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“Os jovens saem dos centros de formação com alguma teoria e pouca prática”
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“Os jovens saem dos centros de formação com alguma teoria e pouca prática”

Alfredo Mendes é proprietário de uma gráfica em Santarém, actividade a que está ligado há mais de cinquenta anos.

Edição de 25.01.2018 | Identidade Profissional

Histórias para contar não faltam a Alfredo Mendes, proprietário da Tipotejo - Artes Gráficas, Lda., com sede na Zona Industrial de Santarém. Um estabelecimento com quase 51 anos de existência que não é mais do que a segunda casa do escalabitano de 71 anos. Embora Alfredo não viva só para o trabalho. Se em novo praticou futebol, atletismo e voleibol, de há dezassete anos para cá pratica BTT fazendo cerca de quatro mil quilómetros por ano.
Nascido e criado em Santarém, e o mais novo de seis irmãos, Alfredo Mendes nunca se esqueceu do dia em que disse ao seu pai, alfaiate de profissão, após terminar a quarta classe, que já não queria estudar mais e preferia trabalhar para ajudar nas despesas da casa. “Era uma altura muito difícil e o que o meu pai trazia para casa não chegava”, conta.
Foi então que, com onze anos, empregou-se na Ourivesaria Colaço, em Santarém, e recebeu o seu primeiro ordenado: 100 escudos por mês, ainda na antiga moeda portuguesa. Descansava ao domingo e tinha como funções, além de ir ao mercado e à mercearia, carregar com as compras feitas pela esposa do proprietário, limpar os vidros das montras e varrer a casa. “Era o chamado rapaz dos recados (o marçano) e não só”, admite.
Esteve nessa casa durante dezoito meses até que foi desafiado por um amigo e vizinho mais velho para ir trabalhar numa tipografia. Na altura, não fazia ideia do que era uma tipografia. Mas aceitou e começou como aprendiz na tipografia Dias Ferreira, em Santarém. Ficou a ganhar 6$50 por dia, muito mais do que o seu primeiro emprego mas também era um serviço mais sujo pois fazia as tarefas que os mais velhos não faziam. “Foi aí que comecei a ganhar gosto por este ofício e a destacar-me na composição manual. Tinha jeito para aquilo porque era um trabalho muito exigente e meticuloso mas ao mesmo tempo muito criativo”, confessa.
Ainda se manteve nessa tipografia durante cerca de três anos mas quis o destino que Alfredo Mendes, com 16 anos, se mudasse para a Gráfica de Santarém e, mais tarde, constituísse a sua própria empresa gráfica juntamente com três colegas mais velhos. “Eles queriam que fosse trabalhar como empregado mas eu propus que só ia como sócio e eles aceitaram”, explica, contando que um dos sócios desistiu prematuramente acabando mais tarde por vir a ser apenas empregado da empresa.
Esse não foi o único contratempo da tipografia Tipotejo. Como Alfredo Mendes tinha 20 anos e não tinha a tropa feita, sabia que iria necessariamente para o Ultramar. E foi o que aconteceu. Teve de cumprir a sua comissão na Guiné durante 22 meses até se poder dedicar definitivamente ao empreendedorismo.
Acompanhar a evolução tecnológica é fundamental
O escalabitano conta que os primeiros tempos foram difíceis. A lei industrial obrigava que tivessem pelo menos quatro máquinas de impressão (duas minervas e duas cilíndricas). “Comprámos as quatro, mas só duas delas funcionavam. Duas foram só para fazer vista porque sem isso não tínhamos autorização”, confidencia.
A empresa ia mais ou menos bem até que, em 1976, dá-se a saída de um dos sócios e, passados quatro anos, do outro sócio, ficando Alfredo Mendes sozinho à frente da Tipotejo até hoje. Admite que manter uma gráfica sempre foi difícil mas agora é muito mais. Dantes contava-se com a fidelização dos clientes, o que agora acontece pouco. “Não podemos estar de porta aberta à espera que os clientes apareçam. É necessário acompanhar a evolução tecnológica e estar em constante renovação do parque de máquinas e computadores”, afirma.
Um dos problemas com que Alfredo Mendes se tem confrontado é com a má preparação dos jovens que saem dos cursos de artes gráficas. O escalabitano sente que os recém-formados têm uma carência muito grande no que diz respeito à prática. O estágio que fazem nas empresas é insuficiente e estas depois não podem perder muito tempo a ensiná-los.
“Os jovens vêm dos centros de emprego com alguma teoria mas com pouca prática” e isso, na sua opinião, podia ser mudado se alterassem os currículos dos cursos, com aulas teóricas nos centros de formação e as aulas práticas nas próprias empresas, a troco de alguma compensação para estas.

“Os jovens saem dos centros de formação com alguma teoria e pouca prática”

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