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O fadista da voz tranquila celebra trinta anos de carreira

O fadista da voz tranquila celebra trinta anos de carreira

Com seis discos gravados o cantor lembrou, durante a entrevista, que a sua carreira começou no ano da saída do primeiro número de O MIRANTE.

Edição de 25.10.2017 | Entrevista

O fadista João Chora, da Chamusca, está a celebrar trinta anos de carreira e gravou um CD, com o nome "Aromas de Fado", que apresentou no dia 3 de Novembro em Santarém, no Convento de S. Francisco. Para além do guitarrista Custódio Castelo, do baixista Fernando Maia e de Paulo Loureiro, que tocou piano e acordeão, teve dois convidados especiais consigo em palco, o consagrado Rodrigo e Ana Laíns. Com seis discos gravados o cantor lembrou, durante a entrevista, que a sua carreira começou no ano da saída do primeiro número de O MIRANTE.

P. Ainda vale a pena gravar CDs?

R. Este "Aromas de Fado" é o meu sexto CD e continuo a pensar que é essencial gravar. As canções ficam registadas e para o público deste tipo de música o melhor suporte é o CD. Claro que actualmente ninguém enriquece a vender CDs mas quando sai um novo CD há as entrevistas; as notícias; convites para televisão e rádio. Além disso, se eu não tivesse CDs gravados não teria os convites que tenho para fazer espectáculos.

P. No dia 3 de Novembro, sexta-feira, vai cantar no Convento de S. Francisco em Santarém. Quais são os seus locais preferidos para cantar?

R. Começo por dizer que o pior sítio para cantar é um estúdio de gravação. Por vezes chega a ser violento. Os melhores locais são aqueles que oferecem boas condições, tanto para os músicos como para o público.

P. Costuma cantar no banho?

R. Não. E em casa também não canto enquanto estou a fazer outra coisa qualquer. Pode acontecer sentar-me ao piano e cantar, nomeadamente quando estou em ensaios para algum espectáculo especial como vai acontecer na preparação para o concerto em Santarém. Nessas alturas canto coisas minhas mas por vezes também me acontece cantar outras canções de que gosto e eu não gosto só de fado.

P. E no carro o que ouve?

R. Geralmente oiço rádio. Antena Um ou Renascença e por vezes TSF. Depende das horas e do que está a acontecer no momento.

P. É a primeira vez que canta no Convento de S. Francisco em Santarém. Conhece o espaço?

R. Já lá fui assistir a um concerto e estive numa iniciativa de O MIRANTE em que actuou o Custódio Castelo com os músicos que tocavam com ele na altura. O espaço tem uma boa acústica e uma boa atmosfera. Gostei muito do local e quem ainda lá não foi e for agora para assistir ao meu espectáculo vai gostar com certeza. É um sítio lindo e o jogo de luzes permite um bom efeito cénico e de ambiente.

P. Quem escolheu a sala?

R. Este espectáculo é em parceria com o Centro Cultural Regional de Santarém e também serve para arranjar fundos para as obras de reabilitação e adaptação da sede daquela organização. Havia a possibilidade de o fazer no Teatro Sá da Bandeira mas o Convento de S. Francisco tem uma maior capacidade e isso é bom se houver, como esperamos, muita gente. Vamos tentar ter o palco um pouco mais elevado que habitualmente, provavelmente colocando os músicos em cima de estrados.

P. Vai tocar viola no concerto de Santarém?

R. Vou tocar também, para além de cantar. Já houve espectáculos em que praticamente só toquei viola em dois ou três temas mas habitualmente toco e canto. Ou o viola que me for acompanhar está muito familiarizado com o meu reportório e com a minha forma de interpretar ou então prefiro seu eu a tocar. Claro que se eu não estiver a tocar estou mais liberto para cantar e posso movimentar-me em palco mas, como digo, tem que ser com músicos que me conheçam bem porque se não acabo por não estar confortável.

P. Neste CD gravou um fado com a Ana Laíns e outro com o Rodrigo. Como se acerta o tom de um fado que vai ser cantado por dois cantores? Foi difícil com estes dois convidados?

