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Duas vendedoras com quarenta anos de diferença que quase nasceram no mercado de Vila Franca de Xira

Duas vendedoras com quarenta anos de diferença que quase nasceram no mercado de Vila Franca de Xira

Cecília Camilo reparte o tempo entre a venda de fruta e a escrever livros e Catarina Pinto dá juventude ao espaço

Edição de 06.12.2017 | Economia

A vendedora mais antiga do mercado de Vila Franca de Xira, Cecília Cristóvão Camilo, começou a infância atrás da banca e a mais nova, Catarina Pinto, já ia para o mercado na barriga da mãe, uma das vendedoras do espaço inaugurado em 1929. Cecília conhece o mercado como as próprias mãos, fazendo 66 anos de actividade, durante os quais assistiu a brigas e suicídios de colegas.

Cecília, que começou a trabalhar no mercado aos 10 anos de idade, conta que viu várias vezes algumas colegas andarem “à pancada” em disputas para ficarem com clientes. Mas um dos episódios que mais a marcou foi quando o dono de um espaço de mercearia suicidou-se por não conseguir perceber como é que funcionava o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). Cecília, que gosta de escrever e quer passar a banca a alguém para se dedicar a essa paixão, é do tempo em que as bancas eram em madeira e não havia facturas, muito menos máquinas registadoras. Recusa-se a usar estas máquinas mas passa recibos à mão, dizendo com orgulho que tem “sempre tudo em dia quando passa a fiscalização.
A vendedora mais antiga, conhecida por Cilinha, começou por vender os enchidos dos tios, antes de se estabelecer na venda de frutas e hortícolas. Quando concluiu a instrução primária (primeiro ciclo) deixou a casa dos pais para ir viver com os tios, que eram donos de um talho dentro do mercado e onde vendiam a carne dos porcos que criavam. “A minha tia achou que eu tinha jeito e então fui ficando por aqui”, conta a O MIRANTE.
De segunda a sábado a rotina é sempre a mesma, faça chuva, sol, frio ou calor. O despertador toca às cinco da manhã, para estar no mercado às seis e estar no seu posto às 7h00, quando o mercado abre as portas. Nos tempos mortos durante o dia, “alguns infelizmente”, ocupa-os a ler e a escrever. Na mala preta que a acompanha todos os dias leva o essencial: Um livro de José Rodrigues dos Santos, o autor preferido, canetas e as obras literárias que escreveu ou está a escrever.
Cecília Camilo é também Cilinha Calçada, como autora de dois livros, um em prosa e outro em verso, sobre a cidade de Vila Franca de Xira. O próximo projecto é um livro de memórias pessoais, escrito à mão, que serve para ficar como “uma homenagem ao mercado e à cidade”. “É uma coisa simples, de alguém que só tem a quarta classe, mas acho que vai ser muito bonito”, diz.
O livro ainda só tem algumas folhas escritas porque, com a dedicação à banca, o tempo que sobra para escrever não é muito. Com 76 anos, Cecília Camilo está a tentar arranjar alguém que lhe fique com a banca para utilizar o tempo que resta e dedicar-se ao sonho da escrita. “Não está fácil, os jovens de hoje em dia só querem um emprego seguro e sem muitas responsabilidades”, desabafa.

Catarina Pinto cresceu na banca de produtos hortícolas da sua avó

Catarina Pinto, a vendedora mais nova do mercado de Vila Franca de Xira, com 32 anos, está a contrariar a ideia de que os novos não querem este tipo de vida. Cresceu dentro da banca de produtos hortícolas que a avó começou em 1961. Estudou até ao 12º ano, na área da economia, e foi ajudando a mãe na banca ao fim-de-semana. Tinha o sonho de trabalhar num banco porque gostava muito de dinheiro e números, mas a experiência no emprego não correu da melhor forma e o apelo do mercado falou mais alto. “É o meu mundo e gosto mesmo disto. Temos de fazer o que gostamos, só assim faz sentido”, explica.
Acabou a ajudar no negócio de família e actualmente tem uma banca própria onde vende o pão e outros produtos tradicionais portugueses. Lamenta que outros jovens não abracem esta actividade e teme que com o desaparecimento dos vendedores mais velhos o mercado vá também morrendo aos poucos. Com uma filha a caminho, Catarina espera incutir-lhe o gosto pelo mercado para que ela um dia também venha a ajudá-la na venda, seguindo as suas pisadas e mantendo uma tradição familiar.

Duas vendedoras com quarenta anos de diferença que quase nasceram no mercado de Vila Franca de Xira

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