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“Só uma associação muito acarinhada pela população é que consegue sobreviver”

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Personalidade do Ano Cultura Masculino - Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina foi fundada há 143 anos

A Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina é a colectividade mais antiga do concelho de Tomar. Foi fundada no reinado de D. Luís I e resistiu a várias crises ao longo dos seus 143 anos de existência. A entrevista a O MIRANTE contou com a presidente da direcção, Filipa Fernandes, que está no cargo há cerca de dois anos, e com os elementos da direcção Alexandra Vasconcelos, Sónia Pais e João Vital.

Edição de 01.03.2018 | Especial Retrospectiva

Que balanço faz destes dois anos de mandato à frente da direcção da Nabantina?

Filipa Fernandes (F.F.) - Temos apostado sobretudo em melhorar a nossa sede. Quando iniciamos o mandato era um espaço que não estava devidamente cuidado e precisava de obras. Começamos por recuperar o telhado porque tinha muitas infiltrações. Depois recuperámos o salão onde decorrem os ensaios da banda. Fizemos também uma parceria com a câmara municipal e o Instituto Politécnico de Tomar para recuperarmos a fachada do prédio. Por último, aproveitamos uma sala que servia de arrecadação e criámos uma sala de convívio que serve para pequenos beberetes. Demos-lhe o nome João Vital.

Porquê?

F.F. - O João Vital fez parte de muitas direcções e é uma forma de o homenagear por tudo o que tem feito em prol da Nabantina ao longo dos anos. É uma referência para nós e para a população de Tomar. É uma pessoa humilde, trabalhadora e dá sem querer nada em troca. Além disso, as pessoas devem ser homenageadas em vida. O João Vital é uma pessoa merecedora dessa homenagem porque é, provavelmente, a pessoa que mais deu a esta causa, de forma muito discreta, e continua a dar.

Uma actuação da Nabantina que guardem na memória?

F.F – A actuação o ano passado para comemorar o 25 de Abril, em que fizemos um espectáculo de tributo a Zeca Afonso, foi muito marcante e correu muito bem. Esgotamos o Cine-Teatro Paraíso e foi um momento alto. Queremos repetir esse espectáculo.

João Vital (J.V.) - Outra actuação marcante foi na Expo’98 a convite do Presidente da República da altura, Jorge Sampaio, que tinha estado em Tomar no Dia da Cidade [1 de Março] e convidou pessoalmente a Nabantina para fazer uma actuação durante a Expo’98, no dia 12 de Setembro, que coincidiu com a data de aniversário da banda.

Quantas actuações têm, em média, por ano?

F.F - A banda tem várias solicitações por parte de festas populares e de comissões de festas do concelho. São cerca de dez, doze por ano mas já foram mais. Antes da crise quase todos os fins-de-semana tínhamos uma actuação. No entanto, a procura começa a aumentar.

É fácil recrutar elementos para a banda?

F.F. - Todos os anos, em Setembro, abrimos as inscrições para a escola de música e fazemos divulgação dessas inscrições. Mantém-se o mesmo número de inscrições de um ano para o outro. Temos sempre três ou quatro novos elementos que entram todos os anos.

Preocupam-se com a renovação da banda nos próximos anos?

F.F. - É uma preocupação constante que tentamos ultrapassar. Felizmente, na nossa banda até temos alguns elementos jovens que, se continuarem, vão assegurando o futuro.

O que traz estes jovens à Nabantina?

F.F. - É o gosto pela música e o facto de quererem aprender um instrumento. Termos uma escola de música que ensina gratuitamente é uma vantagem. E a escola foi criada para permitir que as pessoas com menos possibilidades financeiras pudessem aprender música.

Que receitas têm para manter a colectividade a funcionar?

F.F. - Temos o subsídio anual da câmara municipal e cerca de 400 associados que pagam uma quota anual por 12 euros.

Têm parcerias com outras entidades?

F.F. - Temos uma parceria com o Canto Firme de Tomar. Se eles precisam de algum material que nós temos cedemos-lho e vice-versa. A junta de freguesia urbana também nos tem ajudado.

Não têm uma situação desafogada.

F.F. - Temos que fazer muita ginástica e ser muito criativos para encontrarmos novas formas de angariar dinheiro. O ano passado, por exemplo, criamos uma iniciativa para celebrar o São João, onde convidamos todos os comerciantes da Rua Silva Magalhães a aderir à nossa animação de rua, com música ao vivo. Envolvemos a comunidade e a rua encheu.

Deveria haver limites de mandatos no dirigismo associativo como há nos municípios?

F.F. - Sim, era importante isso acontecer para as associações não estagnarem. As direcções começam com grande entusiasmo mas ele vai-se perdendo ao longo dos anos. Não é porque se deixe de gostar mas porque começa a haver outras prioridade. É importante haver renovação de direcções para manter uma associação viva e com ideias novas.

Mas por outro lado não deve ser fácil encontrar pessoas disponíveis para os cargos de direcção?

F.F. - Pois, isso é um pouco mais complicado. São quase sempre os mesmos porque não há pessoas disponíveis. Há pessoas que querem pertencer à direcção de colectividades mas é preciso saber se querem trabalhar ou se querem vir apenas por vir. Porque vir só por vir não adianta nada. Felizmente, em Tomar começa a haver jovens a interessarem-se pelo associativismo.

