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O único sapateiro de Alcanena acredita na profissão e quer formar jovens
Recomeço. Carlos Carvalho vive hoje a segurança e o conforto da família

O único sapateiro de Alcanena acredita na profissão e quer formar jovens

Foi empresário do ramo da electricidade no Cartaxo, esteve emigrado no Brasil e refez a vida em Alcanena dedicando-se ao calçado. Repara sapatos, botas e outros artigos e não está arrependido da escolha. Até porque a concorrência praticamente não existe.

Edição de 28.12.2017 | Sociedade

Carlos Carvalho é o único reparador de calçado do concelho de Alcanena e apesar de ter abraçado a profissão há apenas cinco anos acredita que pode formar jovens para a actividade que está em vias de extinção. Natural do Cartaxo, tinha uma empresa de electricidade com 24 trabalhadores. A crise económica de 2008 trocou-lhe as voltas e aos 35 anos foi obrigado a encerrar a empresa, porque alguns clientes a quem prestou serviços ficaram a dever-lhe cerca de 770 mil euros.
Casado com uma jovem enfermeira de Alcanena, e já com dois filhos, tentou a sorte no Brasil, em Recife, onde esteve três anos a liderar uma equipa de trinta trabalhadores numa empresa de electricidade. A esposa, Olga Carvalho, mudou a residência do Cartaxo para Alcanena, para que os pais a pudessem ajudar a cuidar dos filhos, já que, sendo enfermeira no Hospital de Santarém, tinha de passar noites a trabalhar e precisava de ajuda.
Carlos Carvalho contou a O MIRANTE que a experiência no Brasil foi avassaladora: foi assaltado seis vezes, uma delas com uma arma apontada à cabeça, o que o fez repensar os objectivos e optar por regressar a Portugal, onde a segurança e o conforto da família lhe garantiam o futuro.
Regressou e instalou-se algum tempo em casa dos sogros, em Alcanena. O sogro, António Magro, reputado reparador de calçado, profissão que já herdara do pai, convidou-o a aprender a arte, abrindo-lhe a porta para uma segunda oportunidade profissional “que nunca até então, pensara abraçar”.
A experiência correu bem, e Carlos garante que “adora o que faz, porque faz com muito gosto e dedicação”. O sogro reformou-se entretanto e, actualmente, Carlos, com 44 anos, é um sapateiro muito acarinhado e requisitado pela população do concelho de Alcanena.
“Tenho clientes que me visitam todos os dias, gostam de desabafar os seus problemas e eu sou bom ouvinte”, diz Carlos. Apesar da oferta ser muita, assegura que as pessoas preferem mandar reparar calçado de que gostam, do que simplesmente comprar novo. As senhoras também procuram os seus serviços para reparar malas, ou outros artigos em couro, e há quem mande fazer malas personalizadas.
Os preços que pratica estão ao alcance de qualquer bolsa. “Por ser o único a exercer esta profissão, podia inflaccionar os preços, mas o respeito que tenho pelas pessoas impedem-me de trabalhar nessa base”, refere Carlos, exemplificando que umas capas nuns sapatos ficam a 4 euros, e às vezes há pequenas reparações, como colar, ou coser um sapato, ou um cinto, que nem sequer entram nas contas.
Filho quer seguir-lhe as pisadas
Carlos Carvalho gostaria de abrir uma loja de reparação de calçado na sua terra, o Cartaxo, e até talvez alargar a outras localidades, mas essa pretensão passa por formar jovens na profissão. Um objectivo difícil, reconhece Carlos, porque os jovens não estão motivados para uma profissão que está em vias de extinção. No entanto, acredita que com algum tempo e paciência vai conseguir convencer alguns jovens a escolherem a profissão, que considera muito gratificante.
“É preciso gostar e ter alguma habilidade”, diz Carlos, mas o contacto com as pessoas e as amizades que se fazem compensam as dificuldades. Trabalha até bastante tarde, porque o dia de expediente é para atender os clientes. O rendimento não enriquece os bolsos mas aquece a alma. “Há coisas boas e outras mais difíceis, como em todas as profissões”, sublinha, convicto de que vão aparecer candidatos para aprender. O filho, de 13 anos, quer seguir-lhe as pisadas, depois dos estudos. O pai apoia e garante que a formação, qualquer que ela seja, não é impeditiva de exercer qualquer profissão, mesmo que seja pouco considerada.
Muitos clientes, em particular os que vivem sozinhos, também o procuram para aliviar a solidão e partilhar um café. “É gratificante esta proximidade que se constrói nas coisas mais simples”, diz Carlos, que depois das experiências menos boas por que passou, reconhece que é preciso muito pouco para tornar a vida dos outros menos amarga.

O único sapateiro de Alcanena acredita na profissão e quer formar jovens

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