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Indústria suspeita de poluir o Tejo continua com funcionamento condicionado

Inspecções detectaram também que uma ETAR de Abrantes não cumpre os parâmetros estabelecidos mas tal não seria suficiente para causar um grau de poluição como o que se verificou nos últimos dias de Janeiro.

Edição de 08.02.2018 | Sociedade

A actividade da fábrica de pasta de papel Celtejo, em Vila Velha de Ródão, vai continuar condicionada pelo Governo por mais 30 dias, após as análises feitas à água do Tejo terem relacionado a poluição da última semana de Janeiro com essa indústria.
Inspecções feitas na semana passada às várias fontes de descarga de efluentes no rio detectaram também que a ETAR da Fonte Quente, em Abrantes, não cumpre os parâmetros a que está obrigada, mas esses valores não seriam suficientemente expressivos para causar a mancha de espuma que se verificou no rio na zona de Abrantes a partir de 24 de Janeiro e que colocou a poluição do rio na agenda nacional. Já a ETAR de Mação e as unidades industriais Paper Prime e Navigator (em Vila Velha de Ródão) cumprem os valores a que estão obrigadas.
A Câmara de Abrantes já anunciou em comunicado que vai notificar a Abrantáqua, concessionária de águas residuais no concelho de Abrantes, “para proceder às devidas correcções”. A autarquia “refuta que uma situação que eventualmente tenha acontecido e que é de carácter pontual seja apontada como estando na origem do manto de espuma no rio, ocorrido nas últimas semanas”. E acrescenta que “não há descargas de ETAR´s urbanas capazes de provocar o que se tem assistido no rio Tejo”.
“Não consideramos os incumprimentos expressivos” na ETAR de Abrantes, disse por seu lado o inspector-geral da IGAMAOT (Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), Nuno Banza, no âmbito de uma conferência de imprensa de apresentação dos resultados das análises efectuadas aos efluentes das ETAR urbanas e industriais descarregados no rio Tejo.
Especificando: o incumprimento na ETAR de Abrantes verificou-se nos parâmetros de “sólidos suspensos totais, cujo limite é de 35 mg/l e a amostra revelou uma concentração de 55 mg/l, carência bioquímica de oxigénio, cujo limite é de 25 mg/l e a amostra revelou uma concentração de 33 mg/l, e carência química de oxigénio, cujo limite é de 125 mg/l e a amostra revelou uma concentração de 143 mg/l”.
No troço do rio Tejo entre Perais e Abrantes, foram identificadas quatro ETAR urbanas nos concelhos de Abrantes e de Mação e ainda três unidades industriais, designadamente Celtejo, Paper Prime e Navigator. Das ETAR e indústrias identificadas, a IGAMAOT deparou-se com “vários constrangimentos inusitados” na amostragem realizada na Celtejo (ver caixa), pelo que os resultados desta empresa de celulose “são esperados na próxima semana”, informou Nuno Banza.

Fábrica de Vila Velha de Ródão apontada como responsável
Na semana passada, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) revelou que a poluição que afectou o Tejo na zona de Abrantes, a 24 de Janeiro, teve origem nas descargas da indústria da pasta de papel da zona de Vila Velha de Ródão.
“O que estamos aqui a referir é que, com base nestas análises efectuadas, e na monitorização e acompanhamento efectuados, se confirma que o acumular da carga orgânica nestas localizações do rio, com origem nas indústrias de pasta de papel localizadas a montante, tem um impacto negativo e significativo na qualidade da água no rio Tejo”, afirmou Nuno Lacasta.
Segundo Nuno Lacasta, as análises efectuadas recentemente às espumas e às águas revelaram “valores muito elevados” relativamente a fibras celulósicas, “correspondendo a um aumento de cerca de 30 vezes relativamente aos apurados noutras amostragens”.

Recolha de amostras na Celtejo só à quarta tentativa

A recolha de amostras de efluentes na fábrica da Celtejo, em Vila Velha de Ródão, só foi possível à quarta tentativa e com o recurso a três inspectores em permanência durante 24 horas, disse o inspector-geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território.
“A recolha de amostras na indústria Celtejo teve por duas vezes problemas ao nível do colector automático que não recolheu o líquido por razões que desconhecemos. Na terceira tentativa, pedimos o apoio da GNR, do Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente e esse colector foi guardado. Durante 24 horas o colector funcionou, no entanto, apenas recolheu no final alguma espuma e muito pouco líquido”, declarou Nuno Banza.
“Não estávamos à espera que aquilo acontecesse, não só porque nunca tinha acontecido em mais lado nenhum como também nunca tinha acontecido na própria Celtejo”, afirmou Nuno Banza, indicando que os inspectores têm muita experiência, porque já recolheram “centenas, senão milhares”, de amostras através deste método.

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