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O árbitro que perdeu a conta às vezes que era “castigado” com duche de água fria

O árbitro que perdeu a conta às vezes que era “castigado” com duche de água fria

João Coimbra é o presidente do Núcleo de Árbitros da Póvoa de Santa Iria e uma referência para os mais novos

Edição de 02.11.2017 | Desporto

João Coimbra perdeu a conta às vezes em que teve de tomar banho de água fria no final dos jogos, quando a equipa da casa não gostava da arbitragem. Uma vez não se resignou às desculpas e entrou no balneário dos jogadores e tomou banho de água quente com eles, perante o espanto dos futebolistas. “Percebi que eles não gostaram mas ao menos safei-me”, conta o árbitro com uma carreira de 19 anos e presidente do Núcleo de Árbitros da Póvoa de Santa Iria. “Havia sempre uma desculpa qualquer, ou se tinha acabado o gás, ou havia problemas com a canalização, qualquer coisa servia para cortar a água quente”, conta.
Ao longo da careira, o árbitro de 57 anos de idade apitou jogos dos escalões de formação, passou por todos os campos do distrito de Lisboa e chegou ao escalão principal do futebol. Esteve num Benfica - FC Porto. Nesse jogo teve de mandar o presidente do Porto sentar-se e acalmar-se mas só se apercebeu que era Pinto da Costa a quem tinha dado a reprimenda quando leu o jornal no dia seguinte. Nessa altura fez parte da equipa de Fernando Correia como árbitro assistente e percebeu que tinha entrado “na piscina dos meninos grandes”. “No primeiro jogo que fiz na Primeira Liga, um dos clubes apresentou-me uma ficha sobre mim com tudo aquilo que eu tinha feito enquanto árbitro. Assustou-me perceber o poder de toda aquela estrutura”, recorda.
João Coimbra garante que nunca lhe ofereceram compensações monetárias para influenciar resultados, mas muitas vezes teve elementos dos clubes a “pedir” para não amarelar determinados jogadores. “Quando entrava em campo, esquecia-me de tudo. Se fazia falta para amarelo, tinha de levar amarelo, fosse quem fosse”. O pior jogo da carreira foi o Ouriense (Ourém) – União de Coimbra na época de 2000/01, a contar para a Terceira Divisão Nacional, quando marcou um penalti contra a equipa da casa. “Foi o caos, as pessoas não aceitaram muito bem perder aquele jogo e foi preciso chamar a polícia para conseguir sair do estádio”, lembra.
A experiência de João Coimbra é hoje fundamental para jovens árbitros, como Fábio Rodrigues de 18 anos, o membro mais novo do núcleo, que conta com 20 elementos. Aos 14 anos decidiu ser “o oposto de todos os amigos que queriam jogar futebol” e tornar-se árbitro. Reconhece que a idade acaba por ser um obstáculo. Quer a dirigir jogos de seniores “que têm a idade do pai”, quer a lidar com os insultos da bancada sem poder responder. “Tive de crescer e aprender a ignorar”, diz o jovem que considera esta actividade como uma das mais complicadas do mundo.

“São piores comigo por ser mulher”

Ana Silva é a única mulher do Núcleo de Árbitros da Póvoa de Santa Iria.


Aos 29 anos, a decisão de enveredar pela arbitragem surgiu como algo natural, depois de alguns anos ligada ao mundo do desporto, como jogadora e treinadora de Voleibol. “Sempre fui bastante pro-activa e ligada ao desporto. Ser árbitra foi mais um passo natural”, explica. Ana reconhece dificuldades para desempenhar o seu papel num desporto maioritariamente masculino. A discriminação por ser mulher esteve presente em todos os jogos que dirigiu, “não tanto por parte dos elementos dos clubes e dos jogadores mas essencialmente por parte do público”. “Acho que são piores comigo só por ser mulher”, desabafa.
Ana dirige jogos tanto de escalões masculinos como femininos e faz parte de uma equipa de arbitragem do Campeonato Nacional de Futebol Feminino, onde desempenha funções de árbitra assistente. Os momentos de maior insegurança surgiram em jogos dos escalões de formação, onde o policiamento não é obrigatório, deixando as equipas de arbitragem sem protecção. “Os pais são muito fervorosos, e a falta de policiamento leva a tentativas de entrarem em campo, o que às vezes me deixa um bocado receosa”, explica.

O árbitro que perdeu a conta às vezes que era “castigado” com duche de água fria

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