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“No dia em que se paguem ordenados a directores o associativismo morre”

“No dia em que se paguem ordenados a directores o associativismo morre”

Personalidade do Ano Desporto Masculino - Alhandra Sporting Club

O presidente do Alhandra Sporting Club, Rui Macieira, diz que a colectividade está bem e recomenda-se. O clube, situado à beira do Tejo, no concelho de Vila Franca de Xira é nos tempos actuais, uma máquina de fazer campeões de triatlo. O dirigente garante que o sucesso se baseia no trabalho e no facto de nunca ter vergonha de reclamar o melhor para a casa que dirige. Um dos maiores sonhos continua a ser a construção de um moderno campo de futebol que substitua o velho campo da Hortinha que está em funcionamento desde 1922. João Lourenço, António Soares, João José, Joaquim Carmo e Isabel Macieira são outros dos rostos dos órgãos sociais da colectividade.

Edição de 01.03.2018 | Especial Retrospectiva

O Alhandra Sporting Club (ASC) foi fundado em 1921. O que motivou as gentes da altura para se formar um clube?

Foi fundado principalmente para apoiar todos os miúdos da nossa vila que não tinham nada para os seus tempos livres. A partir daí as coisas começaram a ganhar velocidade e passados uns tempos já não havia só futebol mas também andebol, ginástica, ténis de mesa e outras modalidades. Construímos uma piscina e logo começaram a aparecer novos valores na natação. Além do Baptista Pereira, que é a nossa referência, também tivemos o Carlos Vieira da Silva e o João Carvalho. Depois tivemos a vela, com valores muito bons como o Valada de Sousa e o Pedro Cavaco. Na canoagem tivemos o Rui Câncio, muito medalhado internacionalmente. Agora vivemos o auge do triatlo, de onde saiu a Melanie Santos e o João Pereira. Para mim as pessoas que fundaram o ASC foram como o Marquês de Pombal: conseguiram ter uma visão de futuro e perceber o que era preciso fazer em Alhandra.

Na génese da fundação do clube esteve também uma tentativa de combater a poluição que na altura era quase insuportável.

Sim, a poluição da fábrica foi um dos causadores da fundação do clube. As pessoas criavam os filhos e pensavam logo que eles tinham de sair dali porque o ar era irrespirável. Ainda hoje em dia temos episódios. Devia despoluir-se Alhandra. Não apenas o ar que se respira mas também os terrenos da antiga Cimianto (fábrica de fibrocimento). E temos a poluição do Tejo e o ruído dos comboios e da auto-estrada.

Os dirigentes associativos devem ser remunerados?

No dia em que isso aconteça o associativismo morre. Isso não pode acontecer. Anda aqui muita gente a trabalhar por gosto e sem pensar em vir a ganhar seja o que for. O amor à camisola está com a gente. Há 70 anos comíamos pó de cimento e o associativismo até era muito maior do que é actualmente.

Gerir um clube com os sucessos que o ASC tem alcançado tira-lhe o sono?

Às vezes (risos). Obviamente orgulha-nos mas o crescimento traz-nos sempre novas responsabilidades. Damos apoio às três secções que temos [futebol, náutica e natação e triatlo] dentro das nossas possibilidades. O ASC precisa das secções para dar nome ao clube. O segredo para o sucesso é ter boas instalações e muito trabalho. Não há muitos clubes de triatlo a treinar como os nossos atletas, em piscina própria de água quente e a várias horas do dia. É um trabalho honesto que tem sido feito e dado resultados. Se não gostarmos de nós próprios não crescemos.

As pessoas da terra reconhecem a importância do vosso trabalho?

Sim, apoiam e querem o desenvolvimento do clube. Isto não é fachada. Queremos gente a trabalhar e a treinar. Somos exigentes perante a Câmara de Vila Franca de Xira porque queremos sempre mais. Precisamos de ser olhados como um grande clube. Somos das associações do concelho que mais património tem, criado depois do 25 de Abril. A única lacuna que temos é a falta de um campo de futebol.

Apesar das várias intenções do município ainda não há um novo campo de futebol para substituir o pelado sem condições da Hortinha.

Não. E é uma questão de igualdade para as outras modalidades. Gostávamos que as modalidades que estão em baixo fossem vistas como as que estão agora por cima. Gostávamos que todos os atletas tivessem as mesmas condições. Este ano temos três equipas de formação na Hortinha mas não cobramos nada aos pais e ainda oferecemos lanches aos miúdos nos dias de jogo, não apenas pelo dever cívico mas porque não conseguimos cobrar a alguém para jogar e treinar naquelas condições.

E há solução à vista?

