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“O desenvolvimento do interior do país tem que ser uma causa nacional”

“O desenvolvimento do interior do país tem que ser uma causa nacional”

Personalidade do Ano Política Masculino - Vasco Estrela Presidente da Câmara Municipal de Mação

O advogado Vasco Estrela cumpre o segundo mandato como presidente da Câmara Municipal de Mação. Trabalha para que o seu concelho e os concelhos do interior em geral, sejam olhados com outros olhos que não apenas os que classificam as terras com base nos votos existentes. Recusa ser tratado como um autarca de segunda porque sente-se tão capaz como os que governam municípios do litoral. Lembra que o primeiro-ministro foi a Mação com meio Governo elogiar a política de gestão do território mas que como não se voltou a olhar para o interior os fogos voltaram a devastar quase tudo.

Edição de 01.03.2018 | Especial Retrospectiva

É fácil ser-se jovem num concelho como Mação?

Depende do ponto de vista. Se falarmos sobre a qualidade de vida que se queira ter, as infra-estruturas, a tranquilidade, o associativismo e o dinamismo que lhe é imprimido, os equipamentos para a prática desportiva e para acesso à cultura, é fácil ser jovem em Mação. O que mais nos preocupa é a falta de postos de trabalho qualificados que possibilitem aos jovens fixarem-se e constituírem família. E o problema é que não é só em Mação. É também nos concelhos limítrofes.

É um território cada vez mais de idosos e para idosos.

Não quero ver as coisas assim e acho que poderá ser um pouco redutor. As estatísticas dizem que efectivamente 36% a 38% da população do concelho de Mação tem mais de 65 anos mas também sabemos hoje que os 65 anos de hoje não são os 65 anos de há décadas. Já não é essa idade que estabelece a barreira a partir da qual uma pessoa é idosa.

Mas não vale a pena iludirmos a realidade e dizermos coisas muito diferentes daquilo que elas são. Eu acho que Mação é um território onde há qualidade de vida. Se temos as oportunidades que gostaríamos que os jovens tivessem em termos de empregos e possibilidades de futuro, efectivamente não temos.

Está preparado para ver os seus filhos saírem de Mação?

Se eles tiverem oportunidade de aqui fazerem a sua vida, gostaria que aqui ficassem. Eles têm que se realizar e ser felizes. Se puderem concretizar isso na terra onde o pai foi presidente de câmara, ficarei contente. Gostaria de deixar um concelho minimamente preparado para que os meus filhos e os dos outros possam ter aqui um futuro.

Quando era jovem, apetecia-lhe sair daqui?

Sempre estive muito ligado a esta terra. Estudei em Abrantes e em Lisboa mas eram raras as vezes que não vinha a Mação ao fim-de-semana. Nunca mudei a minha morada oficial. Estive sempre ligado à minha terra, quer nas associações quer noutro tipo de actividades. Nunca tive vontade de fugir daqui e acho que o mesmo acontece com a maioria dos jovens. Muitos deles têm pena de não ser possível viverem em Mação ou na região.

Quando deixar as funções públicas vai retomar a sua actividade como advogado?

Não sei o que o futuro me reserva. Sei que tenho uma profissão, tenho um documento que me habilita a trabalhar mas estaria a ser desonesto se dissesse que estou perfeitamente preparado para abrir um escritório. O que sei é que sinto capacidade para retomar, obviamente com as dificuldades inerentes a quem recomeça do zero mas com outras experiências e outros conhecimentos que também poderão ser úteis. Não tenho de viver atemorizado com isso.

Gostaria de continuar em funções públicas?

Tenho um compromisso com a população do concelho e comigo próprio para os próximos três anos e meio. Se não houver nada de extraordinário, nem problemas de saúde, vou cumprir este mandato. Neste momento não estou a perspectivar nada. Em termos legais poderei fazer mais um mandato se eu o entender e se o partido e a população do concelho quiserem. Se tiver de abandonar a câmara espero ter arte, engenho, sabedoria e sorte para retomar a minha vida e cuidar da minha família.

