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Porque anda a marchadora Inês Henriques com frutos secos na mala e tem dores nos braços?
Inês Henriques com a medalha que conquistou em Londres

Porque anda a marchadora Inês Henriques com frutos secos na mala e tem dores nos braços?

Inês Henriques marchou durante 50 quilómetros mas na ressaca foram os braços que ficaram doridos. A atleta falou com O MIRANTE e contou ainda como tem sido gerir o sucesso mediático depois da vitória em Londres. Uma conversa sempre pautada pela ideia de que o sonho comanda a vida e nada se consegue sem muito trabalho e dedicação. 21

Edição de 13.09.2017 | Desporto

Inês Henriques chega ao centro de estágios de Rio Maior com a mesma simplicidade que sempre teve e que não se alterou com a medalha de ouro que traz numa caixa dentro da mala e que, no final, iria agarrar para compor a fotografia. A vencedora dos 50 km Marcha na estreia da prova nos Mundiais de Atletismo, há um mês, a 13 de Agosto, em Londres, só leva a medalha na mala para situações em que vai ser fotografada mas há uma caixa muito especial, em plástico, que partilha diariamente o espaço da bolsa com outros objectos pessoais: é a caixa dos frutos secos.
A atleta do Clube de Natação de Rio Maior, que em Londres bateu o seu próprio recorde obtido no início do ano em Porto de Mós, não anda com frutos secos na mala por uma mania qualquer. O alimento é um dos melhores para a recuperação e fortalecimento dos músculos. Inês consome muitos frutos secos mesmo quando está de férias como era o caso quando falou com
O MIRANTE na passada semana.
Quando chegou à meta em Londres a marchadora tinha uma terrível dor de braços devido à acumulação de ácido lácteo. Uma coisa inimaginável para quem não pratica esta modalidade. Como é que uma atleta que faz 50 km a marchar tem mais dores nos braços do que nas pernas? Os movimentos dos membros superiores provocam um grande desgaste ao ponto de no final da prova “ter de pedir aos colegas para levarem os sacos porque não tinha força para os carregar”, conta a atleta que ainda está a digerir o feito que alcançou e, sobretudo, a exposição mediática e pública que passou a ter.
Inês Henriques, 37 anos, uma veterana que teima em inscrever-se em provas de 20 km como sénior, apesar de já não ter o ritmo “das miúdas mais novas”, desde que regressou do Mundial de Atletismo já foi visitada em casa para fazer dois controlos antidopagem. Inês tem de comunicar sempre por onde anda quando não está em casa ou a treinar. Coisa a que já está habituada ao contrário da guerra de audiências em que se viu envolvida. Logo após o feito as televisões brigaram para ter entrevistas da atleta e se ela ia a um programa de um canal os outros queriam-na nos seus programas similares. Mas Inês manteve-se fiel aos seus princípios. A todos explicou que não ia faltar à palavra e que ia dar as entrevistas pela ordem com que tinha sido convidada.

A dislexia e a dificuldade
em lidar com os insucessos
Para o que também não estava preparada era para a visibilidade que não teve ao longo da carreira. De verdade também não fazia grande questão de ter. “Não me dou muito a conhecer às pessoas fora do meu grupo de familiares e amigos”. Quando estudava, Inês tentava não se expor e arranjava estratégias para não ir ao quadro e ficar na frente da turma a falar. Era uma questão de feitio mas também porque a dislexia de que sofria era um incómodo. Agora até já é abordada quando anda às compras em Lisboa o que a deixa intimidada. Não pelo facto de as pessoas a reconhecerem mas porque não está habituada. “Não sinto que tenha feito algo de extraordinário. Apenas cumpri os meus objectivos”.
A atleta confessa que o clã Henriques continua a ser unido e humilde como sempre foi, sem manias das grandezas e das importâncias. Os pais de Inês sempre foram o seu porto de abrigo e era com eles que ficava quando as coisas corriam mal, só para estar, não era preciso conversar. Inês sempre teve dificuldade em lidar com a frustração. “Sempre fui exigente e quando não conseguia sentia-me envergonhada, fechava-me em casa”. Já chorou de revolta, de desânimo, já se sentiu no fundo com alguns insucessos. “Com o tempo aprende-se a cair e a levantar com classe”. Mas, mesmo assim, quando está em baixo, precisa de dois ou três dias para se refugiar do mundo e reflectir. Porquê? “Porque não tenho o hábito de culpar os outros”.
O êxito fá-la ter orgulho no percurso e sonhar com outros feitos, como bater o seu próprio recorde. De resto, Inês Henriques vai continuar a ser o que sempre foi. “Tenho sido boa atleta, boa cidadã, boa filha e boa irmã. E vou continuar a ser a trabalhadora que sempre fui”. Agora sente que tem “mais responsabilidades na imagem perante os portugueses”. Considera que Portugal tem coisas muito boas e que, por vezes, é preciso alguém destacar-se para relembrar que somos um país de boa gente. “Mostrei aos portugueses que é possível alcançar os sonhos”.

O desporto implica sofrimento mas dá prazer

“Os jovens não têm noção do que passamos. Hoje há a ideia de que tudo é fácil e por isso, por vezes, os jovens não valorizam tanto o esforço”, diz Inês Henriques, a marchadora campeã do mundo dos 50 km. Na primeira prova oficial dos 50 km marcha no Mundial de Atletismo, há um mês, “os últimos quatro quilómetros foram de sofrimento mas tive muito prazer ao longo dos outros 46 quilómetros”. A atleta que treina em Rio Maior, cidade que, realça, tem todas as condições para o desporto e para a recuperação depois dos treinos, no centro de estágios, o que lhe permite estar perto da família e amigos, não se coloca em bicos de pés e continua a fazer provas menos importantes acabando por incentivar a modalidade.
Inês Henriques continua a participar nos torneios de atletismo das freguesias em Rio Maior, que se realizam há 29 anos, e já marcou na agenda a participação na prova da sua freguesia, a de S. Sebastião. Aliás, foi aí que a atleta se estreou, numa altura em que as condições de treino eram quase nulas. “Treinávamos no campo de futebol de S. João da Ribeira ao mesmo tempo que os jogadores. De vez em quando levávamos umas boladas. A pista era de cinza. Depois de treinar tomávamos banho nuns balneários sem luz e para vermos alguma coisa era preciso ligar os faróis dos carros, apontados para as portas”.

Porque anda a marchadora Inês Henriques com frutos secos na mala e tem dores nos braços?

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