Há sempre luz ao fundo do túnel. Desde que permutámos um terreno com a câmara em 2000 que estamos à espera. O município comprou um terreno junto à velha fábrica da Cimianto mas não dá para construir o campo que precisamos. Temos a garantia que o município vai continuar a tentar resolver o problema e mantemos a esperança. Só queremos ser tratados como os outros clubes do concelho.

Como está a situação financeira do ASC?

O clube está bem e não devemos nada a ninguém no que diz respeito a contas correntes. Mas temos as nossas despesas como todos os clubes, água, luz e um empréstimo que fizemos para construir a piscina. O que queremos garantir é que os nossos jovens possam ter as mesmas condições para praticar actividades de lazer e desporto que os jovens das outras terras. É por isso que lutamos todos os dias.

O que o tira do sério no seu dia-a-dia?

Sou presidente do ASC desde 2006 e sou técnico de manutenção civil. Gosto que as pessoas à minha volta tenham a mesma honestidade para mim que eu tenho para com elas. Uma das coisas que não admito é a falta de honestidade mas até hoje não tenho razões de queixa. Liderar um projecto destes é desafiante porque a pessoa tem de pensar bastante sobre como fazer as coisas andar. Vim para o ASC pela primeira vez em 1990 porque tinha a minha filha na náutica. E decidi que tinha de fazer qualquer coisa em prol do clube que estava a apoiar a minha filha. Dei-me bem e fiquei 12 anos. Fiz várias coisas, boas e más, mas a actividade foi muito intensa. A dada altura formámos, em 2002, uma comissão administrativa e mais tarde aceitei liderar uma direcção para o clube.

A poucos anos de celebrar o centenário o que tem em vista para o clube?

Queremos continuar o trabalho que temos desenvolvido e continuar a crescer. É o amor à camisola que nos move e vamos continuar a lutar por engrandecer o nome do clube. Venho ao ASC todos os dias, geralmente à piscina e ao futebol. Hoje em dia temos mais modalidades mas muitas empresas deixaram de dar apoios como davam no passado. Vivemos da quotização dos sócios, que são 2.800, e estamos a fazer-nos sócios de outros clubes da região.

Aposta na formação é garantia de futuro

Fundado a 1 de Dezembro de 1921 o Alhandra Sporting Club (ASC) é a maior associação desportiva da freguesia de Alhandra e uma das mais antigas do concelho de Vila Franca de Xira. É também hoje em dia uma das maiores potências nacionais na formação de triatlo, modalidade que agrupa três disciplinas diferentes: natação, ciclismo e corrida. Atletas como João Pereira ou Melanie Santos, que já representam Portugal nos campeonatos mundiais e europeus, foram formados no Alhandra Sporting Club.
Na base da fundação do clube esteve um grupo de pessoas da vila ribeirinha de Alhandra dedicado a oferecer a prática desportiva aos jovens, que na altura não tinham qualquer ocupação e viviam debaixo da forte poluição gerada pela fábrica de cimento da Cimpor.
O clube nasceu com o futebol e em Setembro de 1922 foi inaugurado o Campo de Jogos da Hortinha, que ainda hoje continua a funcionar mas sem grandes condições. A luta actual dos dirigentes é para conseguir, com o apoio da Câmara de Vila Franca de Xira, construir um moderno parque desportivo que substitua o velho campo de futebol. Ao longo da sua história o clube proporcionou à comunidade modalidades como o ciclismo, atletismo e andebol. Foi o primeiro clube do concelho a construir uma piscina e a começar a oferecer a prática de natação. Baptista Pereira, um dos portugueses que cruzou o Canal da Mancha e era atleta do Alhandra Sporting Club, é ainda hoje uma das referências do clube na natação.
A proximidade com o rio levou ao surgimento de uma secção náutica, com canoagem e vela, que funciona até aos dias de hoje. Nos últimos anos, graças às boas condições que o clube oferece, o triatlo tem sido muito procurado e o que tem granjeado mais sucessos ao clube alhandrense, com atletas campeões do mundo e da Europa a levarem mais longe o nome de Alhandra e do concelho vilafranquense.
Actualmente o Alhandra Sporting Club está organizado em três secções: náutica (com vela, windsurf, canoagem e kayak pólo), futebol (onde se inclui também futsal) e a secção de natação e triatlo, que inclui também natação adaptada e para bebés, hidroginástica, aquazumba, reabilitação física, yoga, indoor cycling e taekwondo.
Frequentam o clube mais de 300 atletas. 110 só no triatlo. Vive sobretudo das quotizações dos 2.800 sócios. A formação é a sua maior aposta, com um trabalho já considerado importante para a comunidade e o país. Os clubes grandes de Lisboa, como Benfica e Sporting, já se aperceberam disso e recrutam com frequência atletas formados no ASC.

“No dia em que se paguem ordenados a directores o associativismo morre”

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