Como é que vive com a interioridade? Sente-se isolado?

Claramente! E não é pelo facto de estarmos a uma hora e um quarto ou a três horas de Lisboa, conforme o itinerário escolhido, que estamos mais ou menos isolados. Sentimos isso em procedimentos e na forma como as pessoas nos vêem.

O esquecimento destes territórios já não tem ponto de retorno?

Está mais ou menos enraizado na cabeça das pessoas que as coisas são assim e serão assim. Até enquanto presidente da câmara sinto a estratificação e a diferenciação que por vezes é feita entre os municípios das cidades do litoral e as do interior.

Sente-se tratado como um presidente de segunda?

Sinto que há quem me queira rotular dessa forma, tanto a mim como a outros colegas presidentes de câmara mas eu não me sinto de segunda. Não me sinto com menos capacidade, nem com menos valia que a esmagadora maioria dos autarcas do país.

A calma que caracteriza este concelho não o deixa às vezes um bocado deprimido?

Mais do que me deixar deprimido às vezes deixa-me angustiado e triste. Já cheguei a dizer que ninguém sofria mais do que eu quando fechava a porta da câmara às seis ou sete da tarde e não via pessoas nas ruas.

Mação corre o risco de ficar conhecido apenas pelos incêndios no Verão?

Espero bem que não. Tentamos ao longo dos anos uma inversão e começamos a ser conhecidos por muitas outras coisas, muito fruto daquilo que fazemos em termos de plano florestal; daquilo que é feito no museu; dos presuntos; do rio. Estamos a conseguir criar marcas.

Como acha que vai ficar conhecido?

Serei seguramente conhecido como um presidente que buscou todas as possibilidades de inverter ou de suster este estado de coisas. Isto implica convocar associações, convocar juntas de freguesias, a sociedade civil e todos aqueles que querem connosco colaborar. Aquilo que tenho dito, de forma às vezes até chata, é que todos somos necessários para conseguir minimamente contrariar a interioridade.

Como é que se consegue captar empresas e empregos para este território?

Tentando vender aquilo que temos, tentando dar tudo o que é possível, no limite da lei e muitas vezes pisando o risco, dando os terrenos para as empresas se instalarem, ajudando nas infra-estruturas. Temos um gabinete empreendedor que faz candidaturas a fundos comunitários de apoio seja para cafés e restaurantes, seja para outros agentes económicos.

A câmara é a tábua de salvação dos empresários e das populações.

Não posso é chegar ao fim do dia, ou ao fim do mandato, com a sensação que poderia ter feito mais alguma coisa e que não fiz. Claro que isto depende muito também de termos massa crítica, de termos gente boa.

Fala-se muito da valorização da floresta, do ordenamento do território mas os fogos vão destruindo tudo. É só conversa?

Estamos num concelho onde arderam 20 mil hectares em 2003 e agora arderam 27 mil hectares. Estamos num concelho onde, a partir de 2004/2005, pela voz do vice-presidente António Louro, começámos a dizer que era preciso inverter as coisas, que o ordenamento tinha de ser feito e que o território estava insustentável. Toda a gente reconheceu que tínhamos razão. Em 2016 o primeiro-ministro, António Costa, veio a Mação com mais quatro ministros e não sei quantos secretários de Estado, reconhecer que éramos um município exemplar nesta questão da gestão do território...

E no entanto...

Quando tudo isso foi feito e acontece o que acontece em 2017, obviamente que a sensação que temos, além da enorme tristeza pelas pessoas do concelho de Mação que sofreram o que sofreram, é que perdemos tempo e que foi pena não se ter feito alguma coisa em prol do interior do país.

Ainda acredita que aparecerá alguém com capacidade de resolver o que está mal?

Sinceramente, tenho muitas dúvidas. É preciso fazer o que tem de ser feito em territórios do interior, onde há poucas pessoas. Onde não há votos. Ou isto é uma causa realmente nacional e se aposta a sério nestes territórios, ou com o passar do tempo as coisas vão-se diluindo, vão se esquecendo e outras prioridades vão surgindo. O meu receio é que, infelizmente, a massa crítica presente em muitos destes territórios já é tão pouca que por si só já não consegue dar a volta ao assunto.