A que se deve esse interesse?

F.F. - Penso que querem sentir-se úteis e fazer alguma coisa pela sua cidade. Sentem que têm esse dever.

A Nabantina é mais do que uma colectividade onde se aprende música?

F.F. - Penso que serve também como referência em termos de sobrevivência e longevidade. É uma espécie de alma das associações. É a mais antiga, resistiu a tanta crise e passou por tantos momentos complicados do país e da própria colectividade que serve de exemplo. Tivemos várias divergências entre sócios e dirigentes nos anos 90 do século passado mas tudo se ultrapassou e a colectividade continua bem viva e cheia de força.

Existem várias colectividades de música no concelho de Tomar. A competição é saudável?

F.F. - Neste momento, é saudável mas nem sempre foi assim. Há uns anos havia uma competição muito renhida principalmente entre a Gualdim Pais e a Nabantina. Por vezes chegou-se a vias de facto entre elementos de ambas as colectividades. Agora está tudo ultrapassado e existe uma boa relação com todas as associações. A rivalidade existe sempre mas agora é saudável. Quanto mais partilharmos entre associações mais ganhamos todos e quem ganha principalmente é a população de Tomar.

Sónia Pais - Há dois anos organizamos uma iniciativa para celebrar o Dia Internacional da Música e convidamos as outras três bandas de Tomar para se juntarem a nós em arruadas. Saímos de locais diferentes e encontramo-nos todos na Praça da República. Foi um espectáculo muito bom.

Qual foi o momento mais alto da Nabantina?

J.V. - É difícil dizer porque são mais de cem anos mas o centenário da colectividade, em 1974, foi um momento muito alto porque juntou uma série de bandas a nível nacional e veio um elemento do Governo ao aniversário. Foi um grande evento que envolveu a cidade toda. Além disso, viviam-se os primeiros meses após a Revolução do 25 de Abril e havia um enorme espírito de festa. Foi também a primeira colectividade do concelho a comemorar o século e por isso foi marcante.

Qual é o segredo do sucesso para a longevidade da Nabantina?

J.V. - É a entrega e o amor à música e à cultura. Os tomarenses são muito bairristas e gostam muito das suas tradições. O carinho que as pessoas têm à Nabantina faz com que nunca a deixem morrer. Esperemos que seja sempre assim.

A colectividade mais antiga do concelho de Tomar

A Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina comemorou 143 anos no dia 12 de Setembro de 2017. É a colectividade mais antiga do concelho de Tomar e uma das mais acarinhadas da população. Em 1874 Carlos Campeão e José Matias de Araújo, que partilhavam o gosto pela música, decidiram fundar a banda à qual - como viviam no tempo da Monarquia, sob o reinado de D. Luís I – deram o nome de Real Banda Marcial Nabantina.
Após a implementação da República, a 5 de Outubro de 1910, a Banda deixou de ser Real para passar a Republicana e não foi necessário o 25 de Abril de 1974 para a Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina se implantar como uma casa de cultura e de oposição ao regime salazarista. Foi na sua sede, no centro histórico da cidade, que nos anos sessenta e setenta, o maestro tomarense Fernando Lopes-Graça começou a mostrar o seu talento e foi por lá que passaram também, como animadores de ciclos culturais, outros vultos da cultura nacional como Alves Redol ou Fernando Namora.
Além da Banda a sociedade tem uma escola de música onde o ensino sempre foi gratuito. Os alunos aprendem primeiro na escola e depois passam para a banda. Há filhos e pais a aprenderem.
A Banda é composta por cerca de 40 elementos, com idades compreendidas entre os nove e os 90 anos. O mais velho é o senhor Diamantino que é considerado a alma da banda e ainda acompanha nos concertos. Só não participa nas arruadas pelas ruas porque as pernas já não o permitem.
Os ensaios da banda são às sextas-feiras à noite porque muitos elementos estudam fora e outros trabalham. Os ensaios da escola acontecem antes do ensaio da banda e também aos sábados. Os seis professores da escola de música são elementos da banda que ensinam em regime de voluntariado.
A Nabantina tem outras secções como o teatro (Nabantina ao Palco) e danças de salão. A Tuna Templária também ensaia na sede da associação. A Escola de Música Canto Firme e o grupo de teatro Fatias de Cá nasceram na Nabantina, nos anos 80 do século passado. “Eram secções da Nabantina que depois sentiram necessidade de crescer e saíram criando a sua própria autonomia”, explica João Vital, que já pertenceu a várias direcções da Nabantina desde 1986.
Há dois anos a Nabantina foi distinguida pela Câmara de Tomar com a Medalha de Mérito da Cidade no dia município, a 1 de Março. A Banda actua várias vezes por ano em vários pontos do país e já chegou a tocar em Espanha. A Nabantina não se queixa de falta de público uma vez que, explicam os dirigentes, os seus espectáculos têm sempre casa cheia.
Graças à dedicação dos seus associados a Nabantina chegou aos dias de hoje rejuvenescida e revitalizada. Para resumir o seu percurso foi escolhida a frase: “Há coisas que com o tempo ganham Alma”.

“Só uma associação muito acarinhada pela população é que consegue sobreviver”

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