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Emoção no Tramagal na última consulta do pediatra Vilela Brazão
O pediatra Vilela Brazão foi surpreendido pela presidente da associação, Graça Alfaia

Emoção no Tramagal na última consulta do pediatra Vilela Brazão

Médico deu consultas na vila durante 22 anos sem receber nada em troca. Dinheiro das consultas reverteu sempre para a Associação Humanitária de Dadores de Sangue do Tramagal que o homenageou no último dia de trabalho.

Edição de 29.03.2018 | Sociedade

Foi de lágrimas nos olhos e sem esconder a emoção que o pediatra João Vilela Brazão foi surpreendido pela direcção e associados da Associação Humanitária de Dadores de Sangue do Tramagal e também pelos seus utentes, que o quiseram homenagear e despedir-se no último dia de consultas nessa vila do concelho de Abrantes. Após 22 anos a atender crianças de forma benemérita, o pediatra João Vilela Brazão deu a sua última consulta na manhã de sábado, 24 de Março. Após as consultas foi chamado ao átrio de entrada da sede da associação, onde o esperavam dezenas de antigos e actuais pacientes que o aplaudiram no momento da despedida.
Surpreendido e emocionado, agradeceu a todos pela sua presença. “Fiz aquilo que gosto e gostaria de ter mais vida para continuar por mais tempo a fazer aquilo que gosto e a dar a minha assistência a quem precisa mas a idade também não perdoa. Orgulho-me muito de ver jovens, cujas mães foram minha pacientes e agora vêm com os seus filhos. Essa parte é que é valiosa. Eu dar aos outros não é tão importante porque faço o que gosto”, afirmou no seu discurso improvisado.
O médico, de 80 anos, aproveitou o momento para recordar as memórias de infância que o levaram a querer ajudar os outros sem pedir nada em troca. “Fui criado num ambiente rural. Vi muita gente que vivia sem condições. Meninos da minha idade que andavam descalços e passavam fome. Vi muito sofrimento. Eu era um privilegiado e fiquei sempre com a ideia que tinha que fazer algo para ajudar quem precisava. Depois de me ter formado jurei que a todas as pessoas naturais de Benavila e Tramagal nunca iria cobrar nada e iria ter a porta da minha casa sempre aberta”, contou.
Foi médico no Hospital da Estefânia, em Lisboa. Aposentou-se há 12 anos mas ainda mantém actividade no seu consultório particular. “Enquanto a minha função cognitiva funcionar continuarei a trabalhar no meu consultório. Quando perceber que já não estou na posse plena das minhas faculdades saio”, sublinha. Vilela Brazão confessa que um dos segredos da sua saúde é caminhar quase seis quilómetros todos os dias.

UM MÉDICO QUE VAI DEIXAR SAUDADES
Lina Mendonça é a única funcionária da Associação Humanitária de Dadores de Sangue do Tramagal (AHDST) e a pessoa que mais privava com o médico sempre que ele vinha dar consultas todos os meses à sede da associação. No momento da despedida não conseguiu conter a emoção. “O Dr. Vilela é um excelente ser humano, que nos vai ficar no coração. Vai ser muito difícil encontrar alguém como este senhor. Vamos sentir muito a sua falta”, confessou com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.
Também a presidente da associação, Graça Alfaia, estava bastante emocionada durante a homenagem feita ao médico cujo valor de cada consulta [25 euros] reverteu sempre para a AHDST. “Quisemos mostrar o quanto os tramagalenses estão reconhecidos pelo seu trabalho benemérito que fez durante 22 anos. É uma homenagem singela mas queremos que o doutor saiba que fica nos nossos corações e que nunca vamos esquecê-lo”, disse, momentos antes de descerrar a placa que assinala a ligação afectiva de Vilela Brazão a essa freguesia.
Na sala de espera estava uma família que recorre às consultas do pediatra desde sempre. Joana e Leonor sempre foram utentes do médico. O pai, Artur Marques, conta a O MIRANTE que sempre tiveram as melhores referências sobre o pediatra e que depois de o conhecerem confirmaram que é um excelente ser humano. “Cheguei a estar em Lisboa em trabalho e liguei para o telemóvel do doutor para lhe falar de uns problemas de saúde de uma das minhas filhas. Ele saiu de Cascais e foi ao meu encontro ao seu consultório no Campo Pequeno, em Lisboa, só para me atender. É uma pessoa excepcional e vamos sentir muito a sua falta”, disse Artur Marques.
Também o presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, Vítor Hugo Cardoso, referiu que o pediatra prestou um serviço “inesquecível” à comunidade do Tramagal. “Se alguém lhe batesse à porta com uma criança doente, mesmo de noite, o doutor Vilela Brazão não dizia que não”, sublinhou. No final, o autarca ofereceu uma medalha da freguesia ao pediatra.

Associação luta contra falta de dadores de sangue

A Associação Humanitária de Dadores de Sangue de Tramagal (AHDST) foi criada em Junho de 1990 por António Contente, depois de este ter precisado de sangue para um familiar seu. A associação é presidida por Graça Alfaia desde 2010 depois de António Contente a ter desafiado a substituí-lo. Enfermeira no Hospital de Abrantes, Graça Alfaia nasceu em Nisa mas vive no Tramagal desde criança. A sua irmã, Lina Mendonça, é a única funcionária da associação e o seu braço direito. “É ela que está todos os dias na sede da associação e trata de tudo”, explica a O MIRANTE.
Além de consultas médicas, o edifício da AHDST tem um laboratório de análises clínica, cabeleireira e o posto dos CTT. “Fizemos um protocolo com os correios e é também uma forma de dinamizar a nossa associação porque temos mais pessoas a virem cá todos os dias”, sublinha Graça Alfaia.
Actualmente, a associação tem cerca de 1200 sócios. No entanto, o número de dadores habituais na freguesia são muito poucos, pouco mais de uma dezena. A associação desenvolve muitas actividades de sensibilização junto das escolas do concelho para alertar as crianças para a importância e necessidade de dar sangue quando forem adultos. O grupo da Bemposta trabalha em conjunto com a AHDST e, segundo Graça Alfaia, este é muito dinâmico e tem ajudado bastante nas recolhas de sangue.
A associação debate-se com o problema da falta de dadores o que tem originado a que haja menos recolhas de sangue durante o ano. “Temos seis locais de recolha de sangue mas já tivemos mais. O Instituto Português do Sangue define um número mínimo de dadores de sangue para se realizarem dádivas e não temos conseguido atingir esse número de inscritos”, lamenta a presidente da direcção.
Apesar das dificuldades, Graça Alfaia faz um balanço positivo da actividade da associação reforçando o esforço de manterem actividades regulares que ajudam a manter as contas da colectividade em ordem.

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