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O estranhíssimo caso do croquete fugitivo 
Pedro Barroso foto arquivo O MIRANTE

O estranhíssimo caso do croquete fugitivo 

O cantor Pedro Barroso enviou-nos este bem humorado texto, antecipando o que poderá vir a acontecer depois da recente decisão do Governo de proibir os salgados, produtos de charcutaria, bolos, refrigerantes e sandes com molhos nas cafetarias das unidades de saúde públicas no âmbito da promoção da alimentação saudável. E avisa: “Esta história de fascismo sanitário tem um fim triste, advirto já as almas mais condoídas e susceptíveis”.

Edição de 11.01.2018 | Sociedade

Era uma vez um croquete. Era feito de carnes honradas e macias, temperado com saber e mestria, filho de uma cozinheira competente e uma sertã de bons alumínios, frito em óleos de girassol do Ribatejo, sem antecedentes criminais.
Cumpria a sua função de ajudar a saciar o ratito e envergonhar a fome. Um espécie tímida de lanche, a meio da tarde. Coisa que todos julgávamos fugir à norma determinante do controle público sanitário.
Por vezes, surgia também uma provocante patanisca, um queque convencido, ou um sugestivo pastel de arroz. Um sumo. Tudo porcarias, claro. Venenos identificados. Verdadeiros assassinos!
Ah, mas hoje, está previsto; nem eu - nem uma criança que visite o pai, o primo ou a avó no hospital...- não mais poderemos comer porcarias dessas. Fim a todo este clima de relaxe cultural e de sórdida gula. Tudo banido por decreto. Fantástico!
Mas continuemos, então. Acusado de vício, o pobre excomungado croquete disse-me que teria de emigrar para a tasca mais próxima, coitado. Pediu-me para nunca o esquecer e para um dia, se pudesse, ir lá visitá-lo.
Nela passaria a ter coutada marginal, apenas servido a crónicos abusadores de colesterol e perigosos consumidores de minis, chamuças, rissóis, pregos e outras repelentes iguarias. Tudo coisas a pedir urgente proibição em nome da moral e da ordem pública! Ali não. Um sítio público; que escândalo.
Pensei no convite que me fizera e lá fui visitá-lo. Proibido, vetado, o meu amigo croquete estaria decerto a sentir-se isolado, deprimido. Estava preocupado com isso. Entrei na tasquinha clandestino, de óculos escuros e chapéu tombado sobre o rosto. Sentia vergonha de frequentar um espaço assim, de pecado alternativo e tão publicamente proibido. E espreitei, com medo, confesso, do que fosse encontrar.
Afinal, apresentou-se nitidamente mais alegre, quente e robusto; gorducho, bronzeado, acabadinho de sair da fritadeira, perfumado, roladinho em pão ralado e visivelmente bem-disposto. Irresistível, mesmo. Gostou de me ver, sorriu-me. Mas o nosso namoro foi breve. Pisquei-lhe apenas o olho e disse-lhe que subisse ao balcão.
Foi depois que tudo aconteceu. Tragédia e vício. Drama passional. Confesso. Ao mastigá-lo, ainda senti breves remorsos sanitário depressivos. Mas apenas estava a fazer um favor de eutanásia anunciada a um amigo de longa data. Coisas do sado-masoquismo. Há sempre pessoas que não compreendem. Mas soube-me bem agradar-lhe, triturando-o lentamente. Ambos gostámos, estou certo.
Tenho de reflectir sobre isto. Estas coisas preocupam-me. Juro que preocupam. Croquetes assim, nunca mais os vou encontrar na vida por aí. Maldito decreto. Choro de saudades. Afinal era amor.

O estranhíssimo caso do croquete fugitivo 

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