega como piscina. Já nas brincadeiras com os outros rapazes, eram José e Osvaldo “os chefes das touradas”, porque não havia quem não os admirasse. Além dos intervalos da escola, os amigos acompanhavam-nos até casa e brincavam no quintal deles.
Além do toureio, José também gostava de desporto - “principalmente para se manter em forma, porque ele nunca podia deixar de estar elegante. Já alguma vez se viu um toureiro gordo?” comenta Osvaldo -, recordando que o irmão gostava de ténis de mesa e bilhar mas também, de forma mais informal, de matraquilhos e jogos de cartas, “e toda a gente queria jogar na equipa dele porque ele nunca discutia com ninguém”.
Osvaldo também gostava de ter sido toureiro, mas não aceitava bem as restrições alimentares, de horários de sono e de manutenção da forma física inerentes à actividade. “Tínhamos de nos deitar cedo, não podíamos sair à noite, não podíamos beber álcool, não podíamos comer qualquer coisa. O prato preferido do José era feijoada e ele só a podia comer às escondidas dos apoderados e dos bandarilheiros que o acompanhavam”.

As fotos da colhida mortal de José Falcão na Monumental de Barcelona a 11 de Agosto de 74

Só ao fim de dois anos pôde ser sepultado em Vila Franca de Xira

José morreu a 11 de Agosto de 1974. Osvaldo lembra-se que quando os aspirantes a toureiros que seguiam o irmão souberam da morte dele, foram ter com a cunhada e quiseram dar-lhe as coisas que José lhes tinha dado. “Quiseram ir dizer à minha cunhada que o José lhes tinha emprestado aquelas coisas mas que agora eram dela, não se importavam de as devolver. Ela deixou-os ficar com elas, o que os deixou muito emocionados, mas o gesto deles foi muito bonito”.
José foi primeiro sepultado no jazigo de família da mulher, em Barcelona. De seguida, e como a residência do casal era em Salamanca, a câmara local requisitou que fosse sepultado no cemitério da localidade, uma questão que demorou a ser resolvida. Só dois anos após morrer pôde José regressar à terra natal e jaz hoje no mausoléo do cemitério de Vila Franca de Xira.

“José Falcão dizia que quando morresse gostava que fosse na arena, a tourear”

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