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Da polícia militar a bispo de Santarém

Da polícia militar a bispo de Santarém

No dia de Natal D. José Traquina cumpre um mês como bispo de Santarém, funções em que substituiu D. Manuel Pelino Domingues. Foi o retorno, quatro décadas depois, à cidade que o marcou na sua juventude, onde cumpriu serviço militar e onde decidiu seguir a vocação sacerdotal, para surpresa da família.

Edição de 21.12.2017 | Entrevista

Que conhecimentos tinha desta região antes de ser nomeado bispo de Santarém?

O conhecimento era reduzido e circunscrevia-se aos anos de 1975 e 1976, quando cumpri serviço militar na Escola Prática de Cavalaria (EPC). Conheci a cidade e mais alguns pontos em redor, como Almeirim, Cartaxo, Rio Maior. Fui furriel da polícia militar e andávamos muito pela rua. Foi também em Santarém que decidi ser padre, com 22 anos de idade.

Tomou posse como bispo de Santarém no dia 25 de Novembro. Quais as primeiras impressões sobre o que veio encontrar?

Não foi muito diferente do que seria expectável, mas foi para melhor. A diocese preparou-se de uma forma muito bela para receber o novo bispo. Foi de uma beleza litúrgica e de celebrações que todos os bispos e padres que assistiram ficaram muito agradados com o que viram.

E em termos de realidade económica e social, já tem uma ideia do panorama da região?

Nesses campos ainda não tive tempo mas espero nos próximos tempos começar a conhecer. Lá chegarei.

Está num distrito cujo território é repartido por quatro dioceses, situação que presumo ser única no país. Faz sentido, por exemplo, que Abrantes pertença à diocese de Portalegre e Castelo Branco e que Tomar, do outro lado do Zêzere, pertença a Santarém?

Podia ser de outra maneira, de facto. Mas quando se trata de criar novas dioceses vai-se pela forma mais fácil. E foi o que se passou com Santarém, cuja diocese foi criada com o território que pertencia à região pastoral do patriarcado de Lisboa. Não se tocou em mais nenhuma diocese, só se tirou a Lisboa. Se houvesse a integração de outros territórios obrigaria a muitas negociações e a situações complicadas.

A junção do distrito de Santarém numa só diocese é uma situação que não está na agenda da Igreja?

Ao longo dos séculos vemos que até houve dioceses que se extinguiram, como os casos de Pinhel ou de Elvas. Portalegre e Castelo Branco já foram duas dioceses e hoje são só uma. Tirar Abrantes e outros concelhos a uma diocese que tem perdido muita população também seria complicado. A mesma situação, por exemplo, acontece com o concelho de onde sou natural, Alcobaça, que é do distrito de Leiria e pertence ao patriarcado de Lisboa.

Neste processo de escolha para bispo de Santarém teve alguma participação?

Com franqueza, não pensava ser nomeado nem para aqui nem para lado nenhum, pelo menos este ano. Estava como bispo auxiliar de Lisboa (éramos três) e pela forma como, em Julho, se combinou a vida em Lisboa para este ano pastoral estava plenamente convencido que não iria haver mexidas em Lisboa - embora soubéssemos que eram precisos bispos para Santarém, Évora e Funchal e agora também para Viseu e para o Porto. Quando saiu essa nomeação, em Setembro, fiquei surpreendido.

E qual foi o seu primeiro pensamento, se é que o pode partilhar? Achou que seria um bom desafio ou preferia ter ficado na capital?

Teria sido mais fácil ficar em Lisboa, porque não tinha que presidir. Aqui tenho que assumir essa responsabilidade. É diferente. Tenho que acompanhar a vida pastoral da diocese e assumir que isso é comigo e não com outro. Mas se tinha que ser bispo de alguma diocese, então Santarém agradou-me. Era uma cidade que já conhecia, fica perto da minha terra e tem afinidades com Lisboa.

A carência de sacerdotes é uma das dificuldades que tem enfrentado esta diocese. Os padres ainda vão chegando para as encomendas ou a situação está cada vez mais difícil?

Temos recebido alguns colaboradores do Brasil, o que tem ajudado, tal como outras dioceses têm recebido padres da Índia, de África…

É fundamental esse intercâmbio?

São quase fenómenos mundiais em termos de evangelização. A Europa toda tem menos gente e outros continentes continuam a crescer em população. Depois há também o fenómeno da fé e da evangelização. Na Índia, há 150 anos, não havia um padre de lá, era só missionários de fora. Agora é ao contrário. Temos cá quatro seminaristas de São Tomé que estão a estudar pela diocese de Santarém. Em São Tomé os seminários mais próximos onde poderiam estudar são em Luanda e estão cheios.

