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Insurgente Serafim das Neves

Edição de 04.10.2017 | Emails do Outro Mundo

Venho solenemente declarar que no domingo cumpri o meu dever cívico a cem por cento. Fiz a barba e tomei banho, vesti uma camisa lavada, ignorei olimpicamente as eleições, reli uns parágrafos de um livro do Kundera e cumpri o direito cívico de comer uma bacalhauzada regada com um generoso tinto da Adega de Alcanhões. Ressonei uma retemperadora sesta e acordei por volta do jogo do Sporting com o Porto, como tinha planeado, escapando assim às conversetas histéricas das pitonisas nacionais sobre o fim do mundo em cuecas versão catalã ou sobre a hecatombe eleitoral e os seus efeitos no aparecimento da brotoeja aguda.
Ando a fazer uma dieta rigorosa de informação e sinto já os efeitos benéficos. Não me enervo como me enervava antes com idiotices que lia, via e ouvia. Durmo tranquilamente sem pesadelos nem de bombas atómicas nem de mega-fiscalizações da GNR e recomecei a ter sonhos cor de rosa.
Vistas bem as coisas para que me servia saber que um idoso de cinquenta e três anos entrou em contramão numa rotunda? Ou que um cidadão exemplar que era simpático com todos os vizinhos e até lhes ajudava a carregar os sacos dos super-mercados, matou a mulher e os filhos a tiros de caçadeira? E serei mais feliz e informado se vir um vídeo com um dos filhos do Cristiano Ronaldo a fazer uma careta daquelas que os recém-nascidos fazem?
Sei que ainda me faltam algumas etapas para chegar ao nível zen mas tenho a certeza que é só uma questão de tempo. Não estou em nenhuma rede social e esse é um saudável princípio. Descobri que não acontece nenhuma hecatombe quando calha esquecer-me do telemóvel em casa um dia inteiro e há séculos que deixei de atender números desconhecidos.
O facto de estar a ficar surdo também me tem livrado de certas pessoas que falam para mim como se eu fosse palhaço. E logo eu que nem fico com o nariz de vinho tinto por mais que beba. E como sei que os desconhecidos que me batem à porta só o fazem para me tentar cravar qualquer coisa, já só abro a porta a amigos e familiares seleccionados, que têm o bom gosto e a sensatez de anunciar antecipadamente a sua visita.
Não penses que estou a fundar um qualquer movimento a favor da paz de espírito. Há anos que conheço adultos inteligentes e sociavelmente selectivos que não praticam com excelentes resultados estas posturas que eu ando a adoptar e foi através do seu exemplo que o meu bestunto se iluminou.
Alguns não sabem, nem querem saber, quem é o presidente da junta de freguesia ou da câmara. Não conhecem o nome de um único deputado nem sabem qual o partido que governa ou o nome do primeiro-ministro ou do Presidente da República. Eu penso muito nisso quando declaro o IRS ou pago o IMI ou o IUC. Será que se eles soubesse o nome de quem os obriga a pagar impostos lhes dá descontos?
Quando andava a estudar sempre detestei trabalhos de grupo. Era eu a trabalhar que nem uma besta para as outras bestas terem boas notas pelo simples facto de assinarem o que tanto trabalho me tinha dado. Havia professores que até me baixavam a nota porque pensavam que o pendura era eu. Fiquei com alergia a colectivos, a colectividades e a carneiradas. Não vou a jantares de ex-alunos ou de ex-combatentes. Não vou a almoços de dadores de sangue nem de dadores de esperma. Também não alinho em bacanais e se me saísse o Euromilhões detestava ter que dividir a massa com outros apostadores. E por aqui me fico.

Saudações individualistas
Manuel Serra d’Aire

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