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Três gerações de emigrantes com a vida partilhada entre o Ribatejo e França

Três gerações de emigrantes com a vida partilhada entre o Ribatejo e França

Manuel e Fátima Simão estão emigrados em França desde crianças. Foram com os pais na década de 70 para fugirem à ditadura e às más condições de vida em Portugal. Apesar de os pais terem voltado, o casal continua por terras gaulesas mas viu as suas filhas optarem por vir viver em Vale do Carro, uma pequena aldeia do concelho de Santarém onde tudo começou.

Edição de 06.12.2017 | Tão longe e aqui tão perto

A família Simão está dividida desde a década de 70 entre a pequena aldeia de Vale do Carro, no concelho de Santarém, e a região de Borgonha, em França. Foi a pobreza, a ditadura e a falta de perspectiva de uma vida condigna que levaram inicialmente os patriarcas Manuel da Silva Santos e Manuel Simão, amigos e vizinhos no Vale do Carro, a saírem do país. Mais tarde juntaram-se-lhes as esposas e os filhos, Fátima Santos e Manuel Simão júnior, que mais tarde acabariam por casar.
Fátima, hoje com 49 anos, tinha quatro quando chegou a França com a mãe Lucília. O marido, Manuel Simão, hoje com 55 anos, foi aos 12. As duas filhas do casal, Melanie, de 28 anos, e Vanessa, de 24, já nasceram em França mas contrariaram a tendência de muitos jovens portugueses, que procuram melhores oportunidades no estrangeiro, e decidiram fazer o percurso contrário, vindo morar com os avós para o Ribatejo.
“Portugal é mais acolhedor, há mais convivência entre as pessoas, podemos passear quando queremos e estamos perto de tudo. Cá temos muito sol e em França estávamos numa zona onde estava sempre nublado e a chover. O povo português acha que é mais fácil a vida lá fora mas não é verdade, só ir ao café é demasiado caro para se ir tantas vezes como cá”, conta Vanessa.
A jovem confessa, contudo, que sentiu uma enorme dificuldade em deixar os pais para trás e refazer a vida num país diferente, onde, admite, só recentemente começou a sentir-se integrada, apesar de já cá estar há cinco anos. “Foi quando deixei de ter os meus pais ao meu lado que percebi a falta que eles realmente fazem”, diz.
A irmã Melanie veio há 10 anos para terras lusas e hoje trabalha na área da comunicação, já é casada e tem dois filhos pequenos. Vanessa ainda está a estudar Gestão de Recursos Humanos em Santarém. Escolheu o ensino superior português em vez do francês pela experiência e tradições académicas, o espírito das praxes e das actividades entre colegas, que diz não se encontrar em França, onde “é só mesmo estudar e mais nada”. No entanto, não esconde que gostava de ter os pais consigo, mas eles continuam em França a lutar pela vida.

“Quando era mais novo só queria voltar para Portugal”
Fátima ainda guarda a memória do dia em que se despediu do pai: “Fiquei com os meus avós a ver o táxi em que ele se foi embora a afastar-se pela rua e nós a acenar”. Manuel Simão já era mais velho que a esposa quando deixou Portugal e recorda-se melhor da tristeza que sentiu: “Nunca me senti francês, nem hoje sinto, e quando era mais novo só queria voltar para Portugal”.
Manuel sentia-se sozinho em França, onde não tinha ninguém além dos pais, e também tinha saudades da aldeia de Vale do Carro e da família que lá deixou. “Nesse tempo nem telefones havia, tínhamos de falar sempre por carta, que demorava muito tempo”, conta.
Porém, enquanto em Portugal as casas eram pequenas, sem electricidade nem esgotos, em França tinham outras comodidades. Manuel também não teve de se adaptar à gastronomia francesa porque a mãe cozinhava pratos portugueses. Foi quando chegou à escola que o choque de culturas se tornou inevitável: “Ainda não sabia falar francês e fui para uma escola onde ninguém falava português. Desenrasquei-me a ouvir os meus colegas, aprendi aos poucos e poucos e ao fim de um ano já sabia o francês”.
Fátima não teve tantas dificuldades em adaptar-se à língua mas demorou a habituar-se à “maneira de ser” dos franceses: “Na altura eram mais frios e fechados que nós, tratavam-nos por ‘os emigrantes’ e deixavam-nos os trabalhos mais complicados da construção civil, que não queriam fazer”. Hoje, trabalha numa cadeia de hipermercados onde não se sente discriminada: “Trabalho lá há 30 anos e nunca ouvi uma palavra negativa nem me puseram de lado”.
Quando Fátima e Manuel querem visitar a família em Portugal, Fátima pede à chefe que lhe dê o fim-de-semana de folga e ela até lhe dá a sexta-feira à tarde para poder ir mais cedo: “A partir do momento em que faças o teu trabalho e não chateies ninguém és tratada como se fosse um deles”. Manuel tirou o curso de técnico automóvel e trabalha nessa área. “Se estivesse hoje em Portugal seria engenheiro, mas aqui em França estou um pouco abaixo, a trabalhar num stand automóvel da marca Volkswagen-Audi”.

As saudades das filhas em Portugal
As saudades que têm das filhas são a parte mais difícil para os pais, mas Fátima defende que hoje é mais fácil mitigá-las através das redes sociais, por onde também acompanham o crescimento dos dois netos. Conseguem ainda visitar a família três vezes por ano - em Agosto, pelo Dia de Todos os Santos e em Março - mas Fátima não esconde que quando se reformar gostava de voltar de vez para Portugal. Manuel não concorda tanto: “França tem uma melhor qualidade de vida, a nível de salário, condições de habitação e sociedade no geral e se voltássemos para Portugal teríamos de começar outra vez do zero”.

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