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“A arte não se ensina: tem de se nascer artista”

“A arte não se ensina: tem de se nascer artista”

Joaquim Salvador nasceu a 13 de Fevereiro de 1971, em Lisboa, mas a sua terra é Samora Correia e é da amabilidade das suas gentes que sente saudades quando está fora.

Edição de 18.10.2017 | Três Dimensões

Vive entre Lisboa, a ilha das Flores, nos Açores, e Samora Correia e ainda é na casa dos pais, onde hoje só vive a mãe, que passa a maior parte das noites de semana. É actor, encenador, fundador do grupo de teatro Revisteiros e encenador do grupo de teatro A Jangada, nos Açores. É ainda responsável pelas exposições no Palácio do Infantado, em colaboração com a Câmara de Benavente, e há 16 anos que é director artístico da Passerelle d’Ouro em Vila Franca de Xira.

A maior prova de amor que tive foi a minha mãe. Protegeu-me com o próprio corpo dos destroços que caíam do tecto durante um sismo dois dias depois de eu nascer. O sismo abalou Lisboa e a maternidade onde nasci e a minha mãe, ainda a recuperar da cesariana difícil, protegeu-me com o corpo dos estilhaços que caíam do tecto.

Tenho uma paixão desmedida por cabras e burros. A minha mãe não conseguia produzir leite depois de eu nascer e a minha madrinha ofereceu-lhe uma cabra na altura e foi dela que bebi leite. Ainda hoje tenho cinco cabras anãs. Tive outra durante 17 anos que me ofereceram na ilha das Flores e que consegui trazer de avião para cá. Também tivemos um burro em que eu montava e que puxava a carroça em que andava. Ajudou a tornar a minha infância ainda mais feliz.

O meu pai gostava que eu tivesse sido médico militar mas eu sempre quis ser actor. Fazia peças para os meus primos mais novos em cima de uma mesa baixa de madeira, onde os meus pais matavam o porco, com umas cortinas velhas que a minha mãe me arranjou para parecerem as de um teatro, no nosso quintal.

Aos 14 anos formei o grupo de teatro Revisteiros com um grupo de amigos. A ideia para o nome não nos restringe à revista à portuguesa e hoje é o que menos fazemos. Mas consegui com outro grupo com o qual coopero, A Jangada, da ilha das Flores, levar a revista à portuguesa e outros géneros de teatro ao arquipélago inteiro. Em Samora Correia apostamos muito no teatro infantil e todos os anos temos uma peça para as escolas porque é uma obrigação delas mostrar o teatro aos alunos.

A arte não se ensina: tem de se nascer artista. Tirei um curso de teatro em Lisboa mas cheguei à conclusão de que ninguém nos pode ensinar como expressar a arte que temos dentro de nós. Se um actor procura a sua arte numa escola ou num curso é porque não a tem e o que vai aprender é apenas a técnica. Devo à minha mulher, Sónia Lapa, ter começado a trabalhar para Filipe La Féria. Conhecemo-nos num curso de teatro e ela e a minha mãe são os meus grandes pilares. Foi a Sónia que me inscreveu nesse casting para o qual fui sem preparação. Fiz tudo de improviso e o La Féria gostou e ficou comigo no Cabaret, que hoje passa na RTP Memória, em que fazíamos uma revista por semana, gravada no teatro Politeama e transmitida na televisão.

Não consigo passar sem os cheiros da charneca e da lezíria. As histórias da charneca são sempre mais inspiradoras que as de outros sítios e é um lugar que devíamos preservar. Jamais seria capaz de abandonar o sítio onde cresci, as árvores com que brinquei, a casa dos meus pais, aquilo que chamo “a minha tapada”. Adoro regar a terra seca porque o cheiro que fica no ar não é igual ao da terra dos Açores, por exemplo.

Gosto muito de literatura erótica e começo a ler os livros do fim para o início. Agarro num livro, leio as primeiras duas ou três páginas mas depois vou ao final e vou lendo para trás. Faço isto com dois ou três livros ao mesmo tempo. A única banda que me leva a sair de casa para ir ver são os The Gift. Fiquei felicíssimo pelo espectáculo que eles deram em Samora durante o Festival do Arroz Carolino. Já os tinha visto em muitos sítios mas este concerto foi especial.

Gosto de largadas de toiros e encierros. Espero que se mantenha este traço da nossa alma que não devemos perder. Acho uma imagem lindíssima quando, nas entradas, os campinos vêm a correr pelo Largo do Calvário com os toiros e os cavalos.

As pessoas em Samora Correia são carinhosas. Consigo montar uma peça num instante porque toda a gente ajuda, vêm oferecer tudo o que preciso, até roupas antigas. Este colo, esta vida que se tem na vila, nas festas, no dia-a- dia com as pessoas é muito bom.

Se pudesse mudar alguma coisa em Samora mudava o pensamento pequenino das pessoas. Pensa-se demasiado em pequena e não em grande escala e é por isso que não há evolução. Mas acho que se deve preservar a identidade local, por exemplo, não deitar abaixo as casas de traça antiga porque fazem parte da identidade da terra.

Falta apostar no turismo e em trazer mais gente para Samora. Gosto muito do Ceia da Silva, é um homem com horizontes largos e concordo com a visão dele de que antes de trazer as pessoas é preciso criar as bases para que elas queiram vir. Espero que com esta junção que ele está a conseguir do Alentejo e Ribatejo se consiga fazer em Samora mais coisas mas primeiro é preciso inovar no comércio local. Temos um potencial enorme que ainda não estamos a aproveitar.

“A arte não se ensina: tem de se nascer artista”

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