R. Com a Ana Laíns já cantei várias vezes. Com o Rodrigo foi a primeira vez, embora já o tivesse acompanhado, como instrumentista, algumas vezes. O Rodrigo surge a partir de uma conversa com o Custódio Castelo. A ideia foi associarmos a participação dele a uma pessoa que ele conheceu bem e que cantou muitas vezes na casa de fados que ele tem em Cascais, o Manuel de Almeida. No CD há um fado com um poema inédito do Manuel de Almeida, "Por Transformação Existo" com a música do Fado das Horas e foi esse que gravei com o Rodrigo.

P. Não foi necessário acertar o tom em que os temas foram cantados?

R. A Ana adaptou-se com facilidade àquilo que já estava feito. Com ela há uma parte em que cantamos mesmo a meias, em dueto. Com o Rodrigo, ele recita a primeira quadra, eu canto duas e ele canta as duas restantes. Quem resolveu essas questões do tom mais adequado foi o Custódio Castelo que, para além de produtor e director musical fez os arranjos e toca guitarra portuguesa no disco e no espectáculo de 3 de Novembro em que vão estar o Rodrigo e a Ana Laíns.

P. Era mais habitual esquecer-se uma letra quando começou a cantar ou agora?

R. As chamadas "brancas" acontecem em todas as idades à grande maioria dos cantores. O importante é não parar. Geralmente a solução é improvisar. Uma vez na Holanda foi de tal forma que inventei dois versos completos em palco e o mais curioso é que aquilo saiu tão bem que até fazia mais sentido que o original. Ainda tentei recuperar o que tinha improvisado mas não consegui porque não havia nenhuma gravação e eu não me lembrava do que tinha cantado. Tive uma segunda branca (risos).

P. Já decorou as letras todas deste novo disco?

R. Já as decorei mas vou tê-las à minha frente por uma questão se segurança. Se tiver um esquecimento posso olhar para o papel mas não vou estar a pensar nisso porque tenho que me concentrar totalmente na interpretação.

P. Ainda se respeita o velho pedido de "silêncio que se vai cantar o fado" ou há sempre pessoas a consultar o smartphone enquanto canta?

R. De vez em quando acontece mas raramente. Não me posso queixar. A este nível e neste tipo de concertos como o de Santarém, as pessoas sabem ao que vão e querem estar concentradas no espectáculo. Além disso em Santarém vai haver muitos outros motivos a prender a atenção dos espectadores. Os músicos, a beleza da sala e a envolvência, o intérprete...acho que será difícil alguém ir para lá distrair-se com o telemóvel.

P. Até que ponto a lei que proibiu fumar em recintos fechados foi benéfica para os cantores? Acha que canta melhor agora e tem mais fôlego?

R. A lei foi benéfica para quem canta e para quem não canta. Eu fumo mas reconheço que em alguns espaços pequenos onde às vezes canto, como restaurantes e salas do género, era complicado. A proibição de fumar em espaços fechados foi uma boa iniciativa e agora é algo que está interiorizado. Foi bom para a saúde de todos.

P. Ao fim de quantos anos de carreira começou a sentir que tinha uma voz e um estilo próprios?

R. Quem primeiro notou isso foi o público e algumas pessoas começaram a falar disso comigo. O estilo próprio vai-se aquirindo naturalmente. Foi o que aconteceu comigo, sem que eu tivesse qualquer esforço para que isso acontecesse.

P. Costuma mudar de roupa durante os espectáculos?

R. Já me tem acontecido mas não é programado. Por vezes com a adrenalina começo a transpirar muito e vou trocar de roupa, nomeadamente de camisa, para me sentir mais confortável. Já me aconteceu ouvir alguém comentar que eu tinha mudado de camisa três vezes numa noite.

P. Tem roupa que só usa em espectáculos?

R. Não. O que uso em palco, normalmente também posso usar noutras ocasiões.

P. Já lhe aconteceu ter que sair do palco devido a uma necessidade urgente e imperiosa?

R. Felizmente nunca me aconteceu.

P. Com tantos músicos e fadistas no Ribatejo não é estranho não haver na região uma verdadeira Casa de Fado como em Lisboa?

