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Deixa as leis para vender chouriços e queijos no Mercado de Torres Novas

Deixa as leis para vender chouriços e queijos no Mercado de Torres Novas

José Castelo Branco interrompe o curso de Direito para ser o mais jovem vendedor do espaço

Edição de 29.11.2017 | Economia

José Castelo Branco estava a fazer o segundo ano do curso de Direito e aos 24 anos mudou radicalmente de vida para assumir o negócio do pai no Mercado de Torres Novas, que entretanto ficou doente. Arrumou os livros e passou a cuidar da pequena banca em pedra de venda de produtos regionais. Vendedor há cerca de um mês e meio, exibe no pequeno espaço de venda enchidos, vinhos, ginja, frutos secos, queijos e bolos de bolacha, feitos pela mãe. Os produtos estão milimetricamente arrumados para caberem todos e ficarem todos visíveis.
Ainda pouco experiente no negócio, José parece não lamentar ter trocado a vida de estudante e diz que está a apaixonar-se por esta nova actividade. Quando o pai ficou doente, o então estudante pensou no que seria melhor para a sua vida e da sua família. A opção de ajudar os pais, que são donos de uma quinta e de um talho em Torres Novas, falou mais alto. Admite que apesar de não querer desistir do seu curso, neste momento é ao comércio que quer dedicar os seus dias. E no futuro logo se vê. Para já está a entrar no espírito de negociante e até já fala dos produtos com entusiasmo. Os enchidos compra-os ao pai, que os produz. “Sinto-me confortável a vender aqui no mercado, é a minha praia”.
Na sua vida de estudante não tinha que se levantar diariamente às 5h30, como faz agora, para chegar ao mercado cerca de uma hora depois. Mas isso também não se revela um problema, porque, confessa, é fundamental ter tudo arrumado na banca quando aparecerem os primeiros clientes. José Castelo Branco sublinha que a melhor lição que aprendeu durante esta experiência foi a importância de ajudar os outros e que, desde que começou a trabalhar no mercado, já percebeu que há um forte espírito de união e camaradagem entre os vendedores. “Ajudamo-nos uns aos outros. Às vezes os meus colegas vendedores ajudam-me a descarregar os produtos”.
José Castelo Branco teme que a tradição dos mercados um dia se perca. “Normalmente só as pessoas mais idosas é que frequentam o nosso mercado, são poucos os jovens que preferem este tipo de comércio”. Pode ser que pelo facto de ser jovem venha a atrair mais clientes mais novos, até porque, realça que o ambiente dos mercados é mais acolhedor que o das grandes superfícies, “onde as pessoas mal trocam olhares enquanto fazem as suas compras e onde a qualidade dos produtos muitas vezes fica esquecida”, conclui.

A vendedora que sai da banca e vai buscar os clientes
“Venham cá ver o peixinho”. O pregão de Maria do Rosário Carvalho sobrepõe-se ao ruído que ecoa no Mercado Municipal de Torres Novas. Quando a voz forte não é suficiente para atrair a clientela, a vendedora tem outros métodos de promoção para se distinguir dos cinco concorrentes que vendem peixe ao seu lado. Maria sai da banca e vai ao encontro dos compradores nos corredores tentando que estes a acompanhem para verem a mercadoria na banca. No canto destinado à venda de peixe cheira a mar e há escamas pelo chão.
Com 76 anos de idade, Maria do Rosário Carvalho já amanha peixe há 55 anos no mercado, o que lhe vale a referência de vendedora mais antiga do espaço. Quem gosta do que faz não se lamenta e o facto de se levantar às cinco da manhã é apenas uma rotina que não serve de lamentação. Aflita com o avançar da hora e ao ver a quantidade de peixe que ainda tem em cima da sua banca a vendedora desinteressa-se da jornalista e os seus olhos percorrem o local à procura de pessoas a quem pode ir vender o peixe. Maria abandona a entrevista por diversas vezes para se dirigir às pessoas que andam pelo mercado, chamando-as e apregoando: “olha o peixinho bom”.
Natural de Riachos, no concelho de Torres Novas, Maria começou a vender peixe por acaso. A cunhada também era peixeira, precisamente na mesma banca, e pediu a ajuda de Maria, que se interessou pela actividade, ficando com o negócio. Explica que o seu peixe é comprado a um vendedor de Peniche, que o entrega na banca. Além de Torres Novas, a vendedora também vai vender uma vez por semana aos mercados de Ourém e do Entroncamento.
Reformada, continua a trabalhar, mas não apenas porque gosta da actividade ou porque não quer descansar. O valor que recebe de reforma, 320 euros mensais, é insuficiente para a sua vida e para poder ajudar a filha e os cinco netos. Maria é o pilar da família, sobretudo após o falecimento do filho, pai de três crianças. Conhecida pelos seus clientes como Maria Carvalha, esta vendedora de peixe conta que o mercado e principalmente as bancas do peixe, estão a atravessar tempos difíceis, visto que são cada vez menos as pessoas que procuram este tipo de comércio.

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