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“É difícil cativar os jovens para este tipo de música tradicional”

“É difícil cativar os jovens para este tipo de música tradicional”

A Orquestra Típica Scalabitana (OTS), ex-libris da música popular do Ribatejo, foi fundada em 1946 pelo jovem maestro António Gavino, músico amador e autodidacta, autor da famosa “Marcha Ribatejana”. Assinala 72 anos de existência em 2018. O vice-presidente da OTS, Manuel Coelho, diz que a carolice de todos e a paixão pela música é o segredo da longevidade. O mais difícil, admite, é recrutar jovens para o grupo e renovar a equipa.

Edição de 01.03.2018 | Especial Retrospectiva

A OTS celebra este ano 72 anos. Qual foi o momento mais importante para a orquestra?

Talvez tenham sido os espectáculos que assinalaram o 68º e o 70º aniversário, em 2014 e 2016. Um com o tenor Carlos Guilherme e o outro com o guitarrista Custódio Castelo. Foram as actuações que fizemos que tiveram mais impacto e que tiveram maior adesão do público.

E o mais difícil?

Estarmos numa sala a actuar para vinte ou trinta pessoas e a pouco e pouco ficarem apenas três ou quatro na plateia. Foi um espectáculo num meio rural pequeno em que só subimos ao palco depois de ter sido feito um leilão. Estava muito frio e as pessoas foram-se embora antes de começarmos a actuar. No entanto, tocamos na mesma porque todas as oportunidades são boas para tocarmos em conjunto. Foi um ensaio ao vivo. Claro que quem está em cima do palco gosta de ter público a assistir.

Qual o segredo da vossa longevidade?

É a carolice de todos e termos em comum a paixão pela música. Além disso, damo-nos todos muito bem e somos próximos, como uma família.

Como fazem para renovar a equipa?

É o mais complicado. Durante muitos anos a orquestra teve os amigos do maestro António Gavino que vinham a Santarém para tocar com a Orquestra. Agora temos dificuldade em cativar pessoas, sobretudo jovens, porque existem muitas outras solicitações e eles também não aderem com facilidade a este tipo de música. Além disso, quando chega a altura de irem para a universidade a tendência é deixarem a orquestra. Neste momento, estamos a atravessar sérias dificuldades porque não estamos a conseguir fazer a renovação da equipa. Temos um jovem com 17 anos mas depois temos outros com 20 e 30 anos mas precisamos de mais gente. Tivemos durante algum tempo no Círculo Cultural Scalabitano uma escola de música mas com a falta de apoios e com a diminuição do interesse a escola fechou.

O que poderia ser feito para cativar os mais novos?

Algumas vezes seria importante os próprios jovens, entre si, motivarem-se e desafiarem-se a procurar a Orquestra para tocar instrumentos ou pertencerem ao coro. Não podemos obrigá-los e se eles não sentem entusiasmo para este tipo de música mais popular torna-se complicado cativá-los.

Se houvesse uma aposta maior no ensino de Música nas escolas públicas seria benéfico para colectividades como a OTS?

Uma parceria com o Conservatório de Música de Santarém seria o ideal. Já pensamos nisso algumas vezes para fazer um intercâmbio para os alunos conhecerem o funcionamento da orquestra. Nós portugueses somos muito fieis aos nossos hábitos mas não a todos. Se formos a Espanha, a Sevilha por exemplo, vemos pessoas na rua vestidas com trajes locais. As mulheres de sevilhanas ou os homens com traje campero. Em Santarém os jovens têm relutância em vestir-se assim e o facto da Orquestra trajar com roupas tradicionais também afasta os mais novos. Na nossa região, infelizmente, não se cultiva o uso de trajes antigos.

A Orquestra beneficiaria com uma direcção profissional e a tempo inteiro?

Não sei se o volume de actividades que temos o justificaria porque para existir uma direcção a tempo inteiro não poderia ser uma direcção amadora e isso iria ter encargos e sem receitas não podemos ter encargos. Que existam duas ou três pessoas com capacidade de decisão e espírito de iniciativa tudo bem mas a esse nível não era possível nem vantajoso.

A Orquestra poderia ser mais do que apenas uma secção do Círculo Cultural Scalabitano?

A Orquestra é uma secção desde o início. São muitas décadas que levam a que haja um laço afectivo. Não dependemos do Círculo a nível artístico ou cultural mas dependemos de forma afectiva. Se nos tornássemos independentes do Círculo poderíamos estar a dar um tiro no pé, como se costuma dizer.

Quantas actuações têm, em média, por ano?

Infelizmente, temos poucas comparando com o número de espectáculos que fazíamos há 10 ou 15 anos. Actualmente, são cerca de dez actuações por ano. A Orquestra actuava muito em festas populares e eram as associações que nos convidavam e pagavam. O problema é que de há alguns anos para cá os apoios têm desaparecido e essas associações já não têm possibilidades financeiras para nos pagar. Participamos algumas vezes em eventos de carácter solidário e suportamos nós as despesas para actuarmos em algumas iniciativas mas não pode ser sempre porque a Orquestra tem custos. Um traje, por exemplo, não custa menos de 300 euros e os apoios que recebemos não são assim tão elevados.

Estar na vice-presidência de uma colectividade com sete décadas de existência é muito exigente?

A orquestra tem um nome e não é um nome qualquer. Quando aceitamos pertencer aos órgãos sociais de uma entidade como esta temos que saber que acima de nós está a colectividade. Temos uma imagem a defender, defender a imagem da Orquestra, como se fosse a nossa família.

É fácil encontrar pessoas disponíveis para os cargos de direcção?