R. De há uns quatro anos para cá temos um espaço gastronómico em Santarém que tem fados às quintas-feiras e há um ano apareceu outro do género em Almeirim com fados aos domingos mas efectivamente é uma lacuna.

P. Apadrinhou muitos jovens fadistas do Ribatejo. Há muitos ingratos nesse grupo?

R. Há uma situação ou outra que podia ser diferente mas não me queixo. Não guardo ressentimentos em relação a ninguém e não me arrependo. A Ana Laíns chama-me o seu padrinho do fado porque a primeira vez que ela cantou fado com acompanhamento de guitarra e viola foi comigo e com o José Manuel Bacalhau. Eu fiz o que fiz porque acreditava que eram jovens com talento, qualidade e pernas para andar. Eles mereciam qualquer apoio que eu ou outros pudéssemos dar e isso aconteceu com a Joaninha (Joana Amendoeira), a Cristina Branco, a Teresa Tapadas...

“A grande mulher da minha vida é a minha filha”

P. Na adolescência era conhecido por “João Cavaleiro” por querer ser cavaleiro tauromáquico. Se tivesse que escolher entre comprar um puro-sangue lusitano ou um carro topo de gama, o que escolhia?

R. Um carro topo de gama, por razões logísticas. Ter um cavalo é mais complicado do que ter um carro.

P. Quem é a mulher da sua vida?

R. A grande mulher da minha vida é a minha filha!

P. Alguma vez foi à ópera?

R. Fui e não adormeci. Foi a minha filha que me convenceu a ir. Acho que foi em Florença. Gostei daquele envolvimento todo mas não percebi nada.

P. Os ginásios são locais recomendáveis?

R. Eu recomendo-os...mas não vou lá. (risos)

P. Tem algum passatempo que não esteja ligado à música ou ao fado?

R. Continuo a gostar de andar a cavalo, quando posso. E de conviver com os amigos.

P. Na lista dos pratos de que não gosta qual é o primeiro?

R. Sushi.

P. Tem um registo de todos aqueles que o contrataram e não lhe pagaram?

R. É uma lista só com dois nomes e já foi há muito tempo.

P. Consegue distinguir o canto de uma cotovia do canto de um rouxinol?

R. Consigo. Sou um homem do campo.

“Aromas de Fado” dia 3 de Novembro no Convento de S. Francisco em Santarém

O fadista João Chora apresenta o seu novo disco, “Aromas de Fado”, que assinala os seus trinta anos de carreira, dia 3 de Novembro, sexta-feira, no Convento de S. Francisco em Santarém.
O espectáculo está marcado para as 21h30 e tem como convidados especiais os fadistas, Ana Laíns e Rodrigo, que irão cantar em dueto com João Chora dois temas que também gravaram em conjunto para o CD.
Rodrigo participa em “Por Transformação Existo”, um fado com um poema inédito de Manuel de Almeida e música de João Chora e Bruno Mira e Ana Laíns faz dueto com João Chora numa balada de José Afonso, com poema de Luís de Camões, “Verdes são os Campos”.
Ao longo do espectáculo, João Chora vai cantar diversos temas gravados ao longo da sua carreira e será acompanhado pelo guitarrista Custódio Castelo, pelo baixo de Fernando Maia e por Paulo Loureiro que tocará piano e acordeão.
Custódio Castelo, considerado um mestre da guitarra portuguesa, foi o produtor do disco e compôs dois temas inéditos para o mesmo, assinando também quatro poemas. O músico, natural de Almeirim, tem colaborado regularmente com João Chora ao longo da sua carreira, quer como compositor, quer como produtor discográfico, director musical e instrumentista.
O tema de abertura do actual CD, com o título “Madrugada de Aromas” é uma balada da autoria de Custódio Castelo e foi escolhido como tema de apresentação do trabalho por João Chora.
No espectáculo de dia 3 de Novembro participa também um grupo de Fandango do Grupo de Danças e Cantares Ribatejanos e um grupo de dançarinos do Projecto de dança, Jardim do Tango.
Os bilhetes estão à venda na sede União de Freguesias de Santarém e as reservas podem ser feitas através dos telefones 916 060 436 ou 917 824 574.

O fadista da voz tranquila celebra trinta anos de carreira

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