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“A nossa vontade era regressar a Alpiarça já hoje”
foto DR

“A nossa vontade era regressar a Alpiarça já hoje”

Nuno Peixinho e a esposa, Helena Mira, emigraram para o Luxemburgo há sete anos e conheceram uma realidade difícil, muito diferente da pintada por alguns emigrantes que voltam a Portugal nas férias. Nunca perderam o amor às raízes e por isso fazem questão de em casa só falarem português com os filhos.

Edição de 11.01.2018 | Tão longe e aqui tão perto
No Luxemburgo a vida dos emigrantes portugueses não é o mar de rosas que muitos imaginam. Nuno Peixinho, 41 anos, e a mulher, Helena Mira, 47, encontraram uma realidade muito diferente da que os emigrantes que vinham de férias a Portugal pintavam e custou-lhes adaptarem-se ao pequeno país onde já estão há sete anos.

Partiram quando a crise ganhou dimensão em Portugal e Helena começou a ter dificuldade em arranjar trabalho como empregada de limpezas. Nuno, que estava no Exército desde os 17 anos, deixou o emprego certo para trás para acompanhar a mulher até Schengen, onde já morava o irmão mais velho dela, e arranjou trabalho num restaurante. Manteve-se no ramo da cozinha e hoje é cozinheiro noutro restaurante, Il Leone Rosso, onde abraçou a profissão que a avó e a mãe também tiveram.

A diáspora não é novidade na família de Helena, natural de Alpiarça, que viu os cinco irmãos espalharem-se por várias regiões de França. O que vivia perto dela no Luxemburgo acabou por se juntar aos outros irmãos e até para lá foi o filho do primeiro casamento de Helena, Alexandre, de 27 anos. Apesar de não passarem dificuldades nem faltar comida na mesa, Nuno e Helena não têm posses para viajar e ainda não voltaram a Portugal desde que partiram: “Não vi o rosto da minha mãe durante cinco anos”, conta Nuno, que só conseguiu há dois anos comprar-lhe um telemóvel com capacidade para chamadas Skype, que são hoje a melhor forma de se manterem em contacto.

“Muitos portugueses endividam-se para irem a Portugal fingir uma vida que não têm”

Nuno alerta que embora a comida que se compra nos supermercados no Luxemburgo até possa ficar mais barata que em Portugal, ir jantar fora fica muito mais caro. As rendas de casa e impostos são também muito altos e os sistemas de aquecimento das casas ficam muitas vezes a cargo dos arrendatários. No entanto, e apesar de já ter sentido na pele temperaturas de dez graus negativos, Nuno avisa que o frio é mais difícil de suportar em Portugal porque é mais húmido.

Com o espírito de fazerem uma vida moderada e sem contraírem dívidas como as que deixaram em Portugal quando emigraram, e que ainda estão a saldar, Nuno e Helena não fazem grandes gastos. “A vida dos emigrantes portugueses cá no Luxemburgo não é como muitos contam quando vão de férias a Portugal. Conhecemos vários casos de pessoas que se endividam para irem aí fingir uma vida que não têm aqui”.

Nuno ganha hoje perto de dois mil euros e admite que embora o nível de vida no Luxemburgo seja mais caro do que em Portugal, é mais fácil levar uma vida sem dificuldades lá, onde o ordenado mínimo ronda os 1.800 euros, do que em Portugal. “Sinto que mesmo com as dificuldades que tivemos na adaptação tive sorte porque logo que cheguei encontrei trabalho e a minha mulher já tinha um certo quando veio”, acrescenta Nuno.

Alerta que essa é a forma mais segura de se chegar ao país porque hoje a emigração já não é vista como no passado: “Hoje pagamos pelo que também fizemos aos emigrantes de Leste. Também já somos olhados de lado porque muitos portugueses que vêm para o Luxemburgo apoiam-se demasiado na Segurança Social e acomodam-se”.

“Em casa só falamos português”

O único filho do casal, Gabriel, de nove anos, foi para Schengen antes de completar os dois e, por isso, a sua integração foi mais fácil que a dos pais, que não sabiam falar bem francês. Nuno tinha estudado a língua na escola, mas ainda hoje não gosta dela e prefere o inglês, que também é melhor visto no Luxemburgo: “Se falarmos português, fecham-nos automaticamente muitas portas. Se falarmos inglês, abrem portas, janelas, até portões, por isso muitas vezes tive de passar por inglês”.

Gabriel, que tem aulas em alemão e francês na escola, não teve dificuldade em adaptar-se à língua. Também sabe português porque em casa os pais e a irmã Daniela, 21 anos, também filha do primeiro casamento de Helena, só falam a língua-mãe. Contudo, e apesar de também saber falar, Gabriel não sabe ler e escrever em português e é por isso que os pais querem esperar até ele terminar os estudos antes de regressarem a Portugal:

“Nessa altura ele já não vai sentir tanta diferença no ensino de um país para o outro e nós também já vamos estar mais perto da idade da reforma, por isso vai ser mais fácil viver aí”, explica Nuno, que não esconde, contudo, que a vontade “é de voltar a Alpiarça já hoje!”.

“A nossa vontade era regressar a Alpiarça já hoje”

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