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“Viver e trabalhar em Mação é um privilégio”
Pedro Jana é bombeiro há 30 anos

“Viver e trabalhar em Mação é um privilégio”

Pedro Jana é de Mação e fez todo o seu percurso profissional na corporação que chefia

Edição de 21.03.2018 | Três Dimensões

Pedro Jana tem 47 anos e é Bombeiro Voluntário em Mação desde 1988 e comandante da corporação desde 2000. Passou a infância em Moçambique de onde regressou com os pais a seguir ao 25 de Abril. Gosta de cozinhar mas não se considera um bom garfo. Diz que as portagens na A23 estão a prejudicar o desenvolvimento do interior. Acredita que um dia vai voltar a ver o Tejo despoluído. Pedro Jana, nasceu em Mação e fez todo o seu percurso profissional como bombeiro. Os incêndios florestais como os do ano passado marcaram-no mas pior que os incêndios foi a morte de companheiros.

Nasci em Mação mas a minha infância foi passada em Moçambique para onde fui com três anos. O meu pai foi para lá trabalhar como electricista numa multinacional e levou a família. A minha mãe era dona de casa e tomava conta de mim e do meu irmão. Lembro-me das praias, onde íamos nos fins de semana, de andar de barco, era muito bom. Vivi lá até aos oito anos.

Havia em Moçambique muita pobreza. O meu pai levava para casa alimentos fornecidos pela empresa e nós dávamos arroz e outras coisas aos vizinhos. Chegava a haver fila à nossa porta. A minha mãe regressou primeiro a Portugal connosco, depois do 25 de Abril. O meu pai veio depois e já teve dificuldade para sair de lá.

Levo os meus filhos à escola em dez minutos. Não há filas de trânsito nem stress aqui em Mação. Viver e trabalhar na minha terra é um privilégio. Adoro a tranquilidade, o silêncio e a paisagem, embora agora esteja maltratada pelos fogos do último Verão.

Desde que me lembro sempre quis ser Bombeiro. O meu pai era bombeiro, os meus tios também e morava a trezentos metros do quartel aqui de Mação. Sempre que podia ia para lá ver os carros. Entrei para os escuteiros e o chefe era o comandante dos bombeiros. Chamava-se Dias Correia. Foi ele que me levou para os Bombeiros.

Toda a minha vida profissional foi feita nos Bombeiros. O Francisco Lopes, comandante a quem sucedi por ele ter falecido num acidente e o Senhor Elvino Pereira, que era presidente da câmara, são figuras de referência para mim.

Nem sempre as pessoas que os bombeiros ajudam nos agradecem. Mas isso não nos afecta muito porque nos basta a nossa motivação. Mas tenho que confessar que sinto uma grande emoção quando as pessoas reconhecem o que fazemos. Tenho vivido bons momentos de amizade e companheirismo ao longo dos anos.

Os piores momentos que passei na corporação foram os das mortes de companheiros. As do comandante Lopes e do Adjunto Bruno foram extremamente sentidas. Claro que também passei maus momentos, tal como os meus companheiros, nos fogos de 2003, 2007 e nos do ano passado.

As pessoas que não me conhecem acham que tenho mau feitio. Penso que isso tem a ver com o facto de não me rir muito mas considero-me uma pessoa de bom trato. Mantenho relações de cordialidade e união com todos os bombeiros e com a comunidade, que conheço muito bem.

A nível institucional sou uma pessoa de consensos. Mantenho uma relação muito próxima com a câmara municipal. Eu e o presidente Vasco Estrela fomos colegas de escola, andámos nos escuteiros e ele foi bombeiro aqui. É muito positivo ter um autarca que sabe como funcionam os bombeiros. Ele conhece as dificuldades e está sempre pronto a ajudar.

Nos incêndios do ano passado senti-me impotente perante a retirada de meios. Felizmente conseguimos coordenar sempre no terreno as nossas acções de acordo com o que achávamos mais adequado. Penso que cumprimos a nossa missão o melhor possível, apesar das adversidades.

A família é o motor da minha vida. A minha filha com doze anos e o meu filho com sete também já gostam muito dos Bombeiros. A minha mãe Helena é fundamental. A minha esposa trabalha no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco e todos os dias a minha mãe faz o almoço para mim, para os meus filhos e para o meu irmão, que é técnico florestal na Câmara de Mação. A casa dela é o nosso restaurante diário. É muito bom poder contar com esta ajuda.

O meu pai já faleceu e eu herdei a sua horta à qual me dedico nos tempos livres. Gosto de ter alfaces, couves e outros vegetais plantados por mim. E de produzir o meu próprio azeite. É também uma homenagem à memória do meu pai.

Sou bom cozinheiro e gosto de fazer todo o tipo de pratos. Todos os dias faço o jantar porque a minha esposa chega tarde e gosto que tenha essa tarefa já pronta. Curiosamente não sou muito bom garfo. Sou selectivo na comida e nem tudo me agrada. Gosto muito de um bom cabrito no forno,e de lampreia.

Este ano já fui à Ortiga comer lampreia. É pena que não seja do Tejo. Eu também sou “Arlindo Marques” (referência à campanha de apoio ao ambientalista) e lamento que não se respeite o rio de todos nós. Lembro-me de nadar no rio com os amigos e de comer o peixe pescado pelos pescadores aqui da terra. Agora não é possível mas ainda espero voltar a ver o rio despoluído.

Não vale tudo em nome de postos de trabalho e de rendimentos. As empresas devem respeitar o ambiente. Gostava que houvesse mais investimento em Mação para que os jovens pudessem ter trabalho e ficar por cá. Neste momento isso não acontece e provavelmente os meus filhos vão ter de sair daqui, quando chegar o momento.

As portagens na A23 não ajudam em nada o desenvolvimento do interior. É preciso que os responsáveis políticos revejam esta questão. As portagens condicionam a localização de empresas e o desenvolvimento do turismo. Temos óptima oferta gastronómica, eventos culturais, paisagem única, e outros atractivos que as pessoas de fora não conhecem.

“Viver e trabalhar em Mação é um privilégio”

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