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“Na província somos obrigados a saber um pouco de tudo”

“Na província somos obrigados a saber um pouco de tudo”

Salomé Archer Mendes é notária privada em Benavente

Edição de 21.12.2017 | Três Dimensões

Salomé Archer Mendes nasceu em Coimbra, numa família ligada ao Direito. Hoje é notária privada em Benavente e considera-se completamente enraizada no Ribatejo. É fã da tauromaquia e tem nesse meio muitos dos seus clientes. Quando pode apoia as instituições da terra que a acolheu de braços abertos e de onde já não pensa sair.

Tenho memória fotográfica por isso decoro tudo o que leio. Na 1ª classe tinha uma professora que não estava habilitada a dar aulas e que nos batia se errássemos. Como tinha medo de ser repreendida e ela não conseguia ensinar-nos a ler, aprendi a decorar os textos associados às imagens e a saber o que tinha de dizer quando ela perguntava.

Ainda hoje sou capaz de decorar um documento inteiro desde que seja em papel. No computador posso ler dez vezes que não consigo decorar, por isso imprimo tudo. Quando vou a conduzir treino a memória ao decorar as matrículas dos carros com que me cruzo.

Quando era pequena sonhei ser cantora só que a minha voz era péssima. Gostava muito de música tradicional, do folclore e também da música francesa. Como não tinha talento para ser artista escolhi seguir Direito.

O meu pai disse-me que só me pagaria os estudos se eu entrasse numa faculdade pública. Se quisesse entrar para uma privada teria de ser eu a pagar. Vou ter a mesma postura com o meu filho Frederico. Quero que ele fique no público porque lá o ensino é melhor e é preciso mais esforço para ter bons resultados.

A minha avó é a advogada com a inscrição mais antiga de Portugal. A minha família está muito ligada ao Direito. Eu escolhi o notariado porque há uma maior proximidade com as pessoas. Como gosto de trabalhar sozinha e quis começar “do zero” e sem influências de ninguém, decidi que não queria ficar a viver e trabalhar em Coimbra. Passei por Évora, pelo Montijo, por Salvaterra de Magos e Alpiarça e finalmente vim para Benavente.

Gosto mais de trabalhar na província porque há um maior contacto com as pessoas. Eu sinto que posso dar-lhes mais porque as populações estão mais desprotegidas e precisam de um maior aconselhamento. Em Lisboa há muitos notários e advogados, mas na província não tanto, além de que é na província que surgem os casos mais difíceis, que nos obrigam a saber um pouco de tudo.

Tudo o que tenho hoje no meu cartório foi conseguido a partir do zero. O negócio começou pequenino e foi crescendo com muito suor e trabalho. Entretanto consegui mudar a mobília com que comecei e doei a antiga aos Bombeiros de Benavente, tal como tento apoiar outras instituições de cá.

Acredito que se não passarmos dificuldades na vida não evoluímos. Se tivesse ficado em Coimbra teria tido muitas facilidades na carreira, mas não me ajudaria a evoluir, que foi o que quis ao vir para Benavente. E uma das principais dificuldades que passei foi para ser mãe. Tentei engravidar durante dez anos antes de ter o meu primeiro filho, Frederico, que hoje tem nove. Os médicos diziam-me todos que nunca ia conseguir ser mãe, e isto só prova que nunca podemos desistir, mesmo quando nos dizem que não.

Para 2018 tenho o objectivo de ter um dia por mês de aconselhamento gratuito no cartório. Pretendo ajudar quem não tem possibilidades de pagar. Para 2019 tenho outro objectivo: fui convidada pela Universidade de Coimbra para escrever um livro de casos práticos da minha carreira como notária.

Como trabalho quase todos os fins-de-semana os meus passatempos são muito reduzidos. Aproveito ao máximo para estar com os meus filhos e o resto da minha família, para passear com eles e ir visitar locais de que gostamos. Também gosto muito de caminhadas na serra, mas o meu hobby preferido para descontrair é a cozinha. E sempre que posso vou a uma corrida de toiros que é algo que adoro.

Aproveito para viajar sempre que posso. Quando há congressos dentro da área da minha profissão vou. Já viajei pela Europa e por outros continentes e tenho amigos em vários países, com os quais troco conselhos de trabalho. Fazemos amigos novos a vida inteira mas ainda mantenho amigos de há 40 anos.

Em Coimbra estamos melhor servidos a nível hospitalar mas em Benavente tenho melhor qualidade de vida. Se estivesse em Coimbra teria um maior apoio da minha família, mas em Benavente tenho uma maior proximidade e sinto que posso fazer mais pelos meus clientes. Todos os dias aprendo algo novo com os casos que vou acompanhando e tento sempre aperfeiçoar-me porque temos algo a aprender com todas as pessoas com que nos cruzamos.

Apesar de acompanhar as notícias dos meios nacionais, acompanho sempre mais os meios regionais. Gosto muito de jornais em papel e tenho-os sempre em casa para os meus filhos se habituarem ao toque e passarem a gostar também.

“Na província somos obrigados a saber um pouco de tudo”

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