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Não se pode pensar no medo quando chega a hora de entrar na arena

Não se pode pensar no medo quando chega a hora de entrar na arena

O Grupo dos Forcados Amadores de Azambuja está a celebrar 50 anos. Recrutar vai sendo cada vez mais difícil, diz o cabo André Letra.

Edição de 02.11.2017 | Cultura e Lazer

“Não vimos para forcados à procura de fama nem para arranjar namoradas. Vimos porque gostamos de toiros e queremos honrar as tradições e os nomes dos nossos antepassados”, diz André Letra, cabo do Grupo dos Forcados Amadores de Azambuja, que assim resume o espírito que reina no grupo, que está a celebrar 50 anos.
Há três anos que André honra o nome do seu antecessor, Fernando Coração, que o escolheu para liderar o grupo. É o cabo que dá a cara pelos colegas, que são como família: “Digo sempre aos meus homens que devemos ser como irmãos, porque é mais fácil defender um irmão quando ele precisa do que um simples colega de trabalho”. E nos Forcados de Azambuja há, além deste laço simbólico, laços verdadeiros de sangue entre alguns, mas na hora da pega todos se olham como iguais e têm um objectivo comum: garantir um bom espectáculo ao público.
Actualmente o grupo conta com 20 forcados, alguns ainda adolescentes e os mais velhos na casa dos trinta anos. A maioria é do concelho de Azambuja, mas também há dois de fora, um do concelho do Cartaxo e outro de Tomar. Gonçalo Mota é o mais novo, com 16 anos, a idade mínima para se poder fardar, e Valter Soares é o mais velho, com 35. O título de veteranos vai para Rodrigo Carvalho e Luís Amador, ambos forcados há 14 anos. Há também alguns estreantes este ano, mas André Letra alerta que o grupo já foi maior no passado e que se tem vindo a tornar mais difícil recrutar novos elementos.

Pegas abençoadas
Na hora de enfrentar o touro, não se pensa de forma individual, mas no colectivo: os oito elementos na arena têm de agir como um só durante aqueles breves momentos que dura uma pega normal. “Não podemos pensar no medo. Quando entramos para a arena já vamos preparados para aquilo que temos de fazer. Nenhum de nós vai obrigado, vamos porque nos dispusemos, por isso não há arrependimentos de última hora”. O cabo acrescenta que “há um grande alívio e euforia” quando conseguem pegar à primeira mas por vezes a pega torna-se “mais bonita e com mais galhardia se só conseguirmos à segunda ou à terceira” tentativa.
Antes de entrarem na arena, já a maioria rezou a uma santa num pequeno altar que levam consigo. Em várias ocasiões ainda recebem a bênção de Paulo Pires, padre em Azambuja, que nem era fã da tauromaquia e que há três anos começou a assistir às actuações do grupo. No final acompanha-os nos jantares, que por vezes são ensombrados pelas ausências de elementos que se magoam e precisam de ser assistidos no hospital.
“Como todos os grupos de forcados, passamos por tardes e noites de glória e outras de aflição. Ninguém gosta de ver um colega ser massacrado pelo toiro, mas já aconteceu várias vezes”. Nos últimos 12 anos, desde que André é forcado, não morreu em praça nenhum dos forcados do grupo, mas “já aconteceu logo no princípio do grupo”. Acidentes vão acontecendo, e o próprio cabo foi hospitalizado após a corrida em que recebeu a passagem de testemunho de Fernando Coração. “Passei a noite inteira no hospital a fazer Raio-X, TAC e outros exames à cabeça e ao tronco. De manhã os exames não revelaram nada e deixaram-me voltar para casa”.
Mesmo com algumas nódoas negras, com a preocupação que causam às famílias e com a ginástica de horários para conseguirem treinar todos os domingos de manhã e estarem em forma para cada prova, os forcados continuam, pega atrás de pega, a respeitar a jaqueta porque, nas palavras de André Letra, “temos um nome para honrar e queremos que os Forcados de Azambuja sejam conhecidos e falados em todo o país”.

Os receios dos familiares e as mulheres nas arenas

A mãe de André Letra não suporta touradas. Apenas assistiu a uma e só viu o momento da pega porque o filho a enganou: “Ela tapa os olhos e os ouvidos, porque faz-lhe muita impressão ver e ouvir o que se passa na arena, e pediu-me dessa vez para dizer quando a pega já tivesse passado, mas enganei-a, ela abriu os olhos antes de tempo e a partir daí nunca mais viu nenhuma!”, recorda André.
Não teve a aprovação da mãe quando lhe disse que queria tornar-se forcado, aos 21 anos, até ouviu dela que só seria forcado quando ela falecesse, mas ainda hoje é o alvo das preces dela antes de cada corrida. “O meu pai, apesar de ser aficionado, também não queria que eu fosse forcado, mas também me apoiou depois e continua a torcer por mim, para que corra tudo bem”.
E se houvesse em Azambuja um grupo de forcadas? “Não sou contra, mas vejo sempre os forcados mais ligados aos homens, não sei se as mulheres conseguem ter a mesma força física, mesmo tendo a mesma força de vontade e o mesmo gosto pelo animal”, confessa o cabo, dizendo que gosta de ver as lides de algumas cavaleiras.

Não se pode pensar no medo quando chega a hora de entrar na arena

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