Isto requer tempo e as pessoas estão cada vez mais assoberbadas com a sua vida pessoal e profissional. Além disso, as pessoas também se sentem relutantes em assumir estes cargos porque dão trabalho e responsabilidade e não se pode falhar. Antigamente havia mais tempo e disponibilidade do que hoje em dia.

As pessoas estão cada vez mais desligadas do associativismo. Porquê?

As pessoas habituaram-se a ter tudo feito e não querem mais coisas que lhes dêem mais trabalho além do que já têm. Dedico algumas horas do dia à orquestra que podia dedicar a outras coisas minhas. Às vezes também me apetecia ficar no sofá em casa mas não pode ser. Assumimos compromissos e temos que os cumprir. É a paixão pela música que nos move.

Enquanto dirigente quais são as principais dificuldades com que tem que lidar no dia-a-dia?

Recordar as pessoas que há compromissos assumidos que temos que cumprir e isso requer trabalho e trabalho requer ensaios. No Inverno não apetece sair de casa e temos que incutir o interesse, o gosto e o sentido de responsabilidade de que as coisas têm que ser trabalhadas para quando chegar a altura o espectáculo correr bem. Um músico, por muito bom que seja, tem que trabalhar muito.

Qual a importância que o lançamento do livro sobre a história da Orquestra Típica Scalabitana tem para o concelho de Santarém e para a região?

Tem muita importância porque as pessoas estão habituadas a ouvir falar na orquestra na rádio ou a ler no jornal mas não sabem o que é que está por detrás de tudo desde o início, das histórias, das dificuldades por que passou para chegar onde chegou. E é um excelente arquivo de memórias para as gerações futuras saberem o que é e o que foi a Orquestra Típica Scalabitana.

Quais são os principais desafios que se colocam hoje?

Fazer mais e melhor. Isso só se consegue com trabalho, dedicação, amor e companheirismo entre todos. Temos que continuar a trabalhar, temos que nos valer das pessoas que temos, tentar angariar novas pessoas que venham enriquecer a orquestra. Inovar a equipa com mais capital humano e sobretudo jovens e pessoas interessadas. Refazer reportório. E nunca desistir porque quem desiste nunca ganha.

O ex-libris da música popular do Ribatejo

A Orquestra Típica Scalabitana (OTS), ex-libris da música popular do Ribatejo, foi fundada em 1946 pelo jovem maestro António Gavino, músico amador e autodidacta, autor da famosa “Marcha Ribatejana”.
Na época, António Gavino tinha muitos conhecimentos de música e piano e começou a compor. Além disso, pegava em vários temas populares e regionais e dava-lhes outra orquestração, sem fugir da raiz das músicas. Começou com uns amigos a tocar e houve adesão de outros músicos e assim nasceu a OTS, a primeira orquestra que Gavino teve.
Actualmente é constituída por orquestra e coro misto. Tem cerca de quarenta elementos, com idades compreendidas entre os 17 e os 73 anos. A OTS destaca-se por trajar a rigor. Os músicos envergam o traje de campino enquanto o maestro usa o traje de domingo do lavrador rico. No coro, os homens usam calça, colete e cinta pretos e camisa branca, ou seja, o traje de domingo do trabalhador do campo. As senhoras usam trajes mais diversos da região, como o das Mondadeiras de Coruche ou das trabalhadoras do campo da zona ribeirinha dos avieiros ou das zonas de Almeirim e Alpiarça.
Os músicos tocam bandolim, viola, guitarra portuguesa, violão baixo, acordeão, flauta, flautim, clarinete e bateria. A OTS dispõe de centenas de músicas no seu reportório, a maioria foram deixadas por António Gavino. A “Marcha Ribatejana” é a música mais popular da orquestra e que não falha em nenhum espectáculo. Desde a sua fundação tem vindo a desenvolver uma actividade contínua com importante papel na divulgação da música e da cultura ribatejana, tendo já actuado um pouco por todo o país e também no estrangeiro, nomeadamente Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Macau.
“O espectáculo mais importante em que participamos até hoje foi no Festival Internacional de Orquestras de Macau, em 1995. Foi um bocadinho antes da inauguração do Aeroporto de Macau porque tivemos que aterrar em Hong Kong e atravessar o rio de barco até Macau. Foi o evento mais marcante em que demos a conhecer o nosso trabalho”, recorda Manuel Coelho, vice-presidente da Orquestra Típica Scalabitana e que integra o grupo há 36 anos.
A Orquestra Típica Scalabitana é uma secção do Círculo Cultural Scalabitano e ensaiam pelo menos uma vez por semana – às sextas-feiras à noite – numa das salas do Teatro Taborda, no centro histórico da cidade de Santarém. Em 1996 a OTS foi distinguida com a Medalha de Ouro da cidade de Santarém pelo meio século de existência do grupo, pelo então presidente do município José Miguel Noras. Em Dezembro do ano passado foi lançado o livro “História viva de uma grande orquestra”, onde o antigo director da Orquestra Típica Scalabitana, Armando Paulo, condensou as histórias daquela que é a mais emblemática instituição de cultura tradicional da região.
Luís Rodrigues é o actual presidente da direcção e Manuel Coelho foi o número dois da lista, dada a sua experiência em anteriores direcções e também à sua disponibilidade uma vez que está reformado há cerca de cinco anos. A OTS tem um novo maestro. Abílio Figueiredo assumiu o cargo há cerca de um ano.
A aposta forte da Orquestra é na renovação do grupo que é aquilo que consideram que tem sido o mais difícil nos últimos anos. “Os jovens gostam de música mas não demonstram tanto interesse por orquestra e como têm outras alternativas torna-se complicado trazê-los para cá”, lamenta Manuel Coelho em entrevista a O MIRANTE.

“É difícil cativar os jovens para este tipo de música tradicional”

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