Quem é que mais tem ajudado o concelho de Mação? O seu partido ou o PS?

Quer uns quer outros podiam ter feito mais por Mação, pelo interior. Eu às vezes fui mais crítico do PSD do que do PS. Como foi o caso das portagens na A23. O PSD não geriu bem esse assunto. Quanto ao PS, é pública a minha guerra contra a situação inconcebível de discriminação nos apoios do Governo em relação aos prejuízos dos últimos incêndios.

Faz sentido manter serviços públicos quando já não há quase ninguém a utilizá-los?

Se o Estado quer ser um Estado presente no território tem de ter esses serviços públicos. Mas não sou demagógico ao ponto de dizer que as coisas têm de ser todas como estavam. Contrariamente ao que seria mais adequado a um presidente da câmara dizer, admito perfeitamente que o volume processual em Mação não justifique um juiz e um procurador em permanência no tribunal. Coisa diferente é pura e simplesmente encerrar o tribunal. Há formas de se adaptarem os serviços públicos aos novos tempos.

Desportista, bombeiro e radialista

Vasco Estrela, presidente da Câmara de Mação, nasceu a 6 de Julho de 1971. É licenciado em Direito e foi advogado até entrar para a vida autárquica. Nunca cortou amarras com o seu concelho e mesmo quando estava a estudar em Lisboa eram raras as vezes que não ia à terra aos fins de semana. É dos autarcas do país que mais tem lutado contra o esquecimento do interior e pela necessidade de se valorizarem os territórios, cada vez mais envelhecidos, apesar de confessar que muitas vezes sente que não lhe dão atenção.
Na juventude foi jogador de futebol e de andebol. Também foi bombeiro na corporação da terra e não esquece os colegas que morreram em serviço. O seu pai e um tio tinham sido bombeiros e isso teve alguma influência. “Custou-me muito aquilo que aconteceu a um grande amigo que tinha, que era o antigo comandante, que morreu no ano de 2000, o Bruno, que morreu com ele, mais o bombeirito António, como nós lhe chamávamos”. Não foi à tropa e acha que não lhe fez falta, apesar de respeitar a instituição militar.
A situação que mais o marcou na vida foi a morte do pai. “O meu pai faleceu quando eu tinha 19 anos. Ele sempre foi uma pessoa doente e grande parte da recordação que tenho dele teve muito a ver com a doença”, lembra. Como pai dá o exemplo na tentativa de rejuvenescimento do concelho. Tem três filhos, dois rapazes de 14 e 11 anos e uma menina de nove anos. Diz que às vezes se martiriza por não estar o tempo que gostaria com os filhos e com a família.
Vasco Estrela fez o ensino primário (primeiro ciclo) na escola junto à câmara que actualmente é o Instituto Terra e Memória, onde são ministrados cursos, como os de pós-doutoramento em Arte Rupestre. Confessa que levou as reguadas necessárias, considerando que era um jovem que cometia os abusos inerentes à idade. Aos 12 anos frequentou os escuteiros ligados à igreja católica, mas apenas porque os amigos estavam no agrupamento. Actualmente vai à missa de vez em quando.
O autarca também fez rádio. Na Rádio Voz de Mação foi locutor e fazia um programa de música calma aos sábados à noite. Gosta da música de artistas dessa altura como Dire Straits, Rui Veloso e Trovante. Considera-se uma pessoa sem contas a ajustar com o passado. Diz que aproveitou as oportunidades que teve e que trabalhou muito para chegar a presidente de câmara.
Foi para o curso de Direito porque a área o fascinava em jovem. Lembra-se de, muito jovem, ir sozinho ver julgamentos que decorriam no Tribunal de Mação. Dessa experiência aprendeu que algumas vezes as atitudes das pessoas não são fruto do acaso nem da maldade pura mas de meros problemas circunstanciais.

“O desenvolvimento do interior do país tem que ser uma causa nacional”

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