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“Estão a matar o Tejo e temos que agir mas é já”
O pescador Mário Costa fez uma das intervenções mais duras da noite e lançou um tema para futuro debate: Os pescadores também já se recusam a comer peixe do Tejo

“Estão a matar o Tejo e temos que agir mas é já”

Cidadãos criticam falta de soluções concretas para despoluir o rio

Edição de 05.04.2018 | Sociedade

Os eleitos e convidados da assembleia municipal dedicada ao Tejo, em Santarém, que durou cerca de quatro horas, ouviram as primeiras críticas quando foi dada a voz ao público que assistia em grande número, tendo alguns que ficar de pé. A intervenção mais dura foi feita por Mário Costa, pescador no rio Tejo, residente na Golegã. “Os senhores falaram durante horas e nunca se falou numa solução para o Tejo”, afirmou.
O pescador referiu ainda que a poluição é um problema que afecta todos e que tem que ser resolvido. “Nós, pescadores, já perguntamos se é seguro comer peixe do Tejo. Os agricultores já perguntam se podem utilizar a água do rio para as suas terras e não há respostas. Estão a matar o rio e temos que agir todos já”, sublinhou, pedindo que para um próximo debate sobre o rio Tejo convidem o movimento de pescadores. “Nós é que conhecemos o Tejo porque andamos lá todos os dias”, realçou.
A poluição nos rios Alviela e Maior, dois afluentes do Tejo, também esteve em destaque. Raul Violante, empresário e morador em Pernes, referiu que o Alviela é o grande problema do concelho de Santarém e que a poluição tornou a vila de Pernes numa terra desertificada. “Ninguém quer viver com o mau cheiro diário e a poluição que circula no rio e no ar derivado de algumas empresas que laboram nas redondezas”, criticou. Também Firmino Oliveira, ex-presidente da junta de Freguesia de Vaqueiros, recordou que o Alviela é um dos poluentes do rio Tejo.
Os presidentes da junta de Pernes e da União de Freguesias de Casével e Vaqueiros alertaram, durante as suas intervenções, para o que estas populações têm sofrido com a poluição no Alviela, que ocorre há várias décadas. “Os maus cheiros são impossíveis de suportar, a qualidade do ar com muito pó e a morte de peixes deve-se à falta de fiscalização e à inacção das entidades competentes”, disse Carlos Trigo. O presidente da Junta de Pernes, Luís Emílio Duarte, apelou ao ministro do Ambiente e às entidades competentes para que descubram os culpados pela poluição no rio Alviela e para que estes sejam penalizados.

Retirada de sedimentos avança em Maio

O ministro do Ambiente afirmou que a retirada dos trinta mil metros cúbicos de sedimentos depositados no leito do Tejo, que se vai iniciar na segunda quinzena de Maio, será “extremamente cuidada” e decorrerá num terreno “sem qualquer valor ambiental”. João Matos Fernandes afirmou que o terreno onde vai decorrer a operação de retirada de sedimentos depositados no fundo da albufeira do Fratel “é um antigo areeiro sem qualquer valor ambiental”, com cinco hectares, dos quais será usado um hectare “equidistante aos dois pontos” em que se centrarão os trabalhos.
Matos Fernandes afirmou que a operação vai incidir em doze mil dos trinta mil metros cúbicos de sedimentos, os que se encontram junto ao exutor das três indústrias de papel ali existentes, uma delas a Celtejo (responsável por 90% do efluente), por serem os que “são mais pesados do ponto de vista da concentração”. Para o ministro, estes sedimentos são como uma “bomba relógio do ponto de vista da poluição”, por consumirem oxigénio, inibindo “a possibilidade de haver vida no Tejo”, e por poder repetir-se o episódio “extremamente agudo” de poluição ocorrido em Janeiro.
Segundo explicou, os sedimentos serão “bombeados” para sacos com cerca de 25 metros de comprimento depois de “flocolados” numa máquina que vai ser provisoriamente instalada no local, permanecendo, em cima de uma tela impermeabilizante, “o mínimo de tempo possível na margem do rio, até que sequem”, seguindo depois para aterro.

À MARGEM

A Assembleia Municipal Extraordinária para debater a poluição no rio Tejo durou mais de quatro horas, com algumas intervenções prolongadas e chatas em que se falou da actividade de cada entidade convidada. Alguns cidadãos presentes consideraram que não se abordou uma solução concreta para os problemas do rio. Com o passar do tempo alguns dos cerca de meia centena de populares começaram a conversar entre si de forma tão animada que criaram um burburinho na sala.
Houve quem, cansado do que estava a ouvir, tivesse mesmo fechado os olhos e passado pelas brasas.
Vários deputados iam olhando para o telemóvel enquanto outros trocavam conversas paralelas.
Junto à porta de entrada concentravam-se os fumadores que, à medida que a conversa ia animando, subia o tom das vozes e das gargalhadas; e o fumo sentia-se na sala
Junto à máquina do café havia bolinhos para aconchegar o estômago e aguentar a maratona de quatro horas que durou esta assembleia extraordinária.
Raul Violante, morador em Pernes, que já foi autarca, entregou um pisa-papéis ao ministro do Ambiente. “Para que o processo do rio Alviela não saia da sua secretária”, referiu, antes de se dirigir ao governante para lhe fazer a oferta.

“Estão a matar o Tejo e temos que agir mas é já”

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