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Reclusos de Torres Novas participaram na animação da Festa de Natal para os filhos
Emoção. Alguns presos puderam celebrar o espírito do Natal com os seus pais

Reclusos de Torres Novas participaram na animação da Festa de Natal para os filhos

Um dia excepcional em que pais puderam conviver a sério com as suas crianças. Livros para colorir e alegres histórias infantis para esquecer as negras histórias da vida. Convívio de Natal entre os reclusos da prisão de Torres Novas e os seus filhos.

Edição de 28.12.2017 | Sociedade

A festa de Natal dos filhos dos reclusos do estabelecimento prisional de Torres Novas foi no dia 21 de Dezembro. Houve alegria, emoções, beijos, abraços e também tristeza e lágrimas na hora da despedida.
À hora marcada as portas abriram. O grau de saudades podia ser medido pelo calor dos abraços e beijos e pela amplitude dos sorrisos. Havia quem já estivesse sem se ver há meses.
As crianças, umas ao colo e outras de mãos dadas avançaram para o almoço natalício. Primeiro o tradicional bacalhau com batatas cozidas e couves. Depois as filhoses e o bolo-rei.
O primeiro momento de brincadeira foi o momento das pinturas faciais. A filha de Sérgio Fernandes, que está preso preventivamente há quatro meses, pediu que lhe desenhassem uns corações nas bochechas. O filho mais novo de Telmo Vasco, preso há um mês, quis uma máscara de um super-herói. O clima de alegria entre pais e filhos era contagiante.
Porque a festa era para os seus filhos, os reclusos não podiam deixar de participar. Sérgio Fernandes colocou uma capa negra e um gorro natalício enquanto Telmo Vasco vestiu um fato de duende que lhe assentava que nem uma luva. As alunas da Escola Profissional de Torres Novas colocaram-se nos seus lugares para a sessão de dança e a música começou. A filha de Sérgio foi das primeiras a levantar-se para dançar. Atenta aos passos das jovens estudantes, a criança de sete anos vai tentando replicá-los e cantando as músicas do Panda e dos Caricas. Já os outros mantém-se sentados num cobertor colocado no chão.
Depois da música e danças seguiu-se a teatralização de contos infantis. Os reclusos são os actores. Em palco estão a mãe Natal, o lobo mau e há também dois duendes que contam as histórias dos três porquinhos e do capuchinho vermelho, enchem balões, fazendo com eles flores e espadas, até aparecer o pai Natal. Este ano dá as prendas são livros para colorir.
Mas tudo tem um fim. O guarda prisional eleva a voz para dizer: “É para ir para dentro!”. Sérgio abraça forte a filha e começa a chorar. É o momento mais difícil do dia. À medida que as lágrimas vão caindo, a criança vai limpando-as do rosto do pai enquanto vai dizendo que se vai portar bem. Afinal só tem sete anos e ainda não percebe bem a situação. Já Telmo aproveita para dar um último beijo a cada um dos filhos de dez, sete, cinco e um ano. Tão cedo não os voltará a ver.

Entre o arrependimento e a revolta
“Foi maravilhoso estar com os meus filhos. Não há palavras para descrever o que sentimos. Só quem passa por isso é que sabe”, confessa Telmo Vasco a O MIRANTE. Para o jovem de 26 anos, do Entroncamento, esta é a única forma de estar com quem mais gosta. “Estas festas são especiais porque consigo estar com os meus filhos e podemos brincar à vontade”.
A cumprir 10 meses de prisão por furtos a estabelecimentos comerciais, o recluso admite que hoje está na prisão porque mereceu mas, está arrependido. “Na altura consumia cocaína e não sabia o que fazia e os meus filhos sofreram muito, especialmente o mais velho que já percebia tudo”, adianta. Quanto ao dia de Natal, confessa que não sabe como vai ser. Apenas tem a certeza que vai sentir muito a falta da família.
O mesmo refere Sérgio Fernandes. “Não pertenço aqui a este sítio. Devia estar neste momento com a minha filha e não estou”, desabafa o jovem de 36 anos, de Abrantes. Preso preventivamente desde Agosto por tráfico de droga, Sérgio confessa que é muito triste passar o dia de Natal atrás das grades. É por isso que estas festas são essenciais.
“É óptimo ter esta oportunidade de estar com a minha filha. Nestes quatro meses só consegui estar com ela uma vez durante uma hora. Foi muito importante para mim”, afirma, acrescentando que na prisão só têm direito a cinco minutos diários para falarem com a família e duas horas ao fim-de-semana e aos feriados para estarem com ela. E por isso, perdem muita coisa. “É muito triste mas temos de aguentar por eles”, admite Sérgio enquanto faz uma pausa suspirando.

Presos compraram coisas para a festa com o dinheiro do seu trabalho

Os reclusos do estabelecimento prisional de Torres Novas querem que não falte nada na mesa na véspera e no dia de Natal. Leitão, filhoses, bolo-rei, foram comprados com o dinheiro que recebem do seu trabalho nas câmaras municipais e nas oficinas da prisão.
“Eles ganham o seu ordenado e depois fazem sempre um ‘pé-de-meia’ entre eles para comprarem estes extras nestas alturas”, conta a directora do estabelecimento prisional de Torres Novas, Paula Quadros. Quanto ao bacalhau com as batatas e o peru, é fornecido pela empresa fornecedora de refeições. “Só falta mesmo o principal: a família”, admite.

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