A disciplina e respeitabilidade de Salgueiro Maia

Na Escola Prática de Cavalaria chegou a privar com o icónico capitão Salgueiro Maia?

Fomos contemporâneos mas não privei com ele directamente. Ouvi-o falar algumas vezes. Era uma pessoa que tinha uma postura com alguma gravidade, não era propriamente um rosto sorridente.

Como era o ambiente na EPC nesses anos conturbados depois da revolução de 25 de Abril?

A arma de Cavalaria foi uma descoberta interessante na minha vida. A Cavalaria em Santarém não se perturbou. O capitão Salgueiro Maia pertencia ao COPCON (Comando Operacional do Continente) mas assumia integralmente a sua disciplina como homem da Cavalaria. Era seriíssimo no comando dos seus homens. Na relação com o pessoal não víamos outra coisa que não fosse respeitabilidade para com ele e dele connosco. Encontrei na Cavalaria militares que não eram uns militares quaisquer. Eram pessoas com fibra, com personalidade, com ideais e sentido de disciplina, com aquela distinção muito clara de que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque.

Na EPC não se viveu a confusão que se viveu noutras unidades militares.

Nunca! Estava na Cavalaria quando me habilitei a tirar a carta de condução militar. Fui admitido e tive de ir a Lisboa, a um quartel no Campo Grande, tirar a carta. Quando lá cheguei vi militares fardados com barbas e cabelos compridos… Que diferença! Aquilo em Santarém não era permitido! Em plenos 1975 e 1976, aqui não houve perturbação a esse nível. O alferes que encontrei à frente do meu pelotão durante a especialidade era uma figura que nos tratava de tal modo que ninguém se atrevia a desobedecer-lhe. O estilo da relação que estabelecia era de tal maneira elevado que não dizia um palavrão. Tratava-nos por senhor a todos. Foi para mim um exemplo de liderança humana de grande beleza.

Uma vocação que ganhou consistência em Santarém

Tomou em Santarém a decisão de seguir a vocação sacerdotal por alguma razão específica ou foi meramente casual?

Há um contexto. Eu já tinha uma experiência como jovem cristão em Alcobaça. Foi com um padre do seminário que convidou dois rapazes de cada paróquia daquele concelho e reuniu-os em grupo para fazerem uma observação da realidade social e interpretá-la à luz do evangelho. Isso criou alguma sensibilidade naquele grupo de rapazes. Quando vim para Santarém, aos 21 anos, para cumprir o serviço militar não conhecia ninguém da sociedade civil.

Era uma cidade completamente estranha para si?

Sim. Conhecia apenas os colegas da EPC. Nesse contexto, pedi a esse padre meu conhecido que me indicasse se havia alguém com quem pudesse conversar. Ele aconselhou que me dirigisse ao seminário, pois iria ser bem recebido. Assim aconteceu. Conheci os padres, alguns deles ainda cá estão, conheci também o primeiro bispo da diocese e depois disso fiz uma boa descoberta, que foi a Igreja de São Nicolau, com o padre Bento a celebrar missa todos os dias às sete da tarde.

Depressa se integrou na comunidade ligada à Igreja.

Sim. Conheci depois a Casa Andaluz, das servas da Nossa Senhora de Fátima, onde me convidaram a participar num grupo de oração, e tive depois o convite do padre Cândido para integrar um grupo de jovens que se reunia nas instalações da diocese. Acabei por arranjar grupos de referência aqui na cidade, o que me fez sentir bem.

A vocação sacerdotal não surgiu já um pouco tardia?

Uma coisa é a fé católica que se alimenta do ritmo tradicional, outra coisa é começar a fazer uma leitura da realidade, da vida humana, da sociedade, do mundo à luz da fé. E isso começa a interpelar-nos, a mexer connosco. Foi o que me aconteceu depois dos 18 anos. Alguém na Igreja me ajudou a criar sensibilidade para a problemática do mundo. E é neste contexto que um padre, chamado Joaquim Duarte, me convida a aprofundar a vocação na perspectiva do sacerdócio.

E como reagiu?

Estranhei. Achei que esse convite não me assentava bem. Pensava ter uma vida diferente em termos profissionais, familiares, de constituir uma família…

Tinha namorada na altura?

Sim, tinha uma pessoa lá da terra. Foi um momento complexo. Em Outubro de 1976 acabei o serviço militar e não sabia o que fazer a seguir. Tinha um emprego à minha espera - trabalhava num pronto-a-vestir - e dois capitães da Cavalaria insistiram comigo para que fosse para a Academia Militar. Eu tinha para onde ir, mas não me saía da cabeça a proposta que o padre me tinha feito. E foi a que venceu…

Presumo que tenha sido uma escolha difícil.

