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Este ano há muito e bom azeite ribatejano
Vítor Antunes (de castanho) a medir o azeite de um cliente

Este ano há muito e bom azeite ribatejano

Azeitona abundante e qualidade de azeite garantida deixam produtores e lagareiros satisfeitos

Edição de 08.11.2017 | Economia

O mês de Novembro ainda vai no início mas no Ribatejo os pequenos produtores de azeite já apanharam a azeitona dos seus olivais e já têm o azeite da campanha em casa.
“Este ano o Ribatejo teve muito e bom azeite, com 3, 4 e 5 décimas”, diz Vítor Antunes, jovem lagareiro de Casal da Pena, concelho de Torres Novas.
No lagar de Miguel Antunes, em Casal da Pena, Vítor, filho do dono do lagar e motor da labuta, contou a O MIRANTE que durante todo o mês de Outubro o trabalho não deu tréguas. “Vinte e quatro horas sempre a trabalhar porque os clientes querem rapidez na transformação da azeitona para não se perder a qualidade máxima do azeite”, diz.
Foram dias e noites em que a aldeia de Casal da Pena mais parecia um lugar de peregrinação, com ruas cheias de carros, carrinhas e tractores carregados com o produto dos muitos olivais particulares que proliferam na zona de Torres Novas, diz Vítor Antunes. Recorda que antigamente havia muitos mais lagares na zona mas as imposições legais e a idade avançada dos lagareiros levou ao encerramento de muitos, ficando apenas, na zona, o Lagar do Miguel, no Casal da Pena, freguesia de Chancelaria, que resistiu pela juventude dos donos e pelas obras que corresponderam às exigências das autoridades.
Até agora, já passaram pelo Lagar do Miguel cerca de 900 toneladas de azeitona, que este ano rendeu a 20 por cento. “Uma excelente campanha”, garante Vítor animado, até porque em Espanha a quantidade e qualidade estão muito aquém da portuguesa, o que augura boas vendas do produto.
Os clientes do Lagar do Miguel deixam a azeitona e levam todo o azeite que dela resultar depois de pagarem oito cêntimos por quilo mas, se a quantidade o justificar, o lagar pode ficar com algum azeite para comercializar por sua conta. O trabalho de lagareiro é muito “desgastante” mas “compensa pelo gosto de ver a transformação dos frutos da terra em azeite, um produto tão nosso e tão místico”, justifica Vítor Antunes que, para além do trabalho sazonal no lagar do pai, trabalha com sucata.
Os clientes do Lagar do Miguel vêm de todo o concelho de Torres Novas e também de concelhos como os de Leiria, Tomar e Porto de Mós. “Gostam da forma como transformamos a azeitona e da seriedade da relação comercial”, sublinha Vítor Antunes, que destaca os produtores da região como os principais alicerces do volume de trabalho no lagar.

Pedro Neves e Luís Neves

“A agricultura é uma óptima terapia para as pressões do dia-a-dia”

Apanha da azeitona é também uma oportunidade para convívio familiar entre diferentes gerações.


Pedro Neves e Elsa Pereira, um jovem casal de Rexaldia, freguesia de Chancelaria, encaminham anualmente todo o produto das suas cerca de 200 oliveiras galegas para o Lagar do Miguel, onde Pedro também dá uma ajuda nos dias de maior aperto. Este ano, com ajudas pontuais de familiares, já apanharam quatro mil quilos de azeitona, que lhes renderam 800 litros de azeite. A apanha é feita de forma manual, com recurso a varas pneumáticas e a bateria, uma ajuda para tornar a apanha mais rápida.
Pedro tem 33 anos e garante que a agricultura é uma óptima terapia para descontrair das pressões diárias do trabalho e estar em comunhão com a natureza. Pedro e Elsa herdaram as 200 oliveiras, de que cuidam com dedicação, porque o azeite, para além de ser para consumo próprio, também lhes rende alguns euros suplementares pela venda a particulares. Gostavam de plantar mais oliveiras, porque apesar de só terem uma filha e não pensarem em mais, acreditam que vale a pena apostar no sector agrícola como complemento da economia local e familiar.
Faustino Bento tem 83 anos e, depois de uma vida passada a trabalhar na agricultura, se pudesse regressar ao passado garante que não trocaria essa vida por nenhuma outra. As mil e duzentas oliveiras da variedade cobrançosa e galega que possui na freguesia de Chancelaria são apanhadas pela família. O filho, João Pedro Bento, encarrega-se de usar a motosserra para cortar os ramos que estão mais altos e de conduzir o tractor com uma pá carregadora própria para onde vai a azeitona apanhada nos panos, já parcialmente limpa de galhos secos e folhas, que irá depois para o lagar.
A filha, Teresa Bento, e a nora, Lurdes Oliveira, compõem o resto do rancho liderado por Faustino Bento. Os netos, ocupados com as suas profissões e a morar longe da terra, aparecem uma vez ou outra, mas não se pode contar com eles para a apanha da azeitona.
Faustino Bento diz que não compensa recorrer a mão-de-obra extra familiar para a apanha da azeitona porque, para além de ser dispendiosa (6 euros/hora por pessoa mais seguros e outros “pózinhos”), também não há quem queira dedicar-se à actividade “porque é dura e sazonal”.
O azeite desta campanha vai ser guardado para consumo de toda a família e o restante, refere Faustino, vai ficar no lagar. O rendimento de três euros e meio por litro que o lagar lhe pagará justifica a transacção, em detrimento de vender a particulares por mais um euro por litro. Faustino lembra que antigamente as pessoas que não tinham oliveiras compravam aos 30 e 50 litros de azeite por ano para terem em casa mas actualmente “as que compram é só aos cinco litros de cada vez e quando é” por isso não vale a pena trazer para casa mais do que o necessário para a família, diz.
Teresa Bento garante que a apanha da azeitona, apesar de ser um trabalho duro, é também uma boa oportunidade para a família e amigos se juntarem e conviverem. A relativa mecanização da apanha, diz Teresa, facilita a tarefa que fica mais nas mãos dos homens, que manuseiam as varas, cabendo às mulheres o levantar dos panos e o “repinhar” dos ramos cortados.

Este ano há muito e bom azeite ribatejano

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