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Telhados de vidro

Para quem vive do seu trabalho, comprar uma moto, por muito grande que seja o sonho, dá trabalho. É preciso prescindir de alguma coisa e trabalhar para pagar o luxo de ter uma grande companheira.

Edição de 12.10.2017 | Opinião

Provavelmente por razão hereditária paterna, cedo o meu gosto pelas duas rodas motorizadas se manifestou. O resto foi só uma questão de tempo, isto é, de trabalho. Para quem vive do seu trabalho, comprar uma moto, por muito grande que seja o sonho, dá trabalho. É preciso prescindir de alguma coisa e trabalhar para pagar o luxo de ter uma grande companheira. No que me toca, não há viagem como a de moto, o vento na cara, os cheiros, as curvas e as melhores paisagens não têm como ser melhor vividas. Depois de muitos anos com moto, por opção própria, houve a travessia do deserto e não gozei o privilégio de ter uma duas rodas durante uma dezena de anos. Até que, há meia dúzia de anos, o refrescante oásis bafejou a minha vida pela mão de uma Harley Davidson (HD), verdadeira peça de arte com rodas e motor. Tudo isto parece manifestamente exagerado, mas quem tem moto sabe do que falo. Há dias, com esta companheira que nunca me deixa ficar mal e não tem ciúmes, fui a um evento a Setúbal, à volta da apresentação dos modelos 2018 – tudo serve para andar de moto. Muito mais do que muitas HD, acreditem que um convívio de HD tem um espírito verdadeiramente único – com ou sem tatuagens a coisa funciona mesmo. À volta de uma HD a boa conversa, com tudo o que de bom tem associado, pode levar horas. Na hora do clássico passeio de grupo a opção era Arrábida ou Tróia. Cerca de duas centenas de quilómetros para cada lado. A minha escolha foi Arrábida. Nestas coisas de Harley, a cabeça funciona de maneira diferente: é um espírito, às vezes, surpreendente. Escolhi a Arrábida porque na minha cabeça eram mais quilómetros de curvas e magníficas paisagens. Assim foi. Meus amigos, logo que possam, façam por poder, mesmo enlatados (de automóvel) vivam a Arrábida. Acreditem que andamos todos muito distraídos; apenas como exemplo e por comparação, Sintra, a justamente famosa Sintra, fica lá muito atrás. Apesar deste contexto, entre o espírito HD e a soberba Arrábida, ainda tive um lampejo de “normalidade”: como compatibilizar as minhas razões ecológicas com umas largas dezenas de Harley’s a roncarem no Parque Natural? Foi a pergunta que em pleno Parque Natural da Arrábida se me colocou. Suspeito que não consigo justificar; afinal todos temos telhados de vidro, foi a minha consolação.
Carlos A. Cupeto
Universidade de Évóra


P.S. – Durante o passeio fomos passando por largas dezenas de pessoas que tinham enormes sacos azuis. Nada mais nada menos que o Clube da Arrábida na sua 7ª acção anual de limpeza que quase atingiu as oito toneladas. A compensação pela nossa malfeitoria afinal estava ali no próprio dia.

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