Muito difícil. Foi das mais difíceis da minha vida. Porque havia a insegurança de não ter a certeza que tinha vocação para ser padre. Decidi cortar com a minha vida para aprofundar, para saber se… Pus em causa propostas boas e fui correr um risco enorme.

Como é que os seus pais encararam a escolha?

O meu pai já tinha falecido quando tomei essa decisão. A minha mãe reagiu com espanto, tal como as minhas irmãs. Porque na altura o ambiente geral não levava a pensar uma coisa dessas, não era convidativo, e eu também nunca lhes disse que andava a pensar nisso. Só lhes disse quando tinha já decidido.

Nunca se arrependeu ou teve quebras de ânimo ao longo do seu percurso ligado à Igreja?

O percurso académico foi duro. Não é fácil a um jovem que fez o curso comercial ir para a universidade onde tem que estudar grego, latim, hebraico… Estava mais descansado atrás de um balcão a atender clientes.

O consumismo tomou conta da realidade

Já tem ideia de como vai passar a sua noite de Natal?

Já. Vou jantar no lar de idosos do Centro Interparoquial de Santarém, antes da missa. No dia de Natal espero almoçar com alguns padres idosos aqui da casa.

O Natal hoje está muito associado ao consumismo. Vivemos num tempo de penúria espiritual?

Não diria tanto mas vivemos tempos de alguma pobreza espiritual. A certa altura, o consumismo abafou e tomou conta da realidade. E com isso perdemos gosto pela dimensão espiritual, perdemos capacidade de ter alguma felicidade com coisas simples. Já não valorizamos o que é simples, tornámo-nos muito exigentes. Entrámos num ambiente insaciável. Claro que tem que haver festa mas tenho pena que se perca a dimensão da festa mais simples ou que se desista de a fazer porque não se tem posses para tal. Na minha infância, no meio da pobreza também havia festa.

Que memórias guarda desses tempos?

Uma das coisas mais engraçadas era fazer os fritos de Natal. Eu era sempre expulso da cozinha. Era o único rapaz no meio de quatro raparigas.

Alguma vez acreditou no Pai Natal ou nesse tempo nem se falava nisso?

Na altura não havia o Pai Natal, era o menino Jesus que dava as prendas. Mas devo dizer que nalguns casos de que me apercebi nesta longa caminhada vi com preocupação esta questão comercial. A certa altura vemos gente com a pressão de gerir o que é o limite das prendas. Há que voltar a ser simples, uma pessoa não se pode tornar escrava disso. Apetece-me dizer que Deus não veio ao mundo para isto. (risos)

O dinheiro investido pelos municípios nas iluminações e actividades relacionadas com o Natal é um bom investimento?

Essas iluminações podem dar graça às ruas e os comerciantes acham graça terem as ruas iluminadas. Dá um ar de festa. O que me preocupa é o vazio espiritual, que as pessoas não vivam a alegria de acreditar que o Natal é sempre uma oportunidade que Deus nos dá de renovação. Há uma densidade espiritual de novidade, de alegria, no Natal. As luzes também podem ser sinal disso? Podem! Mas há mais do que isso.

Veio para uma região onde a cultura tauromáquica tem grande implantação. Já assistiu a alguma corrida de toiros? O que pensa dessas manifestações?

Tenho respeito e consideração pelos costumes culturais. Vi ao longo da minha vida três ou quatro corridas de toiros ao vivo. Não sou um afectuoso da actividade mas reconheço de facto alguma arte, sobretudo dos cavaleiros, e acho graça ao desafio do homem perante a força bruta do animal. Não se trata de se querer fazer mal aos animais mas sim da arte de lidar com a força do animal.

Traquina só de nome

D. José Traquina nasceu a 21 de Janeiro de 1954 em Évora de Alcobaça, distrito de Leiria. Ordenado padre em 1985 e nomeado bispo auxiliar de Lisboa em 2014, apenas em Junho deste ano é que foi ordenado bispo. O novo bispo de Santarém é mestre em Teologia Pastoral pela Universidade Católica Portuguesa, esteve vários anos ligado à preparação dos candidatos ao sacerdócio e integrou a equipa formadora do Seminário de Almada e do Pré-Seminário de Lisboa.
Filho de uma família numerosa e humilde ligada à agricultura, foi o único rapaz dos cinco filhos do casal. Homem de trato simples e sorriso fácil, não é um estranho absoluto em Santarém, cidade onde cumpriu o serviço militar e decidiu o seu percurso de vida ligado à Igreja.
O apelido curioso que tem não corresponde ao carácter, diz. “O meu professor primário dizia que a memória que tinha de mim em criança era a de um rapaz pacífico, quando os meus colegas se desentendiam lá na escola ele incumbia-me de promover a concórdia entre os dois”, conta.

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