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“Os hospitais do distrito não têm condições para tratar urgentemente doentes cardíacos com enfarte agudo do miocárdio”

“Os hospitais do distrito não têm condições para tratar urgentemente doentes cardíacos com enfarte agudo do miocárdio”

Jorge Guardado, médico especialista em cardiologia no Hospital de Leiria e na sua clínica privada em Riachos, concelho de Torres Novas, vive entre bisturis e cateteres há cerca de 11 anos. Um apaixonado pela profissão que sempre conseguiu lidar com a pressão de ter nas mãos a vida dos seus doentes.

Edição de 03.01.2018 | Identidade Profissional

Nascido e criado em Riachos, Jorge Guardado passou uma infância feliz jogando à apanhada, ao berlinde e ao pião e dedicando-se aos estudos. “Sempre fui aplicado e tinha boas notas”. E não foi só na escola que se destacou com bons resultados. Também no futebol mostrou ter jeito para a bola tendo pertencido à selecção distrital de sub 15 e jogado nos juniores da Académica de Coimbra. Foi na altura em que, com 16 anos, foi viver para a cidade dos estudantes e terminou o ensino secundário.

Entretanto, como tinha notas elevadas, decidiu concorrer para medicina e entrou. Terminou o curso em 1995 e foi fazer 18 meses de internato geral nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), período obrigatório para adaptação à vida profissional e para que o médico pudesse escolher que especialidade seguir. Quando terminou, fez o primeiro exame de acesso à especialidade no final de 1997 e entrou para medicina interna (internato complementar) nos HUC mas não chegou a terminar. Decidiu retomar os livros e escolher outra especialidade que mais tivesse a ver com ele. Concorreu e entrou finalmente no internato de cardiologia no Hospital Garcia da Horta, em Almada, especialidade onde viria a vingar.

“A cardiologia é muito especial pois, trabalhamos com um dos órgãos vitais do corpo humano, o coração”, diz o médico de 46 anos. No último ano de internato, após ter ganho uma bolsa da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, esteve no Hospital Universitario Rey Juan Carlos, em Madrid (Espanha) para formação e treino em cardiologia de intervenção. Em 2006, realizou o exame final e acabou com nota máxima. A partir daí, continuou no Hospital Garcia da Horta como cardiologista, tendo-se dedicado especialmente à parte da intervenção cardíaca por cateterismo cardíaco, e abriu também a sua clínica em Riachos, que conta actualmente com quatro cardiologistas e várias outras especialidades.

Hospitais da região sem salas de cateterismo e intevenção coronária
Jorge Guardado não tem dúvidas em afirmar que o número de cardiologistas com mérito é elevado, mas, neste momento, nem o Hospital de Santarém nem o Centro Hospitalar do Médio Tejo têm apostado nessa área. “Os hospitais do distrito de Santarém não têm nem cardiologistas de intervenção nem salas de hemodâmica para tratar doentes coronários”, afirma, referindo que, geralmente, os pacientes são enviados para os estabelecimentos de saúde de Lisboa o que “atrasa o tratamento no momento certo e gera altos custos para o próprio Estado”.


Para o médico de Riachos, não faz sentido os estabelecimentos de saúde do distrito abrangerem mais de meio milhão de habitantes e não terem uma sala de intervenção cardíaca para resolver de uma forma rápida os problemas dos doentes coronários, sendo esta uma das doenças que mais mata em Portugal. “Custa-me bastante estar aqui perto do Hospital de Santarém e do Centro Hospitalar do Médio Tejo e ter de ir até ao Hospital de Leiria para tratá-los porque enviaram os doentes para lá”, admite.

Alegrias e tristezas do exercício da profissão
Histórias é o que não falta ao médico de 46 anos que já chegou a fazer num ano 330 intervenções cardíacas por cateterismo e mais de 500 diagnósticos. Uma vez, conta, foi chamado para uma urgência no Hospital de Leiria. Era um jovem militar de cerca de 30 anos que tinha tido um ataque cardíaco em Tomar e quando chegou ao estabelecimento de saúde estava quase em morte clínica. Felizmente, em poucos minutos conseguiu-se desobstruir uma das artérias principais do coração e o jovem salvou-se. Hoje, e porque teve uma recuperação brilhante, não se encontra nos exames complementares nenhuma sequela visível daquilo que lhe aconteceu.


Mas também há histórias infelizes para contar. Uma vez, recorda-se, foi transferido um doente de meia-idade do Hospital de Abrantes para Leiria numa situação de choque cardiogénico (falência já completa do coração). A intervenção cardíaca durou cerca de três horas e quando terminou, já depois de reposto o fluxo da artéria coronária “entupida”, o doente teve uma paragem cardíaca na sala e não sobreviveu.

“Os hospitais do distrito não têm condições para tratar urgentemente doentes cardíacos com enfarte agudo do miocárdio”

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